Site continua recordista em denúncias de crimes

22/01/2007
Fonte: 
http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=9944
Autor: 
Rodrigo Martins
Veículo de Imprensa: 
Estadão

Nem só pela popularidade o Orkut chama a atenção no Brasil. Desde 2005, a comunidade chamou a atenção da mídia por causa de crimes que estariam ocorrendo em suas comunidades e perfis.

Em janeiro de 2005, o jornal norte-americano The New York Times denunciava a existência de comunidades que incitavam racismo, homofobia e intolerância religiosa. Na época, instaurou-se uma investigação no Ministério Público de São Paulo.

Em fevereiro de 2006, o Link denunciou a existência de crimes como pedofilia, venda de drogas e comércio de receitas médicas. Junto a um dossiê de 150 páginas, a reportagem foi encaminhada pela ONG Safernet ao Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo, que intimou a filial do Google no Brasil a dar explicações.

Na época, a justificativa da filial foi que não tinha poderes sobre o Orkut. “O escritório está no País apenas para vender, fazer o negócio crescer”, disse o presidente brasileiro, Alexandre Hohagen.

O caso foi parar na Câmara dos Deputados, em Brasília. Em abril, a matriz do Google foi convidada para ajudar a solucionar o problema. A empresa disse que faria o possível, desde que isso “respeitasse as leis norte-americanas.”

Em julho, o MPF entrou com uma ação para que o Google Brasil pagasse multa diária de R$ 7,6 milhões por não acatar as decisões que pediam os dados dos suspeitos, para auxiliar nas investigações.

Na ocasião, a diretora jurídica da empresa, Nicole Wong, veio à público e não descartou tirar o site do ar. “Espero que não chegue ao ponto de fechar as operações no Brasil e deixar de oferecer os serviços, que cheguemos a um acordo com a Procuradoria”, declarou ao jornal Folha de S. Paulo.

Esse polêmica ainda não teve fim. De um lado, o Google diz que repassa os dados dos suspeitos, desde que com ordem judicial e se pedidos à matriz da empresa, nos EUA. De outro, as autoridades do País querem que o escritório no Brasil seja o responsável, por estar submetido às leis daqui.

“Enquanto isso, os crimes continuam”, diz Thiago Tavares, da ONG Safernet. “Das 356 mil denúncias de crimes que recebemos em 2006, 94% eram no Orkut.” R.M.

Cuidados no site evitam transtornos

Com a explosão no número de usuários do Orkut e a criminalidade no site, é bom ficar esperto ao navegar na comunidade.

Primeiro, para não expor toda a sua vida para xeretas ou mal intencionados, é bom se ligar no que escreve nos livros de recado: lembre-se, a página é pública, qualquer um poderá ler.

Informações pessoais e fotos também devem ser colocados com cautela. “Fotos com sinais de riqueza e comunidades que mostram onde você mora, por exemplo, são um prato cheio para ladrões”, diz o presidente da Safernet, Thiago Tavares. “Além disso, deve-se evitar pôr fotos íntimas, como de biquíni. Corre-se o risco de ter essas imagens em sites pornográficos.”

Clicar em links no seu livro de recados também é uma fria. Usuários mal intencionados enviam mensagens com links maliciosos para roubar a senha do Orkut e até de bancos.

Orkut, 3 anos, é preferência nacional

Mesmo com críticas a spams, superlotação e denúncias de crimes, comunidade ainda é febre no Brasil

O que restou da “febre Orkut”? Completando três anos hoje, a comunidade virtual mais famosa do Brasil já deixou de ser novidade há um bom tempo. Mas nem por isso os brasileiros abandonaram o site. Hoje, são nada menos que 23 milhões de perfis que dizem ser do País.

Não que o site seja adorado por todos. Não faltam críticas dos usuários ao excesso de spams, à superlotação dos grupos de discussão, que atrapalham a troca de idéias, e à superexposição que as conversas públicas do Orkut trazem.

Também não faltam polêmicas. Desde 2005, o site se tornou alvo de denúncias de diversos crimes que estariam ocorrendo em grupos e perfis. Racismo, pedofilia, venda de drogas, entre outros, cometidos por usuários mal intencionados levaram até os donos do serviço, o Google, a prestar esclarecimentos à Justiça brasileira.

