Série de Reportagens Especiais: ORKUT SEM LEI

10/08/2005
Fonte: 
http://www.reportersocial.com.br
Autor: 
ALCEU LUÍS CASTILHO, JÉSSIKA TORREZAN e LÍGIA LIGABUE
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional

Defesa da barbárie ganha escala e reúne mais de 650 mil brasileiros

Confissões de furtos, pregação da violência, troca de experiências sobre bombas, articulação de rachas no trânsito por todo o Brasil, discriminação, intolerância, defesa de chacinas, tortura e execuções, negação dos direitos humanos – tudo isto pode ser encontrado no fenômeno Orkut, o sítio líder de acessos à Internet no Brasil. Há um ano, comunidades racistas ou nazistas reuniam algumas dezenas, no máximo centenas de pessoas. Agora, porém, o problema teve a temática ampliada e adquiriu escala. Após um levantamento feito nos dois últimos meses, a Agência Repórter Social contabilizou mais de 660 mil pessoas nessa lista da barbárie.

Tome-se a maior das comunidades Bandido Bom é Bandido Morto, entre as oito com o mesmo nome. No dia 6 de janeiro, contava 235 integrantes. Em 6 de julho, chegou a 9.817. Hoje, passado pouco mais de um mês, está com 13.878 membros, em um crescimento de quase 6.000% desde o início do ano. Nessa e em outras comunidades os participantes pregam sem constrangimento a execução de bandidos (ou suspeitos) e até mesmo linchamentos.

O fenômeno se repete em milhares de comunidades. Afirmado no Brasil como mídia dentro da mídia, e não apenas mais um sítio, o Orkut abriga hoje todo tipo de defesa da barbárie. Esse País cordial e violento se manifesta a partir da quase certeza da impunidade. Algumas raras práticas ganharam investigações policiais e decisões judiciais, como o racismo e a venda de drogas, como o ecstasy.

Confira a lista de algumas comunidades onde há a defesa de crimes e/ou ilegalidades:

1) Ladrões de Cone - 65.028 membros – (Nº da comunidade: 172549)

2) Rachas e Pegas – 59.538 membros – (Nº 86255)

3) Todo mundo fuma maconha - 34.132 membros – (Nº 73691)

4) Não aparto briga, chego na voadora - 15.651 membros – (Nº 849780)

5) Bandido Bom é Bandido Morto - 13.878 membros – (Nº 487318)

6) Lança Perfume - 9.552 membros - (Nº 1229348)

7) Eu passava trote telefônico - 9.196 membros – (Nº 730721)

8) Eu amo CD pirata - 2.984 membros – (Nº 386117)

9) Bombas e explosivos - 2.104 membros – (Nº 371580)

10) Meto porrada mermo, hehehe - 1.863 membros – (Nº 595021)

11) Eu odeio Direitos Humanos - 1.859 membros – (Nº 252046)

12) Eu sei dirigir bêbado – 1.853 membros (Nº 1237617)

13) Legítima Defesa - 1.668 membros – (Nº 317909)

14) Campanha Linchamento Já - 1.517 membros – (Nº 948077)

15) Amei a limpa do Carandiru - 1.417 membros – (Nº 1287745)

16) Eu chuto pombos - 1.002 membros – (Nº 128989)

17) A Volta da ditadura militar - 947 membros - Nº 327416

18) Sou de menor, mas adoro dirigir - 892 membros – (Nº 1505021)

19) Grafiteiros e pichadores - 679 membros – (Nº 245394)

20) Subversão - 466 membros – (Nº )

A descrição da comunidade Subversão é emblemática: "Para a discussão de todo e qualquer tipo de subversão: qual método utilizar, quando é a melhor hora, com quais ferramentas e como se proteger. Desde abertura de fechaduras, ligação direta em carros, invasão de propriedade e vandalismo até subversão digital, hackerativismo, falsificação de documentos... Nada é proibido - Tudo é permitido".

O total de pessoas nesse tipo de comunidades listadas acima passa de 430 mil. A adesão, no conjunto, é de centenas de pessoas por dia. O Orkut reúne no mundo mais de 8 milhões de pessoas. Nada menos que 75% estão no Brasil, o país do massacre do Carandiru, das chacinas na Candelária, Vigário Geral e Baixada Fluminense, o país da polícia que mata e de apenas 20 anos de democracia.

