Sexting, novo perigo na rede

17/05/2010
Fonte: 
http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/05/17/urbana2_0.asp
Autor: 
Juliana Colares | Diário de Pernambuco
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional



Uma pose sexy, algumas peças de roupa a menos e uma máquina fotográfica ou um celular com câmera dão início à diversão picante. Mais uns cliques aqui e outros ali e a foto sensual não tarda em ser enviada por celular ou e-mail para o parceiro ou a parceira. Quando não vai parar em blogs, fotologs e sites de relacionamentos. Brincadeira de adulto? Nem tanto. A mania vem ganhando adeptos mais jovens. São adolescentes que fotografam ou filmam o próprio corpo nu ou seminu em poses e situações sensuais e divulgam as imagens na internet ou enviam por meios eletrônicos para amigos e namorados.

A prática foi apelidada de sexting, nome em inglês sem tradução em português que deriva das palavras sex (sexo) e texting ou messaging (envio de mensagens). E esse excesso de exposição está intrigando pais e especialistas em segurança na internet, às vésperas do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado amanhã.

A adesão dos jovens ao sexting preocupa tanto que a ONG Safernet, especializada em crimes e segurança na internet, incluiu o assunto na sua cartilha de dicas sobre perigos na rede. O diretor de Prevenção da Safernet Brasil, Rodrigo Nejim, alerta para a possibilidade de, uma vez na internet, nunca mais ser possível controlar a imagem ali disponibilizada. "Ela pode ficar exposta para sempre. A pessoa pode ter sua imagem vendida ou divulgada em sites de pornografia sem saber", disse. E não dá para achar que está seguro ao enviar a foto só para o paquera ou postá-la em um álbum do Orkut com restrição de acesso. Nada garante que, quando o namoro acabar, aquele e-mail não será repassado para os colegas. Nem que os privilegiados que podem acessar a pasta de fotos não irão copiá-las em seus próprios álbuns online. "É o segredo que se conta para o melhor amigo, que conta para o melhor amigo. Qualquer um pode copiar e divulgar fotos em outros lugares", enfatizou Rodrigo.

Em relação à exploração sexual de crianças e adolescentes, o diretor de Prevenção da Safernet Brasil afirma que a prática do sexting também pode deixar o jovem mais vulnerável. "Os agressores procuram pessoas que se expõem dessa forma. Quanto mais se expõe, mais atrai agressores que podem se aproximar com o intuito de cometer abusos sexuais", afirmou.

Para o educador social do Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) e representante da entidade na Rede de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes do Estado de Pernambuco, Ricardo Oliveira, todo esse processo de circulação de fotos e vídeos sensuais tiradas pelos próprios adolescentes e enviadas ou postadas por eles mesmos na internet tem uma série de causas que precisam ser analisadas. Uma delas, e talvez a mais importante, na opinião de Ricardo, é o processo de erotização da infância, da adolescência e da juventude. Reflexo, acredita, do bombardeio de músicas e conteúdos veiculados na mídia que "retratam a questão do sexo como objeto, mercadoria e não da sexualidade como direito", disse, sem esquecer que os pais têm papel fundamental na orientação dos filhos.

"Tudo isso leva os jovens a compreender o sexo de forma deturpada. Eles terminam se vitimizando quando tiram fotografias suas e disponibilizam para amigos ou namorados. Há diferença grande entre o direito à sexualidade, de práticas equivocadas de se expor nesse tipo de situação", disse Ricardo Oliveira.

Apesar de afirmar que não há nada concreto, estatisticamente, que prove a relação entre a prática do sexting e a exploração sexual de crianças e adolescentes, Ricardo acredita que a brincadeira pode deixar os jovens mais vulneráveis. "O que não justifica ele ser violado na sua integridade. Nada justifica querer chegar perto de outra pessoa sem que ela permita só porque ela se expôs de forma x ou y", enfatizou. "A gente vive numa sociedade em que essas imagens sensuais estão no cotidiano. Precisamos falar sobre isso. Afinal, uma foto sensual pode atrair um adulto pedófilo", alertou o psicólogo e professor da Universidade Federal de Pernambuco Luís Felipe Rios.