Fonte:
http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6189&template=&start=1§ion=&source=a1255421.xml&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=23&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=
Um dos suspeitos de participar da rede que incentivou e acompanhou pela Internet o suicídio de um adolescente gaúcho é um ex-bombeiro de Chicago (EUA).
A hipótese foi levantada pelo pai da vítima e encaminhada para a Polícia Federal. Na próxima semana, os documentos serão enviados para a Interpol (Polícia Internacional), na França, e depois remetidos para Chicago.
De acordo com análise realizada pelo pai do estudante no grupo de discussão de suicidas que a vítima participava, um homem seria o internauta que o assessorou no método escolhido para a própria morte.
- ...segundo depoimentos (postados) dos demais (participantes no site), ele (o bombeiro) tem evidente responsabilidade no rumo dos acontecimentos: em vez de uma palavra de apoio ao jovem, ensinou-lhe como proceder (no suicídio) e o estimulou - escreveu o pai na notícia-crime encaminhada à Polícia Federal, onde também pede que a Interpol se envolva no caso.
Pelo que o pai pôde constatar nos diálogos contidos no computador do filho, o bombeiro teria ensinado como ele deveria proceder no suicídio.
- Vamos encaminhar para a Interpol o documento que o pai da vítima nos mandou para que a polícia americana avance nas investigações - explica o superintendente da PF no Rio Grande do Sul, José Francisco Mallmann.
A participação da PF no caso é uma ponta das investigações. A outra está a cargo da delegada Eliete Rodrigues, da Delegacia da Criança Vítima. Ela aguarda relatório dos técnicos do Instituto-geral de Perícia (IGP), que buscam informações contidas em sites suicidas e na memória do computador do adolescente.
- Será possível verificar o conteúdo de todos os textos e encontrar todos os e-mails das pessoas que participaram das conversas - diz o perito Daniel Salomoni.
A partir das informações da perícia, a delegada poderá pedir aos provedores a quebra do sigilo dos e-mails suspeitos. A morte de um adolescente gaúcho de 16 anos incentivada e acompanhada em tempo real pela Internet foi revelada ontem, em Zero Hora.
O caso
Durante o suicídio, ocorrido no dia 26 de julho, o garoto, que morava com os pais em um apartamento de classe média no bairro São Geraldo, em Porto Alegre, trocava mensagens com internautas. Uma jovem estudante de Antropologia em Toronto, no Canadá, chegou a avisar a polícia local, que comunicou à PF no Estado. Quando os policiais chegaram ao apartamento, porém, o garoto estava morto.
ZH mostrou que havia pelo menos um mês o adolescente discutia métodos para levar adiante o plano de se matar e pedia dicas para outros internautas. Em uma conversa mantida no dia 26 de junho - um mês antes da morte - ele pediu opinião de integrantes do fórum de discussões sobre dois métodos para o suicídio. Um deles foi utilizado na quarta-feira, dia 26.
"Coloquem a Internet na pauta da família"
Aos 28 anos, o presidente da ONG SaferNet Brasil, Thiago Tavares Nunes de Oliveira, dedica-se a defender e a promover a educação e os direitos humanos na Internet. Abalado com a morte de um adolescente gaúcho orientado e estimulado por internautas, Oliveira conversou ontem por telefone com Zero Hora.
Zero Hora - Quais os principais riscos que a Internet oferece a crianças e adolescentes?
Thiago Tavares Nunes de Oliveira - Para as crianças, é o caso da pedofilia, sem dúvida. No caso dos adolescentes, é a questão da droga o que mais preocupa.
ZH - E o caso de grupos de suicidas? Passou a preocupar?
Oliveira - Nós produzimos relatórios sobre um fenômeno que afeta jovens do sexo feminino, que é a questão da anorexia e da bulimia.
ZH - Qual a relação com o suicídio?
Oliveira - Elas querem emagrecer e recorrem à Internet para comprar remédios para deixar de comer. Estes remédios causam efeitos colaterais e, muitas vezes, resultam em óbitos. Estamos falando na faixa de 5 mil a 6 mil jovens que relacionamos no Orkut, no Brasil. Elas atuam escondidas dos pais. O índice de suicídio entre essas vítimas é muito alto.
ZH - As autoridades brasileiras estão preparadas para o problema?
Oliveira - Não. Basta visitar as delegacias de polícia que você vai ver isso na prática. A própria sociedade não parou para estudar isso.
ZH - Qual a dica que você daria aos pais?
Oliveira - Se você é um pai ou uma mãe que não sabe lidar com o computador, aprenda com o seu filho. Estabeleça algum tipo de diálogo. Recentemente lançamos uma cartilha chamada
Diálogo Virtual (entre em safernet.org.br e clique em dicas), feita por adolescentes, sob a nossa orientação. Nosso objetivo era mostrar a realidade do outro lado da Internet para os jovens. Recomendamos que tanto os pais quanto os jovens acessem esse conteúdo e coloquem a Internet na pauta da família.