Nessas comunidades quase não há perfis fictícios, como ocorre em comunidades nazistas. A adesão a idéias e práticas antidemocráticas ganha nelas nome, profissão e foto de cada um desses brasileiros, a maioria absoluta de classes média e alta. No nome ou na descrição de algumas delas já se vê como o ovo da serpente da violência ganhou no País contornos virtuais - muito além da Constituição, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dos pactos civilizatórios. Nas centenas de milhares de tópicos, confirma-se a explosão da intolerância.

Essa lista da barbárie virtual - e que dialoga com a real - pode ainda ser ampliada contando os 230 mil membros de comunidades preconceituosas ou segregacionistas, como estas:

1) Eu odeio a Igreja Universal - 83.697 membros – (Nº da comunidade: 56698)

2) Odeio pobre - 39.354 membros – (Nº 121960)

3) Eu odeio as Minas Mano - 32.049 membros – (Nº 267420)

4) Eu quero um Tsunami na Argentina - 7.909 membros – (Nº 1040466)

5) Eu odeio a menininha do 21 - 2.655 membros – (Nº 5414174)

6) Odeio viados – 896 – (Nº 908486)

7) Eu zôo travecos - 826 – (Nº 741208)

8) 1, 2, 3, Baiano trepa, nasce 6 - 754 membros – (Nº 1235593)

A linha divisória entre os dois grupos é muito tênue. Nas comunidades contra gays e travestis há inúmeras descrições de agressões feitas pelos integrantes ou por conhecidos. Naquela contra a atriz de 5 anos que fazia o comercial da Embratel, ocorre a defesa do estupro. Em Eu odeio as Minas Mano, não se disfarça o racismo. Argentinos seguem motivando instintos diversos de violência. Os evangélicos, a intolerância religiosa.

Esses são apenas alguns exemplos, que serão detalhados nos próximos dias, tema por tema, nesta série de reportagens.

“No meio virtual as pessoas são mais soltas e corajosas”, diz moderador

O moderador da comunidade Racha é crime, e daí?, o webmaster Mark Lawrence Smith, de 26 anos, não considera que faça apologia ao crime no Orkut. “Pelo contrário, nossa entonação é no sentido de que racha é crime mas ninguém faz nada sobre isso”, afirma. “A policia não fiscaliza e o poder pÚblico não oferece espaços para a prática do esporte. Nossa briga é para termos em São Paulo e no resto do país eventos dentro de autódromos com segurança e custos acessíveis.”

Ele diz que não há vigilância em relação aos comentários. “Mesmo porque o máximo que ocorre é um ou outro integrante da comunidade comunicar algum grande feito”, diz. Se o Orkut facilita esse tipo de comentários? “Sem dúvida. No meio virtual as pessoas são mais soltas e corajosas.” Smith não se espanta com o que lê. “O que é dito lá dentro é o que se vê nas madrugadas de qualquer avenida da cidade.” E não se preocupa com ações judiciais. “Não corro nas ruas. Participo de campeonatos regulares de arrancada e eventos em autódromos.”

O estudante Marcus Vasconcellos, de 20 anos, da comunidade Eu odeio a Argentina, se isenta de responsabilidade pelo que digam naquele espaço. Ele diz que não a criou para incitar a violência. "As pessoas levam sempre para esse lado, mas não tenho a ver com o que escrevem lá", comenta. "Já li alguns tópicos com ofensas, muita delas partindo de argentinos que ofendem nosso país com comentários racistas, e como o Orkut tem o domínio de brasileiros, a resposta é dada a altura..."

Vasconcellos também não se preocupa com eventuais punições. "Eu não, tem tanta comunidade pior aí, por que iriam pegar justo a minha? O Orkut não diz que tu não pode te expressar desta forma... Tem comunidades sobre o mesmo tema mas com nomes muito mais ofensivos. Se lá houvesse um moderador que entrasse em contato com os criadores das comunidades pra mudar nome e apagar tópicos a historia seria outra..."

O Orkut não atende desde o ano passado a pedidos de reportagem sobre abusos praticados na rede, da pedofilia à apologia do nazismo.