Mesmo com tudo isso, usuários como Vinícius Fiorentino, 25 anos, não se afastam do site. “Depois de todos os problemas do Orkut, tomo mais cuidado para não me expor ”, diz. “Mas não quero sair. Todos que conheço estão lá: amigos, pais, irmãs...”

Vinícius tem um motivo a mais para ser fiel ao Orkut. Foi no site que ele conheceu sua noiva, Bruna Severiano, 20 anos. “Fucei o perfil dele, me identifiquei e mandei um recado. Deu certo”, diz Bruna, que está grávida de cinco meses.

O cupido virtual foi tão eficiente que, em dezembro, vai ter casório. “O Orkut faz parte das nossas vidas”, diz Vinícius.

Para entender o sucesso e a longevidade do site no Brasil, o Google encomendou um estudo. Segundo a pesquisadora da Universidade Católica de Pelotas, Raquel Recuero, a permanência do site no gosto dos brasileiros se deve à popularização que a página teve. “É o que se chama de efeito de rede. Ao atingir uma massa crítica, há estabilização: todos ficam lá porque todos estão lá”, diz.

‘Que saudade do Orkut de 2004’

Em três anos, o Orkut mudou muito: novas ferramentas, versão em português, extinção de convite para se cadastrar... E tudo isso, que podia ser encarado como uma evolução, acabou mesmo causando é saudade em quem entrou na página pela primeira vez lá no comecinho, em 2004.

“O excesso de spam e a superlotação tornaram o site muito chato”, diz o consultor João Mascarenhas, 28 anos, que entrou na comunidade em maio de 2004.

Mascarenhas é dono da maior comunidade do Orkut, a Odeio acordar cedo, com mais de 3,2 milhões de usuários. Surpreendendo quem o chama de “O rei do Orkut” e o admira por conseguir botar tanta gente num grupo só, o consultor diz preferir que a comunidade tivesse menos gente.

“Antes, as pessoas do meu grupo contavam histórias engraçadas sobre acordar cedo, suas táticas para evitar o tormento, etc”, diz “Hoje, as pessoas só querem saber de fazer joguinhos, ninguém mais quer discutir.”

O cineasta Felipe Dall’Anese, 28 anos, entrou em março de 2004 no site e diz que, com a popularização, a privacidade de quem usa o Orkut foi para o espaço. “Hoje, todo mundo está lá, seus amigos e até sua mãe”, diz. “Além disso, há espertinhos que querem xeretar sua vida. Pode ser até um assaltante, vai saber. Dou o mínimo possível de informações sobre mim.”

Hoje, Dall’Anese usa o site mesmo é para divulgar as festas em que toca como DJ. “Aproveito a minha lista de contatos para divulgar a festa. É um ‘spam amigo.’”

Já para o engenheiro Carlos Teixeira, 26 anos, que também se cadastrou em março, houve uma certa evolução no serviço. “Não tem mais tantos erros nas páginas como no início.”

Mas, colocando tudo na balança, ele diz que o serviço piorou. “Há hackers e pessoas mal intencionadas. Retirei até a minha foto”, diz. “Tenho saudade do Orkut de 2004.”

Ênfase no social conquista brasileiro

Ferramentas de conversa entre os membros e exigência de convite para entrar explicam sucesso do Orkut

Quando o assunto é comunidade virtual, o Brasil foge às regras do resto do mundo. Para começar, o País é um dos poucos em que o Orkut vingou. Além disso, por aqui não houve, em três anos, uma debandada contínua de usuários de um site de relacionamentos para outro, o que já ocorreu nos EUA e na Europa.

No que somos diferentes? “É a própria questão cultural”, diz o pesquisador Theophilos Rifiotis, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “O MySpace (comunidade popular nos EUA), por exemplo, é mais voltado para a música. Já o Orkut tem muitas ferramentas para conversa entre usuários. E os brasileiros gostam muitos de estar em contato”, diz.

