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Revista Época

Caso Lawrence Allen Stanley

ÉPOCA encontra em Salvador o americano processado nos EUA e condenado na Holanda por abuso de crianças. Ele é considerado chefe de uma rede internacional de pornografia infantil e pedofilia

O americano alto, magro e meio careca poderia passar por mais um gringo encantado com as belezas da Bahia. Bem-humorado, circula por Salvador de camiseta, bermuda e chinelo de dedo. Fala um português trôpego, mas suficiente para se virar em táxis, hotéis e restaurantes. Às vezes é visto com máquina fotográfica a tiracolo. É o turista típico. Lawrence Allen Stanley, porém, está no Brasil a trabalho. De seu escritório no centro da cidade, ele controla uma rede internacional de pornografia infantil. Stanley produz, edita e comercializa pela internet um tipo de material que dá cadeia em diversos países: fotos de crianças nuas, algumas com olhares e poses que pretendem sugerir sensualidade. Vídeos, DVDs e revistas eróticas com meninas e meninos. Livros que defendem uma espécie de ideário pedófilo, segundo o qual o contato sexual entre crianças e adultos é legítimo e pode ser saudável – danosa é a forma "histérica" como a sociedade tem reagido a isso.

Stanley também divulga atrações que interessam a seu público, como o pacote "Férias no Camboja". Segundo informa, naquele país é possível fazer sexo com meninas de menos de 13 anos por apenas US$ 5. É exatamente esta a faixa etária das modelos que Stanley fotografa na Bahia, dos 6 aos 13 anos. Por suas atividades, é procurado pela Interpol, a polícia internacional. Há contra ele um pedido de extradição do governo da Holanda, onde foi condenado por atentado violento ao pudor e abuso sexual de três crianças de 7 a 10 anos. Nos Estados Unidos, foi processado pela Justiça Federal por posse e distribuição de pornografia infantil.

Stanley é advogado, tem 47 anos e chegou ao Brasil em 19 de abril de 1998. Desembarcou em São Paulo, vindo de Nova York, e em seguida foi para Salvador.Viveu por dois anos num flat no Farol da Barra, gostou da cidade e decidiu instalar-se nela definitivamente. Hoje, mora num apartamento no bairro de classe média da Pituba, a três quarteirões da praia, e mantém um estúdio na Praça Castro Alves, no centro. Seu visto de estrangeiro residente no Brasil expira em 3 de dezembro.

Pela natureza de seus empreendimentos, Stanley toma certas precauções. Não tem amigos e praticamente se relaciona apenas com a namorada - uma professora de português – e um taxista que faz as vezes de motorista particular. Em Salvador, Stanley fotografa meninas pobres e de classe média baixa com a promessa de que um dia poderão tornar-se modelos. Elas recebem de R$ 50 a R$ 200. Sem fazer idéia de onde as fotos vão parar, os pais assinam autorizações.

ÉPOCA localizou o advogado americano após uma investigação de quase quatro meses. Depois de constatar que ele é o dono, coordenador e colaborador de uma série de marcas e sites de pornografia infantil, a reportagem descobriu que Stanley é também autor de uma edição pirata do livro Anjos Proibidos, que o fotógrafo brasileiro Fábio Cabral produziu há dez anos, com nus adolescentes. Stanley reimprimiu e vendeu o livro nos Estados Unidos por meio de sua editora, a Ophelia Editions, sem autorização do fotógrafo ou das modelos. Recentemente, procurou Cabral para tentar um acordo e evitar um processo. Ofereceu US$ 3 mil. Aproveitou a oportunidade para propor um negócio. "Por telefone, perguntou se eu tinha interesse em produzir fotos digitais de meninas para um site", diz Cabral. "Falou que é um trabalho lucrativo e que eu poderia ganhar até US$ 1.500 com cada menina, por um lote de 300 fotos." Autorizado por Cabral, o repórter Tiago Cordeiro, correspondente de ÉPOCA em Salvador, se fez passar por seu assistente e conversou com Stanley.

