Site incentiva jovens à automutilação e a suicídio colectivo

21/11/2007
Fonte: 
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1311371
Autor: 
Sara Dias Oliveira, Maria José Santana
Veículo de Imprensa: 
Veículo Internacional

Jovem de 14 anos feriu-se intencionalmente e grupo de amigos pensava matar-se

Um menor de 14 anos, residente em Macinhata, Vale de Cambra, terá praticado automutilação parcial, alegadamente incentivado por um página alojada na rede social on line Orkut. O caso já está a ser acompanhado pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CPCJR) de Vale de Cambra, que, ontem à noite, reuniu de urgência. O Ministério Público irá agora proceder às investigações.

O PÚBLICO apurou que o jovem terá confidenciado a uma amiga de Vila de Nova de Gaia que se sentia deprimido e que estaria mesmo a pensar suicidar-se, juntamente com um outro jovem. A colega terá contado à mãe, que, por sua vez, decidiu comunicar o caso a um seu conhecido, elemento da PSP de Aveiro.

As autoridades policiais entraram ontem em campo e a PSP de Aveiro, informou, em comunicado, que "um grupo de menores, na casa dos 14 anos, foi supostamente incentivado pelo conteúdo de um site da Internet que estimula a automutilação (o que terá acontecido pelo menos com um dos menores do grupo), cujos objectivos passariam ainda por um suicídio colectivo".

O PÚBLICO apurou, no entanto, que não havia nenhum registo de o menor ter ontem recebido qualquer tratamento hospitalar e que a auto-mutilação poderá não ter acontecido esta terça-feira. Ao que tudo indica, o jovem não apresentava ferimentos de maior gravidade.

O comando da PSP de Aveiro escusou-se a adiantar mais pormenores sobre o caso, bem como sobre o site que poderá ter encorajado o jovem vale-cambranse. As autoridades policiais admitem, no entanto, que "tudo possa ter começado num site social", precisamente o Orkut.

O jovem, que frequenta a EB 2,3 de Vale de Cambra, não está referenciado na CPCJR local. O presidente desta comissão vale-cambrense, David Loureiro, garantia, ao final da tarde, que o menor de 14 anos "não estava sinalizado". "É um jovem normal, de uma família perfeitamente normal, que terá sido influenciado por um site", acrescentava.

A estrutura reuniu ontem à noite de urgência para analisar o caso. "Vamos tentar apurar estes factos, ir a casa do jovem, se assim for decidido". "O jovem pode possivelmente estar em perigo", adiantava. A CPCJR, que se escusou, depois, a divulgar pormenores sobre a reunião, diz ter tido conhecimento do sucedido através de um fax enviado ontem, às 17h20, pela PSP de Aveiro, no qual constava o nome do menor em causa. A Câmara de Vale de Cambra, por seu turno, desconhecia o assunto.

MP investiga o caso

A denúncia do caso já foi feita junto da GNR e do Ministério Público. Contactada pelo PÚBLICO, a GNR de Vale de Cambra escusou-se a prestar quaisquer esclarecimentos sobre a situação que envolveu este jovem.

As investigações tenderão, agora, a apurar as circunstâncias que envolvem o caso trazido à praça pública pela PSP de Aveiro, "para efeitos preventivos", sublinhava a força policial, no comunicado. Importará também verificar qual a responsabilidade dos administradores do site em questão em relação ao sucedido. Refira-se que a propaganda do suicídio é um crime punível pela legislação portuguesa, com uma pena de prisão até dois anos ou uma multa até 240 dias.

O que é o Orkut?

O Orkut é uma rede social (semelhante ao Hi5, ao MySpace ou ao Facebook), detida pela Google. Uma plataforma que promove a criação de novas amizades e o contacto de pessoas com interesses em comum. Segundo o próprio Orkut, só as suas 50 maiores "comunidades" têm 37 milhões de utilizadores.

Mais de 55 por cento destes seus utilizadores provêm do Brasil. Este ano, uma denúncia apresentada pela ONG Safernet Brasil acusava o site de distribuição ilegal de imagens de pornografia infantil e de facilitar o tráfico de drogas.

Também na Índia - que contribui com mais de 15 por cento de utilizadores - o Orkut não passou imune a polémicas: a criação de uma comunidade "We Hate India" levou um tribunal de Bombaim a processar a Google.

O controlo de algumas comunidades tem-se revelado como a principal dor de cabeça para os responsáveis do Orkut. Comunidades focadas em temas como o racismo e o nazismo são apagadas por violação das normas do Orkut.

Os sites de redes socias, pela sua larga audiência, especialmente entre os mais jovens, são propícios à divulgação de mensagens nocivas. Por exemplo, o grupo Pro Ana Nation, alojado na rede social MySpace, faz a apologia da anorexia e tem mais de mil pessoas registadas. No Facebook encontram-se mais comunidades deste género.

O Orkut só prevê o uso da sua rede social por pessoas com mais de 18 anos e incentiva a que se denunciem os casos que não estejam de acordo com esta norma. De acordo com a Wikipedia, 0,38 por cento dos utilizadores do Orkut são portugueses (a rede social on line mais popular em Portugal é o Hi5).

Há milhares de comunidades no Orkut, muitas delas privadas; a tentativa de encontrar alguns grupos por "mutilação colectiva" ou por "suicidio colectivo" revela-se em missão quase impossível, como encontrar uma agulha num palheiro.

A grande maioria dos membros destas redes sociais usa-o para fins perfeitamente legais, e o próprio Orkut faz questão de afastar alarmismos: o site incentiva os pais a controlar o uso que os seus filhos façam do Orkut, e nota que a esmagadora maioria das suas comunidades "não tem qualquer espécie de conteúdo ilegal".