Discutindo religião

O moderador da comunidade Eu odeio a Igreja Universal, Fernando Costacurta, adota um tom um tanto missionário para defender seu espaço na Internet. "Quando ela foi criada, o objetivo era tentar alertar ou mostrar para as pessoas o que de verdade o que o senhor Edir Macedo estava tentando fazer", explica. "Todas as vezes, desde a Idade Média, que a religião se mistura com a política, são causados conflitos sérios e de grandes proporções. Tenho medo de que um dia o Brasil se torne uma teocracia devido à ignorância do povo e se inicie uma ‘caça às bruxas’".

Sua comunidade, porém, tornou-se um espaço para a intolerância religiosa contra os evangélicos. "De vez em quando aparecem alguns usuários mais exaltados tentando agitar alguma coisa, mas são iniciativas isoladas e em sua grande maioria adolescentes que nem sabem muito bem por que criticam a igreja ou o bispo", minimiza. "Mas tenho alguns colaboradores que me avisam quando alguém tem um comportamento inadequado e eu excluo o tópico e expulso o membro pra sempre".

Por conta da comunidade, Costacurta diz receber cinco ameaças de morte por semana, de pessoas diferentes. "Dizem que vão me matar, pra eu tomar cuidado, que sabem onde moro, etc. Nunca pensei que fosse chegar a tanto, mas, como já disse Luís Fernando Verissimo, quando uma pessoa se põe a discutir religião com você, quase nunca ela quer ouvir a sua opinião".

"Legítima defesa"

Vitor Amazonas, dono da comunidade Legítima Defesa, onde ela é definida como "direito natural humano", não acredita que incite a violência, apesar dos tópicos pregando execuções sumárias: "Como o nome e a descrição expõem, o propósito é apenas repelir um ataque insano e infantil do governo e das mídias nocivas ao direito consagrado em lei que é o de defender-se".

Para Amazonas, o Orkut é "tão somente um grande fórum de discussão sobre os mais diversos assuntos, dentre eles a defesa legalmente amparada no Código Penal" e na Constituição Federal. "Dentro de uma democracia todas as opiniões são livres. Cercear uma opinião é uma forma de censura, ou não?"

"Vou tirar do ar"

O quinto moderador a atender a reportagem foi o argentino Alejandro Montalbano, de 24 anos, da comunidade Eu odeio a menininha do 21. Sobrevivente de um boom de comunidades similares no ano passado, retiradas após a publicação de reportagem sobre o tema, essa comunidade é composta por agressões explícitas à criança de 5 anos, atriz dos comerciais da Embratel, e até por uma ameaça de estupro – mantida por mais de um ano entre os tópicos.

"É o seguinte, eu nem sequer entro mais no Orkut. Faz meses que deixei de usar, e nem lembrava da comunidade pra falar a verdade", afirmou. "Não sei nem o que acontece nela. Mas agora que você me lembrou, a única coisa que posso responder pra você é que sim, me preocupo com que as autoridades possam encher o meu saco, por isso eu vou tirar essa comunidade do ar. Muito obrigado por me lembrar, hehehe!!!".

Mais de 100.000 pessoas participam de 250 comunidades sobre rachas e pegas

Jovens de Apiúna (SC), Aracaju, Araraquara, Arujá e Barueri (SP), Blumenau (SC), Brasília, Cachoeira do Sul (RS), Campinas (SP), Cascavel (PR), Curitiba (SP), Caxias do Sul (RS), Duartina e Franca (SP), Frederico Westphalen (RS), Guarulhos e Jundiaí (SP), Juiz de Fora (MG), Londrina (PR), Nova Friburgo (RJ), Osasco (SP), Porto Alegre, Recife, Ribeirão Preto, Santo André, São Bernardo do Campo, Taboão da Serra e Tambaú (SP) praticam racha e se encontram no Orkut para trocar experiências. No Brasil, eles somam mais de 100 mil aficionados pela infração de trânsito gravíssima, praticada também na BR-293, nas Rodovias Anhangüera, Ayrton Senna, Fernão Dias e Presidente Dutra.