O próprio visual do Orkut é uma das explicações da adesão e longevidade do site. “Ele possui uma interface amigável ao Brasil”, explica a pesquisadora Maria Bretas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “E quando foi lançada a versão em português facilitou ainda mais.”

Essas características aliaram-se a um ingrediente que deu um toque final para o site ganhar em cheio os brasileiros: só entrava quem tinha convite. “Os usuários gostaram dessa exclusividade”, diz o pesquisador do Ibope Inteligência, José Calazans. “Como o brasileiro é muito social, ele precisa se integrar às coisas que estão na moda. Não ser convidado para o Orkut significava quase como não ter amigos. Todo mundo corria atrás de um convite.”

Foi assim que o site chegou aos atuais 23 milhões de perfis brazucas, 58% do total. Nem depois de surgirem outros sites parecidos, além da demora causadas pela superlotação, denúncias de crimes e problemas como spam, os brasileiros abandonaram a comunidade. “Pela disseminação, esses problemas não afetam a popularidade” constata Calazans.

Mas por que tanta devoção, mesmo após três anos? “O Orkut cresceu muito e concentra muitos brasileiros. Ninguém sai pois os amigos estão lá e é possível xeretar a vida dos outros. É uma zona estável, difícil de quebrar”, diz a pesquisadora Raquel Recuero, que estudou o Orkut sob encomenda do Google, dono do serviço.

Se a maioria dos usuários não abandona o site, o Orkut já dá sinais de estagnação. De acordo com Raquel, o número de brasileiros que se cadastra hoje está diminuindo. “Há uma estabilidade e uma quantidade de usuários que sai e entra a cada mês”, diz. “Muitos já fizeram três ou quatro perfis, sempre ‘matando’ um, saindo do sistema e, depois de um tempo, retornando.”

Essa característica de fidelidade dos ‘orkuteiros’ já chama a atenção. E dá lucro. O consultor de Marketing Bruno Unger, 25 anos, descobriu no site uma forma de, ao mesmo tempo, trabalhar e ter tempo para surfar. “Tenho 200 grupos de discussão e divulgo eventos através deles. Ganho por isso e trabalho só três horas por dia.”

O grande negócio de Unger aconteceu no início do mês. Ele prestou uma “ consultoria” à rede de comunicações do Sul RBS e embolsou R$ 2 mil. “Passei o controle do grupo ‘Eu amo Floripa’ para divulgar um evento”, conta. “Onde tem muita gente, sempre tem trabalho. E o Orkut é ‘o’ lugar.”

‘Queremos crescer no resto do mundo’

Entrevista com David Jeske, engenheiro-chefe do Orkut

Depois de ganhar o Brasil, o Orkut quer agora se espalhar pelo mundo. Criado pelo programador turco Orkut Buyukkokten, a comunidade é atualmente chefiada pelo engenheiro David Jeske. É ele quem coloca em prática as mudanças para popularizar o site em outros países.

A obrigatoriedade dos convites para acessar a página, por exemplo, já acabou há dois meses. “Muita gente não conhece alguém que esteja no Orkut. Acabamos com o convite para facilitar o acesso em outros países”, disse ao Link.

Por que o Orkut fez tanto sucesso no Brasil?

Essa também é uma curiosidade nossa. Acho que é pela forma de conexão das pessoas no site, por interesses. Nós adoramos o fato de os brasileiros terem tomado conta do serviço.

Quando o Orkut foi lançado, já existiam outras comunidades. Como o Orkut procurou se diferenciar?

Uma das principais diferenças é o livro de recados. Facilita o contato entre as pessoas.

Falei com usuários e muitos me disseram que não usam mais os grupos de discussão. Por quê?

No começo, os brasileiros usavam os grupos como uma forma de competição, para afirmar que eram maioria. Depois, esses grupos viraram uma forma de representação: as pessoas entram para mostrar que gostam de uma banda, por exemplo. Aí, quem tem os mesmos interesses conversa via recado, em seus perfis.

Quanto aos crimes no site, o que o Orkut está fazendo?

O Orkut é uma comunidade grande. E os usuários ficam livres para conversar o que quiserem. Temos regras sobre quais conteúdos são aceitáveis e processos para os usuários reportarem o que não está de acordo ou que é ofensivo.