O RASTRO DE STANLEY As operações globais do chefe de uma rede de pornografia infantil

Holanda – O advogado fugiu para não ser preso por abuso de crianças

Alemanha – Em Coswig fica a empresa de informática que Stanley contrata para redirecionar seus sites e, assim, dificultar o rastreamento das informações

Charlotte – Aqui ficam os computadores do principal site pornográfico de Lawrence Stanley

Nova York – Acusado de pornografia infantil, Stanley saiu do país. Mas a sede de sua empresa e sua caixa postal permanecem ali

Salvador – Atual base de operações do americano, depois de fugir dos EUA e da Holanda

O principal site que Stanley dirige, sob o pseudônimo de Stanaman, é na prática um portal de pedofilia, o Alessandra's Smile (Sorriso de Alessandra). Ali o internauta é convidado a comprar material pornográfico e visitar outros endereços, alguns controlados pelo próprio Stanley. A oferta é enorme. Há sites de modelos infantis, de sexo entre meninos e homens adultos, de contos eróticos com crianças, de lolitas e até de sexo explícito. Conhecedor de leis, o advogado sabe como driblar a Justiça de vários países. No Brasil, por exemplo, nu frontal de crianças é considerado crime. Por isso ele só fotografa meninas brasileiras de biquíni ou topless. Já a série com dicas de turismo sexual no Camboja, com meninas completamente nuas, não lhe rende processo na Ásia, mas no Brasil se enquadra perfeitamente na definição de pornografia. No entanto, nenhum juiz brasileiro pode tirar essas imagens da internet, por uma questão de jurisdição. A propriedade dos sites está registrada em outros países, e os servidores que os hospedam ficam nos Estados Unidos e na Alemanha. Além disso, todo o conteúdo passa por um redirecionador, o que dificulta o rastreamento da origem das informações.

"No caso de sites estrangeiros, só podemos agir se as vítimas forem brasileiras e puderem ser identificadas", explica Marcus Drucker Brandão, criador da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática no Rio de Janeiro. Identificar uma criança sem saber sequer em que cidade mora é uma tarefa dificílima. Outro problema diz respeito ao próprio conceito de pornografia. A foto de uma menina de biquíni no álbum dos pais é uma coisa. Essa mesma foto dividindo a tela do computador com desenhos de garotas sendo estupradas certamente passa a ter outro significado. De todo modo, o responsável pelo site sempre pode alegar que não há conexão entre as imagens e que a foto em questão não é de maneira alguma pornográfica. "Pela atual legislação, botar um sujeito desses na cadeia é quase impossível", diz o deputado Hélio de Oliveira Santos (PDT-SP), autor de um dos projetos que tramitam no Congresso Nacional com propostas de endurecimento da lei.

Stanley sabe que está protegido pela legislação local e segue atuando na Bahia. No fim do mês passado, voltou de uma viagem à Praia de Guarajuba, a 70 quilômetros de Salvador, com um novo lote de fotos de crianças. No mesmo dia seus sites exibiam imagens de mais de 50 meninas brasileiras, na série batizada de "Morena Park". Ele costuma fugir da discussão sobre pedofilia. "Se você fosse uma modelo infantil, ia querer que algum moralista rotulasse suas fotos de pornografia? Acho que não", disse Stanley a ÉPOCA, em entrevista por e-mail. "Todo mundo quer ser modelo. Posar para as fotos já é um fim em si, glamouroso, divertido." O fato de Stanley ter escolhido o Brasil para montar sua base é um alerta: caso não promova mudanças em sua legislação, o país pode tornar-se um dos centros mundiais de pedofilia na internet. Stanley provavelmente só será punido porque contra ele há um pedido de extradição do governo holandês, em análise no Supremo Tribunal Federal, em Brasília.

Depoimentos inéditos de um pedófilo em tratamento e de uma vítima de abuso sexual

G.R., 15 anos
Vítima de um pedófilo

O menino G.R., de 15 anos, é uma das vítimas do radialista João Roberto Gasparini, de 36 anos, preso no início de abril em Serra Negra (SP), acusado de atentado violento ao pudor. Gasparini foi incriminado por cerca de 150 fotos, em que aparece fazendo sexo com pelo menos oito menores, em seu apróprio apartamento. Suspeita-se ainda que o radialista colocasse as fotos em sites de pedofilia na internet. O pai de G.R. diz que vai processar Gasparini por danos morais.