Em São Paulo, eles se reúnem em lugares como as Avenidas Faria Lima, Guilherme Dumont-Villares, Jacu-pêssego, Nova (zona norte), Politécnica, Pio XII, Pirituba, Ricardo Jafet, Roberto Marinho, e nos bairros Jardim Monte Kemel, Pirituba e Vila Matilde. Todos esses lugares têm comunidades próprias no Orkut. O total de membros em cada uma delas varia de 60 mil até 1 pessoa somente. Mas nem é necessário obter escala para causar algum dano – duas pessoas que se encontrem a partir de uma dessas comunidades e resolvam sair às ruas já colocam várias vidas em perigo. O trânsito brasileiro tem 400 mil feridos e 34 mil vítimas fatais por ano.

Perigo? Vejamos o que diz a descrição da comunidade Eu tiro racha, moderada pelo dentista santista Thiago de Souza Cruz, de 23 anos, repetida em várias outras comunidades:

“Tudo bem, sabemos do perigo, da ilegalidade, mas desculpem. Quem ama velocidade não tem como mentir. Eu amo a velocidade e sei das suas conseqüências. Mas eu tiro racha e posso garantir que sou um cara responsável. A mesma velocidade que emociona é a mesma que mata....e daí?”

E daí que no dia 30 de julho morreu na região de Teresópolis (RJ) um dos membros da comunidade Rachas e Pegas, Rui Cesário Pinto, de 25 anos. Motivo? Acidente de carro - o motorista perdeu o controle num trecho sem curvas e bateu em um poste. Em um tópico na própria comunidade os colegas analisaram o assunto:

- Pior que esse é o preço mesmo! Já perdi um amigo meu que entrou embaixo de um ‘banzu’ a 220 km/h! Como moderador da comunidade... sinto muito a perda! (Rafael ‘Playba’, de Canoas, RS)

- Já ouvi histórias muito cabulosas de pessoas que morreram em rachas... E por muito pouco não deixei de gostar. (...) A gente quando entra em um carro não lembra dos riscos, só quer adrenalina... E às vezes paga um preço caro para cacete. (Carina Levandoski, de Curitiba)

- Vi as fotos e fiquei chocado. Tenho uma filha e às vezes dou um cacete com o carro com ela dentro ou mesmo sozinho. Aí paro pra pensar: que merda deve ser perder o controle do carro tirando um racha na cidade e matar alguém ou tirar a própria vida. (...) Estou tentando me controlar e correr menos (...) Curto pra caralho tocar meu carro em alta, é de família, confio demais no meu braço e no meu pé, mas rezo todos os dias pro carro estar em dia e nenhum filho da puta me fechar (...). Meus pêsames vão com intensidade pra você Ruy. A morte vem de um jeito ou de outro, fique em paz meu velho. E pra vocês, meus camaradas, quando entrarem no carro, chamem seus santos para a proteção, a gente nunca sabe o que espera pela frente. (Ewerson Sumati, designer de Bauru, SP)

”Estilo de vida”

Os rachas são definidos em uma das comunidades como “a nova subcultura de rua”, um “estilo de vida”. Os dias preferidos são sexta-feira e sábado. As modalidades variam: 400 metros, moto, carros 1.0. Há comunidades no Orkut para mulheres, para menores e para “amigos”: “Evitando o confronto com marginais do submundo das corridas clandestinas e possíveis mortes no trânsito”, explica o moderador da Racha entre amigos. “Não há nada mais amistoso do que tirar um racha com um amigo.”

Em Racha de Rua, alguém propõe que se organizem para quebrar radares. Outro avalia que há riscos: “Tem sempre gente. Quem relar um dedo já era.”

Mesmo em cidades como Porto Alegre, onde há um racha legalizado, em autódromo, o Racha Tarumã, há quem crie uma comunidade para fazer rachas na rua. “Vamos combinar para bombar locais e avenidas como fazíamos antigamente na Assis Brasil e fazer essa cidade estremecer novamente”, propõe o estudante Rodrigo Coelho.

Sinal vermelho

Ainda que essa cultura do racha mostre-se mais numerosa, outras comunidades do Orkut mostram ameaças a quem queira encarar o trânsito no Brasil como apenas um meio de locomoção. Seus membros contam que dirigem sem carta de motoristas, dizem gostar de passar no sinal vermelho, dirigir bêbados (esta com 1.859 membros) ou fumando maconha.

Frases

Alguns dos recados deixados pelos participantes destas comunidades "ensinam" os jargões usados pelos praticantes de racha. Outros participantes, agindo como se não estivessem ligando seu nome a uma prática criminosa, chegam a marcar rachas ou perguntar sobre local e horário de corridas ilegais. Veja alguns exemplos:

”Galera, pra quem não sabe, roletar é passar no vermelho sem ver se vem carro...

