Fonte:
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cidades/pri_cid_130.htm
Como a família de Pedro, o adolescente que foi alvo de uma aterrorizante troca de mensagens pelo MSN, tem lidado com a tensão e o sofrimento provocados pelo plano de homicídio flagrado pela polícia
“Hoje eu não consigo pensar em nada. Só chorar. Fecho os olhos e vejo aquelas mães segurando cartazes com as fotos dos filhos desaparecidos ou assassinados…” O desabafo é da mãe do adolescente de 17 anos que seria a vítima de um assassinato planejado na internet por um grupo de jovens da classe média de Brasília. Maria*, 39 anos, pronuncia a frase entre lágrimas. Com os olhos inchados e expressão abatida, ela diz buscar nas conversas com o filho as respostas para entender como uma discussão por ciúmes de uma ex-namorada pode ter virado caso de polícia. O adolescente tem evitado sair do Guará, onde mora. Também deixou de ir aos lugares onde costumava encontrar os três rapazes e o menor acusados de tramar a sua morte. “É para evitar confusão. Mas medo, não tenho”, afirmou Pedro ao Correio, ontem à tarde.
A família do adolescente ameaçado mora em uma casa simples, no fundo de um terreno, no Guará. A residência tem somente um quarto, sala, cozinha e banheiro. De pé, encostada à parede, Maria fala da preocupação com a exposição do filho na mídia. Resiste, mas acaba aceitando ser entrevistada. “É melhor deixar isso para lá. A polícia já está cuidando do caso. Tenho medo de que isso deixe esses rapazes com mais raiva ainda”, justifica. Depois concorda em falar da angústia que vive desde que a polícia revelou o plano para matar o filho dela. “Só soube na quarta-feira (dia 4). Aí registrei queixa de ameaça. Não sei o que fazer. Nem o que pensar. Fico perguntando para ele (Pedro) o que aconteceu. Quero detalhes. Mas ele parece que se fechou”, lamenta.
Desde que a história veio à tona, Maria, que está desempregada, já ouviu conselhos de vizinhos para mudar-se da cidade. E confessa: vontade de voltar para o interior do Pará não falta. Mas o adolescente não quer ouvir falar no assunto. “Só iria se fosse com ele. Mas também estou concluindo meus estudos. Ele foi criado aqui. Não vamos largar tudo e ir embora assim, de uma hora para outra”, sustenta.
“A ficha caiu”
Pedro, que até ontem estava tranqüilo em relação ao assunto e chegou a dizer que não acreditava que os jovens fossem capazes de fazer algo contra a vida dele, mudou de idéia depois que a polícia divulgou parte dos diálogos que o grupo mantinha pelo MSN. “Depois que vi isso….parece que a ficha caiu. Hoje acho que poderiam mesmo fazer algo contra mim. Tenho a impressão de que eles pensam que eu fiz a denúncia. Mas não fiz. Para mim, estava tudo resolvido depois da conversa que tivemos no shopping”, disse, referindo-se ao encontro que teve com Jorge*, o rapaz que ficou com a ex-namorada dele e com quem começou a disputa.
Na tarde de ontem, a mãe da garota com quem Pedro namorou por três anos pediu que ele fosse à casa dela para falarem sobre tudo o que está acontecendo. Maria também pretende procurar a família da adolescente para conversar. “Eles são gente muito boa, pessoas sérias. Gosto muito da menina. Eu não sei o que eles estão pensando sobre tudo isso”, preocupa-se Maria.
Desde que teve a última conversa com Jorge, em um shopping de Brasília, Pedro diz ter evitado freqüentar o local, ponto de encontro dos rapazes. “O Guará sempre foi a minha casa. Agora estou ainda mais aqui. A única coisa boa nessa história é que eu descobri quem são meus verdadeiros amigos. E eu posso contá-los nos dedos.”
Apesar de o filho repetir que não tem medo, o coração de Maria não tem paz. “E quando a mídia parar de falar no assunto? Que garantia eu tenho de que não virão para cima do meu filho?”, pergunta.
“Planejar não é crime”
O advogado de três dos quatro acusados de tramar a morte de um adolescente pela internet, Cleuber Delano, nega que os jovens possam ser responsabilizados por qualquer crime. Ao avaliar os diálogos em que pelo menos dois dos rapazes falam em matar o adolescente, planejam levar o corpo para Santo Antônio do Descoberto e combinam treinar a pontaria em um estande de tiro, o advogado diz que “planejar um crime não é crime”. E prossegue: “Não existe crime de cogitação. Se a execução não começar, não há crime. Se fosse assim, 90% da população estaria presa. Quantas vezes, numa briga de trânsito você diz ‘vou te matar’”, indaga.
Para Delano, as famílias dos acusados estão “transtornadas”. Segundo ele, depois que o caso tornou-se público, dois dos três envolvidos foram reconhecidos pelos chefes e estão suspensos temporariamente do trabalho, até que o inquérito seja concluído. O terceiro estaria com depressão, sem sair de casa desde quarta-feira (dia 4), quando a polícia apreendeu computadores e celulares na residência dos adolescentes.
Sobre as acusações da polícia, Cleuber Delano afirma que foi montado um cenário que não existe para incriminar os jovens. “As fotos em que eles aparecem usando entorpecente e com a arma nas mãos são do ano passado. Os diálogos pelo messenger foram bem depois disso. A polícia está colocando tudo isso no mesmo saco”, critica.
Para o advogado, os rapazes também não podem ser indiciados por formação de quadrilha, como chegou a cogitar a delegada-chefe da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), Suzana Machado. “Formação de quadrilha só fica caracterizada, primeiro, se tiver mais de três pessoas envolvidas diretamente. Até agora são dois cogitando a prática de um crime. E esse nem é o principal ponto. É preciso existir a intenção de uma associação permanente para praticar crimes, o que não é o caso”, sustenta Delano.
O advogado destaca que o caso está sob investigação e, por se tratar de denúncia anônima, é muito arriscado fazer qualquer juízo de valor em relação aos envolvidos. “As fotos são fortes. O diálogo deles também. Não há como negar que isso choca. Mas só cabe ao juiz julgar o caso. E para caracterizar um crime, seja ele qual for, é preciso mais do que isso”, alega. “Fico pensando: será que depois da conclusão do inquérito, se eles forem a julgamento e saírem inocentados, terão o mesmo espaço nos principais jornais televisivos e escritos do país para dizer que são inocentes?”
Os três rapazes já prestaram informações à polícia e, segundo Delano, continuam à disposição para tantos novos esclarecimentos quantos forem necessários. Afinal, destaca, eles são os maiores interessados na investigação. “Tudo não passou de inocente e inconseqüente troca de ‘farpas’ entre jovens que se desentenderam eventualmente.” (AB)
(*)
Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Identidades dos acusados não foram reveladas porque a lei de tóxicos proíbe a exposição de usuários.