ÉPOCA - Como você conheceu o João?
G.R. - Ele sempre mexia comigo quando eu passava em frente à loja de autopeças dele. Uma vez, ele convidou para ir ao apartamento dele. Estava com meus primos, de 14 e 17 anos.

O que acontecia no apartamento?
Ele tacava uns filmes pornôs para a gente assistir e dava Guaraná. Aí, ele ia para o quarto com um de nós. O outro ficava olhando e às vezes tirava as fotos.

Você tirou fotos?
Umas quatro vezes.

Você nunca quis saber para o quê eram?
Não, nunca perguntei.

Ele pagava para vocês?
Sim, R$ 20. A gente ficava lá uma hora e meia, duas horas.

Você já tinha feito sexo antes?
Já, com mulher. Agora estou com medo que digam que sou viado. Se bem que tem um monte de menina dando em cima de mim.

Você achava que o que acontecia no apartamento do João era errado?
Achava, mas fazia pelo dinheiro.

Como se sentia quando saía de lá?
Sei lá. Pegava o dinheiro e ia comer.

Roberto, 22 anos
Fez 3 anos de tratamento e teve alta recentemente

"Até os 18 anos, eu nunca tinha tido relações sexuais. Também não tinha informação sobre o assunto. O tesão veio de uma hora para outra. Quando eu despertei essa curiosidade, não sabia me expressar corretamente e acabei abusando de um garoto de quase 3 anos. A curiosidade me levou para um caminho errado.

Eu era balconista numa padaria, e maltratei o filho do meu patrão.

Tinha 15 anos quando comecei a trabalhar lá, por indicação da minha irmã mais velha. O meu patrão era praticamente meu vizinho, e minha mãe olhava o filho dele desde que nasceu. Costumava brincar com a criança, de vez em quando levava para ver a mãe. Sentia ele quase como um irmão, porque cresceu dentro da minha casa.

Um dia, na escola, um grupo ficou debatendo sobre relações sexuais. Eu não sabia nada nem sobre masturbação. Essa ignorância me levou a maltratar uma criança. Me veio um desejo louco na hora, do nada. Não me controlei. O menino passou em frente ao meu quarto e eu chamei. A gente brincou um pouco com o menino com carrinho de Fórmula 1.

De repente, olhei para ele e imaginei uma garota. Dei uma viajada. Pedi para ele abaixar a calça. Abaixei a minha. Não agredi, não bati, não ameacei. Ele fez tudo o que eu pedi, porque era inocente. Não houve penetração, eu só fiquei passando meu pênis nele. Ele ficou imóvel, não chorou. Tudo durou no máximo 4 minutos. Eu não sabia o que estava fazendo. Quando caí na real, saí correndo.

Fiquei fora de casa 24 horas, sem comer. Tinha culpa, e não entendia o que estava acontecendo comigo. Me retranquei e não falei com ninguém da família durante três anos. A mãe do menino ficou sabendo o que tinha acontecido quando ele já estava com 5 anos. Levou o filho numa psicóloga, e pediu para ela me atender também. Só consegui falar no assunto depois de dois meses de tratamento.

Hoje, tenho um relacionamento com uma moça, estou praticamente noivo. Ela tem 20 anos. A minha menina sabe do meu problema e me apóia. Temos uma relação completamente normal. Descobrimos o sexo juntos. Foi muito legal. Ela ficou grávida, e eu senti aquela ternura de ser pai. Mas o útero dela não desenvolveu e ela perdeu a criança. Foi um choque. Aí eu pensei: "Já maltratei uma criança, agora perdi uma". Será que foi um castigo? Agora posso dizer que estou bem. A gente aprende a tirar coisas boas do errado. Sinto segurança quando estou com crianças. Mninha família também confia em mim, deixam meus sobrinhos ficarem sozinhos comigo. Queria conversar com a mãe do menino que eu abusei, porque ela foi muito legal comigo. Sou muito grato a ela."

NoticiaForm
Autor PAULA MAGESTE
Título Caso Lawrence Allen Stanley
Data 10/06/2002
Fonte Revista Época
Veículo Veículo Nacional
País Brasil
pt-br

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