Bom, eu faço isso, de madrugada na Av. Brasil aqui em Campinas (...) dá uma sensação que sei lá...só fazendo...hehehe” (Mocóta, membro da comunidade Eu passo no sinal vermelho, no dia 20/06/2005)

“Falaê galera! Alguém sabe onde rola um racha maneiro aqui no RJ (capital), de preferência Zona Oeste?? No pega que eu ia a PM não quer mais aceitar a grana para deixar a gente rodar...” (Ricardo Rocha, 20 anos, na comunidade Racha no RJ, em 09/08/2005)

“Ricardo, provavelmente você é novo na comunidade ou faz muito tempo que não aparece por aqui. Nunca, jamais, questione sobre locais e horários de pegas nos tópicos da comunidade. (...) Já foi solicitado diversas vezes aos membros que caso tenham que marcar ou informar assuntos desse tipo que o seja feito via MSN ou e-mail para que não causem problemas para si próprios com a polícia.” (Rezinha Taddei, professora, dona da comunidade Racha no RJ, em 09/08/2005)

Comunidades sobre rachas e pegas:

Rachas e Pegas – 59.599 membros – (Nº 86255)

Racha é Crime – E daí? - 9.553 membros – (Nº 178722)

Eu curto Rachas e Pegas - 6.176 membros – (Nº 480113)

Arrancadas, rachas e pegas - 931 membros – (Nº 1396548)

Pegas e carros de rua - 646 membros – (Nº 1388680)

Racha 1.0, Eu tbm tiro 638 membros – (Nº 795889)

Racha Vila Matilde - 533 membros – (Nº 1064534)

Racha de Rua – Turbo e Aspirado - 477 membros – (Nº 549366)

Racha Jacu pessego - 382 membros – (Nº 1596544)

Racha na Ricardo Jafet – 359 membros – (Nº 1477858)

Eu tiro racha com a PM - 328 membros – (Nº 2061023)

Rachas e pegas p/ mulheres - 118 membros – (Nº 1164634)

Outras comunidades sobre trânsito:

Eu sei dirigir bêbado - 1.860 membros – (Nº 1237617)

Sou de menor, mas adoro dirigir - 901 membros – (Nº 1505021)

Foda-se, eu dirijo bêbado - 199 membros – (Nº 1319604)

Quando eu bebo não dirijo, piloto - 144 membros - (Nº 1822300)

Eu fumo maconha no transito - 110 membros – (Saiu do ar)

Eu passo no sinal vermelho - 81 membros - (Nº 754865)

Racha & cachaça - 57 membros (Nº 2250669)

Criador da comunidade ‘Eu sei dirigir bêbado’ diz em entrevista: “Estamos no Brasil”

Repórter Social - Você acredita que a comunidade Eu sei dirigir bêbado incentive o crime?

Júlio César Costi - Não. A comunidade visa apenas relatar e trocar experiências entre os membros. Até porque, falando como leigo em Direito, para o indivíduo ser enquadrado por conduzir embriagado depende da quantidade que ele bebeu. Isto é, o teor alcoólico no sangue deve estar acima do permitido pela lei de trânsito, o que nunca ficou explícito na comunidade.

Repórter Social – Você exerce algum tipo de vigilância sobre os comentários e tópicos?

Costi - Olho com freqüência o que os membros postam. No entanto até hoje não tive nenhum tipo de problema, não deletei um tópico sequer.

Repórter Social – O Orkut facilita esse tipo de comentários? Como?

Costi - Sim. Qualquer um pode postar o que quiser, até mesmo de forma anônima. Além disso, acho falho o Orkut ser aberto para todas as idades. (O Orkut é oficialmente para maiores de 18 anos).Deveria haver algum tipo de controle. Na verdade, quando criei essa comunidade enviei convite a todos meus amigos, com a intenção de que entrasse o "gambazedo".

Repórter Social – Quem é o gambazedo?

Costi - São meus amigos que sabem que podem "tomar umas" e assim mesmo conduzir com cautela, como eu. Saio de carro todos os fins de semana há uns 6 anos, bebo e até hoje nunca arranhei o pára-choque, nem furei um pneu. Obviamente, quando tomei acima da conta algum amigo dirigiu. Seria uma comunidade para eu e meus amigos relatarmos historias não só de conduzir embriagados, mas também de quando andamos de carona, ou mesmo a pé.