Como vocês colaboram com a Justiça brasileira nos crimes?

Temos um procedimento para as ordens judiciais recebidas no Google. Quando as recebemos, vemos se concordamos com ela e, então, fornecemos as informações sobre as atividades dos suspeitos.

Hoje, não é mais necessário ter um convite para entrar no Orkut. Por quê?

Fizemos um modelo baseado na confiabilidade: só entrava com o convite de um amigo. Mas sabemos que muitos não têm acesso ao Orkut e queremos que, em outros países, todos possam ter uma forma fácil de entrar. Queremos crescer no resto do mundo.

Você acha que, no futuro, teremos comunidades que congreguem todos os países?

Sim. Estamos estudando formas de tradução simultânea. Todos poderão interagir. Não tenho nada específico para anunciar. Mas a tecnologia dos tradutores de hoje está muito avançada.

Comunidades virtuais fazem sucesso desde 95

As comunidades virtuais não são tão recentes quanto se imagina. Muito antes do Orkut e até de serviços famosos no exterior, como o MySpace, os sites de relacionamento já conectavam pessoas com interesses em comum.

O primeiro foi o Classmates, de 1995. O site permitia encontrar antigos amigos de escola cadastrados. “Quis fazer um local de encontros independente”, disse ao Link o criador da página, Randy Conrads, dos EUA. “Me inspirei na reunião que fiz de 20 anos da minha formatura do colegial.”

Depois da Classmates, outra comunidade que ditou tendências foi a SixDegrees. Ela estabeleceu a forma como visualizamos os amigos nas comunidades de hoje. Tal qual o Orkut, permitia ver a distância de relações de amizades que separava um usuário do outro.

Trocando em miúdos: você entrava no perfil de alguém e descobria que ele era amigo de um amigo seu, ou seja, estava a dois graus de amizade. A teoria era que qualquer pessoa está a, no máximo, seis graus de qualquer outra.

Até 2002, entretanto, as comunidades não deslancharam. Aí surgiu o Friendster. Em pouco tempo, tornou-se febre nos EUA. Mas erros de navegação constantes fizeram os usuários, aos poucos, abandonarem a comunidade e começarem a migrar para outro serviço surgido em 2003: o MySpace.

Com uma inclinação para música, o site apresentava um monte de ferramentas: postar em blogs, publicar músicas e, posteriormente, vídeos. Além disso, artistas e bandas começaram a criar perfis para divulgar seus trabalhos. Não deu outra: em 2004, tornou-se o maior do mundo. Hoje, são mais de 100 milhões de usuários.

Mas como no mundo das comunidades nada é eterno, o MySpace já está perdendo força lá fora. Muitos estão migrando para o Facebook, uma comunidade que nasceu em 2004 para integrar estudantes, mas que se tornou aberta para qualquer um em 2006.

Comunidades que lançaram tendências


NOME | Classmates
ANO | 1995
WEB | www.classmates.com
DETALHES | Permitia pesquisar pelo banco de dados para encontrar antigos amigos de escola. Dava para ver o perfil do colega, além da possibilidade de fazer contato com ele

NOME | SixDegrees
ANO | 1997
DETALHES | Precursor do sistema de “adoção” de amigos utilizado nas comunidades de hoje. Mostrava ao usuário se os membros do serviço eram amigos de algum amigo seu

NOME | Friendster
ANO | 2002
WEB | www.friendster.com
DETALHES | Responsável por popularizar o uso de comunidades virtuais. Quando virou a mais badalada, principalmente nos EUA, recebia 1 milhão de visitantes por mês

NOME | MySpace
ANO | 2003
WEB | www.friendster.com
DETALHES | Com uma inclinação para a música, a comunidade, a partir de 2004, tornou-se a maior do mundo . São mais de 100 milhões de usuários atualmente

NOME | Orkut
ANO | 2004
WEB | www.orkut.com
DETALHES | Virou febre no Brasil a partir do segundo semestre de 2004. Foi o responsável por popularizar o conceito de comunidade virtual no País