Violentos, punks voltam a chocar

28/10/2007
Fonte: 
http://oglobo.globo.com/sp/mat/2007/10/28/326930126.asp
Autor: 
Gabriel Batista
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional

SÃO PAULO - Depois de terem chocado com o visual agressivo no início da década de 80, os punks voltaram a ser vistos como ameaça pela sociedade por causa dos crimes cometidos por integrantes do movimento. Foram pelo menos dois casos só nos últimos 15 dias. Com isso, os punks, que já haviam sido absorvidos pelo sistema, atraem agora o foco policial.

O promotor de Justiça Raul de Godoy Filho é responsável pela acusação em dois processos de crimes cometidos por punks. Um deles é o episódio em que três punks mataram, em junho, um turista francês. O outro caso ocorreu no fim de semana retrasado, quando três jovens assassinaram um balconista por causa de uma fatia de pizza. Para o promotor Godoy, os punks violentos procuram um fato que os coloque em destaque.

- Nos anos 80, era uma briga entre grupos rivais. Não tinha violência contra a sociedade. Isso está virando onda - disse o promotor.

Os recentes crimes, no entanto, não refletem a ideologia do movimento. Os punks sustentam valores como anti-machismo, anti-homofobia, anti-nazismo, amor livre, anti-lideranças, liberdade individual, autodidatismo, etc. Com a violência gratuita propagada por alguns adeptos, os punks fiéis ao movimento inicial se sentem acuados, temem o preconceito.

O vocalista e guitarrista da banda punk Inocentes, Clemente Nascimento, afirma que o movimento era melhor nos anos 80.

- Havia um núcleo mais coeso. Hoje, foi diluído e cada um faz a própria interpretação, o que é uma pena - afirma.

Para o vocalista, os crimes ocorrem porque a sociedade brasileira está mais violenta.

- E o punk não é imune a isso - diz.

O ex-VJ da MTV Gastão Moreira, que dirigiu o documentário "Botinada", sobre o punk no Brasil, reforça a opinião de Clemente e afirma que os integrantes do movimento envolvidos em agressões gratuitas são uma minoria.

- São mais recorrentes as mortes em brigas de torcida. Não se pode generalizar. Esses crimes envolvendo punks são casos isolados. Não dá para julgar a categoria - afirma.

Como nos anos 80, as brigas entre punks e skinheads (carecas) são freqüentes. Só que, hoje, os insultos começam na internet, principalmente em páginas do site de relacionamentos Orkut, na qual eles trocam ofensas e ameaças. Existe, inclusive, um grupo chamado Vício Punk, que se envolveu em alguns dos últimos casos. Há quem diga que os integrantes dessa gangue imitam os personagens do filme "Laranja Mecânica", de 1971, dirigido por Stanley Kubrick, sobre um grupo que se diverte com a ultraviolência, como espancamento de mendigos, por exemplo. Mas nem a polícia sabe ao certo o motivo da onda de violência punk.

- Geralmente, entram em confronto por ideologia ou por causa de mulher. O fato é que esses grupos são como igreja: tem um a cada esquina. Não sei por que isso voltou agora - diz a delegada Margarette Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e de Intolerância.

O promotor Raul de Godoy Filho também diz desconhecer as causas.