Repórter Social -Como dono da comunidade, você se espanta com algum comentário?

Costi - Não. São todos esperados e bem-vindos. Se considerar algum comentário inadequado, não hesitarei em apagá-lo.

Repórter Social - Não se preocupa com alguma ação judicial?

Costi - Não. Nunca dei a entender que já dirigi com teor alcoólico no sangue acima do permitido pela lei. Segundo li, isso é acima de em média duas ou três latas de cerveja, variando conforme a massa corporal do indivíduo. E muito menos creio que a comunidade faça apologia a essa prática ou a esse tipo de crime. Aliás, sou plenamente contra. Podes ver que na maioria dos comentários os membros falam que quando embriagados conduzem com cautela, "na paz", sem correr. É o contrário do que acontece, por exemplo, na comunidade Quando eu bebo não dirijo, piloto. (Que Costi enumera entre as “comunidades relacionadas” à sua.) Além disso, acho que há comunidades muito maiores sobre excesso de velocidade, pedófilos e até assassinos. Então é óbvio que as autoridades irão se preocupar muito mais com esses temas. Também não sei né, estamos no BRASIL, ô lelê. (Risos).

Mídia e futebol influenciam defesa das brigas com socos e pontapés

Em 2002, a imagem da babá Divina Eliane Leite foi divulgada em rede nacional de televisão, por conta da acusação de espancar crianças e bebês – em crime flagrado por micro-câmeras. Depois, apareceu novamente, agora agredida por um certo Lindomar, que lhe desferiu um golpe de “voadora”. Três anos depois, a “justiça com os próprios pés” praticada por Lindomar lhe rendeu fama na Internet. Somente no Orkut há mais de 120.000 membros em comunidades que glorificam sua agressão. Várias delas reproduzem a foto do golpe e comemoram a punição imediata da acusada, por populares, pelo “vingador”.

Entre as comunidades que abrem espaço para que internautas preguem a violência sem armas, ou seja, as brigas e agressões, a lógica dos socos e pontapés, é flagrante a influência da mídia. Jogadores de futebol agressivos ou que praticaram atos violentos – e amplificados pelos telejornais e mesas-redondas - motivam a criação de comunidades específicas. A comunidade Eu adorei o soco duplo do Adriano vibra com o golpe desferido pelo atacante da seleção brasileira em um jogo pela Internazionale, no campeonato italiano. Os zagueiros Lugano, do São Paulo, e Cocito, do Atlético-PR, conhecidos por seu estilo "duro", aparecem em fotos de faltas violentas e como uma espécie de modelos de comportamento.

Evidentemente, as justificativas para a violência no dia-a-dia não dependem somente desses pop stars às avessas. Em tempos tão midiáticos, donos de bufês infantis que colocarem micro-câmeras para monitorar o comportamento de seus funcionários podem flagrar atos de agressão, relatados por exemplo na comunidade Eu trabalho em buffet infantil - cuja descrição diz ser ela voltada “para você que trabalha ou trabalhava em buffet infantil cuidando de crianças catarrentas, trabalhando como escravo durante muitas horas e ganhando uma miséria no final”.

As comunidades Adoro Judiar de Criancinhas e Eu adoro judiar de bebês trazem igualmente descrições explícitas de sadismo. A linha divisória entre a mera brincadeirinha e atos realmente nocivos não pode ser definida com facilidade – dos jovens que curtem acordar bebês até a defesa de estupro feita em comunidade contra a atriz do comercial da Embratel, e lá mantida por mais de um ano.

Animais

Em alguns casos, sobra também para os animais. Mais de mil pessoas declaram no Orkut que curtem o prazer de chutar pombos (em Eu chuto pombos). E há os que gostam apenas de observar a violência: somente a briga de galos tem pelo menos sete comunidades. Nestes casos, porém, os defensores de animais são bastante ativos e logo costumam “derrubar” os fóruns.

