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Correio Braziliense

Acusado de racismo no Orkut depõe na Justiça

Um depoimento tenso e repleto de acusações. Foi esse o clima que prevaleceu na apresentação à Justiça do Distrito Federal do universitário Marcelo Valle Silveira Mello, 21 anos. Ele é acusado de cometer racismo pelo site de relacionamento Orkut. Nesta quarta-feira, o estudante voltou a admitir a autoria das mensagens de cunho preconceituoso veiculadas na internet em junho e julho do ano passado. No entanto, negou que seja racista. Em interrogatório realizado na 6ª Vara Criminal de Brasília, Marcelo disse que tudo não passou de uma brincadeira e mostrou-se arrependido por não ter percebido antes a gravidade do caso. O mesmo já havia sido dito por ele em depoimento ao Ministério Público do Distrito Federal, em agosto do ano passado.

No início do interrogatório, Marcelo acompanhou cabisbaixo e com a mão no queixo a acusação lida pela juíza Geilza Fátima Cavalcanti Diniz. Marcelo disse que as expressões utilizadas por ele, como “macacos”, “pobres”, “sujos” e “burros”, não tiveram a intenção de insultar as pessoas de raça negra. “Você acha que se eu fosse racista eu teria me exposto tanto, usado minha foto e minha identidade para fazer isso?”, justificou.

Na época dos acontecimentos, o acusado fazia parte de uma comunidade do Orkut denominada Semeadores da Discórdia. Segundo ele, a intenção do grupo era provocar discussões em outras comunidades do site. Na época recém-aprovado no curso de Letras Japonês da Universidade de Brasília (UnB), Marcelo passou a entrar em comunidades afros para condenar o esquema de cotas para negros, adotado pela instituição desde o 2º vestibular de 2004. Para isso, criou o tópico “Discórdia na UnB”.

Durante uma hora de interrogatório, Marcelo não se utilizou em nenhum momento do direito constitucional que tinha de ficar calado. Respondeu a todas as perguntas da juíza, do promotor e do assistente de acusação. “Tudo isso que está aí (no processo de acusação) é verdadeiro. Mas acho triste e deprimente levar a sério o Orkut, um site que nem é hospedado aqui no Brasil. Minha intenção era só criar polêmica, confusão e discórdia geral dentro do Orkut, mas nada além disso”, disse Marcelo. “Não estou nem aí para o Orkut. Queria ridicularizar quem leva a internet a sério”, afirmou.

A ação penal contra o estudante foi ajuizada pelo MP do Distrito Federal, em agosto de 2005. A denuncia, no entanto, foi feita ao MP de São Paulo. Após a constatação das acusações, a Polícia Civil apreendeu os computadores da casa do estudante. Uma avaliação de insanidade mental, feita pelo Instituto Médico Legal (IML), concluiu que o acusado não sofre de perturbações e ordem psíquicas que o impeçam de ser penalmente responsabilizado. No entanto, o advogado de defesa do acusado, João Paulo Machado Baumotte, informou que Marcelo faz tratamento psiquiátrico desde os 16 anos e que atualmente toma três remédios controlados.

Marcelo alegou que escrevia as mensagens como forma de conseguir popularidade. “Eu queria ser o mais odiado possível. Era o prazer que eu tinha, minha única forma de diversão. Ficava atrás do computador morrendo de rir daquilo”, completou. Logo depois do depoimento, o acusado disse estar arrependido.

Tensão

Aparentemente nervoso e tremendo muito, Marcelo roia muito as unhas. Por três vezes, foi preciso que o advogado, sentado ao lado do cliente, encostasse a mão sobre o ombro do jovem e pedisse calma. Marcelo também era constantemente orientado a melhorar a postura física e a responder às perguntas olhando para a juíza. Em questão de segundos, o jovem chegou a tomar cinco copos d´água.

Ameaças

O depoimento ficou tenso quando Marcelo afirmou que estava sendo alvo de perseguições desde quando o caso se tornou público. Ele contou que até hoje recebe ligações anônimas com ameaças de morte a ele, à mãe e à avó, de 72 anos. “Só quero que me deixem em paz, deixem minha família em paz”, repetia com a voz trêmula.

Sem apresentar provas, Marcelo citou nomes de pessoas que ele acredita serem responsáveis pelas ameaças. Entre eles, estão o assessor de Diversidade e Apoio aos Cotistas da UnB, Jacques Jesus, e Rafael Ayam, ligado ao Diretório Central dos Estudantes (DCE). Este último teria agredido o acusado com pontapés, no ano passado, na própria universidade.

Segundo o acusado, cartazes com os dizeres “Marcelo Valle, o racista” foram espalhados pelos corredores da UnB. Esse teria sido o principal motivo que o levou a trancar o curso na UnB. “Fiquei com vergonha e medo de voltar à universidade. Tudo o que fiz foi uma brincadeira. Agora esses grupos afros estão querendo me pegar para Cristo”, disse.

Em entrevista ao CorreioWeb, Jacques Jesus negou todas as acusações. A reportagem não conseguiu entrar em contato com Rafael Ayam.

Acusação e defesa

A defesa prévia do acusado deve ser apresentada até a próxima segunda-feira, 14 de agosto. A principal alegação para livrar o réu será a de que as mensagens de Marcelo foram um revide do jovem a acusações anteriores. O universitário relata que, de início, as afirmações não tinham caráter pejorativo. Eram apenas opiniões contrárias ao sistema de cotas. “Ele não é racista, foi um revide. Depois que começaram a chamar ele de ‘gordo’ e ‘burro’, ele passou a revidar”, diz o advogado João Paulo Machado. Chateado com as respostas, Marcelo criou outras identidades no Orkut e intensificou o número de ataques considerados racistas.

Segundo o advogado de defesa, Marcelo tem dificuldade de criar amigos desde criança. Para o assistente de acusação, Renato Borges Rezende, a história de vida do acusado não justifica os atos cometidos por ele. “Ele é extremamente imaturo, mas infelizmente isso não faz com que ele deixe de pagar por aquilo que fez. Ele sabia o que estava fazendo, que o Orkut era um ambiente público e tinha a real intenção de falar mal da raça negra. Foi algo pensado e consciente”, argumentou Rezende.

A única pessoa da família presente ao interrogatório foi uma tia materna, que não quis falar com a imprensa. De acordo com o advogado de defesa, a mãe do jovem está abalada emocionalmente e não quis sair de casa. O pai de Marcelo morreu quando ele tinha um ano de idade. Atualmente, Marcelo cursa Ciência da Computação na Universidade Católica de Brasília (UCB).

A juíza deve marcar nos próximos dias o depoimento das testemunhas de defesa e acusação. O universitário pode pegar de dois a cinco anos de prisão por cada delito considerado racista.

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Autor Da Redação
Título Acusado de racismo no Orkut depõe na Justiça
Data 09/08/2006
Fonte http://noticias.correioweb.com.br/materias.php?id=2677963&sub=Distrito%20Federal
Veículo Correio Braziliense
País Brasil
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