Algumas comunidades onde se reúnem internautas Pró-Violência (sem uso de armas):

Lindomar, o subzero brasileiro – 90.160 membros – (Nº 85965)

Não aparto briga, chego na voadora – 15.892 membros – (Nº 849780)

Meto porrada mermo, hehehe - 1.863 membros – (Nº 595021)

De um carrinho em um argentino – 1.483 membros – (Nº 1256812)

Se precisar, resolvo no braço – 1.280 membros – (Nº 961360)

Eu trabalho em buffet infantil - 871 membros – (Nº 238383)

Eu adoro brigas - 829 membros – (Nº 505940)

Eu bato mais que o Lugano – 526 membros – (Nº 630439)

Cocito o gladiador – 501 membros – (Nº 487121)

Adorei o duplo soco do Adriano – 467 membros – (Nº 702394)

Espancar e matar – 131 membros – (Nº 1619438)

Adoro judiar de criancinhas- 123 membros – (Nº 1619438)

Eu adoro judiar de bebes - 82 membros – (Nº 1952257)

Doni: sou um fã pós-voadora - 26 membros - (Nº 1427083)

Comunidades relacionadas à violência contra animais

Eu chuto pombos – 1.002 membros – (Nº 128989)

Galos de briga – 121 membros (Nº 755512)

Briga de galo – 115 membros (Nº 269347)

Eu tenho galo de briga – 92 membros (Nº 2037295)

Frases:

“Eu vi esse dia do (programa do apresentador)Ratinho, a agressora volta pra casa (...) as pessoas gritavam e chamavam-na de palavrões, mas eis que se insurge do meio dos populares ELE, Lindomar, o Sub-zero brasileiro, tacando a voadora, levando ao chão aquele ser vil que maltratava os bebês! Sim, Lindomar é a voadora da justiça, o pé do povo, um vingador!"(Ramon Portela, 20 anos, de Fortaleza, na comunidade Lindomar é o sub-zero brasileiro - o nome da comunidade faz referência a um jogo popular entre os adeptos de videogames).

“Entro de voadora nos peitos dos infelizes que estiverem brigando com conhecidos. Se os dois forem conhecidos escolho o mais amigo e vôo no outro. Só separo se (...) chegarem os homi”(Henrique Casal, na comunidade Ñ aparto briga xego na voadora, em 07/07/2005)

"Quando o oponente cai, você chuta ou pisa? Aconselho pisar, primeiro no rosto, depois no pescoço". (Raphael Bonjasky, da comunidade Eu meto a porrada mermo hehehe”, em 28/01/2005)

“Aprendi desde que nasci que quem bate primeiro destrói. Quebrei um abusado em Guarapari que bateu com a mão no meu carro. Abri a porta e ele falou ‘se achou ruim é só descer’. E foi o que fiz. Já fui quebrando, dei logo uma (...) quando ele ia levantar dei uma joelhada (...) e segurei até alguém chegar pra separar se não ia APAGAR ele até morrer”. (Marcelo Lima, de Brasília, na mesma comunidade, em 11/02/2005, dois dias depois do “episódio”)

“Eu estava na balada, aí um veado ficou me mostrando a língua. Fui tirar satisfações e ele me deu uma garrafada na cara (...) Esperei ele fora da balada. (...) Quando saiu, pegou um táxi, fui seguindo. (...)numa esquina, foi mijar. (...) Encostei o carro, saíram eu e mais três amigos, mas SÓ eu tive o prazer de espancar o veado filho da puta! ME ORGULHO disso até hoje... das joelhadas na cara, dos chutes quando ele estava caído no chão pedindo pra eu parar!” (Enrique Rocha, idem, no dia 01/04/2005)'

Sensação de liberdade absoluta leva à paradoxal pregação da ditadura

O raciocínio chega a ser surreal. “Se você fosse uma pessoa comprometida com a democracia, respeitaria essa comunidade e as opiniões dos membros”, raciocina o estudante Lucas Carvalho, na comunidade A volta da ditadura militar, com cerca de 1.000 integrantes, diante de um defensor da democracia. ”Como sou contra a democracia, não devo tolerar que você venha pra essa comunidade.”

Os defensores da ditadura aproveitam a liberdade de expressão no Orkut e dividem-se democraticamente entre a direita e a esquerda. Entre as comunidades relacionadas a uma intitulada Eu odeio a democracia estão algumas contra o capitalismo, neoliberalismo e pró-presidente da Venezuela, de Hugo Chávez. Outras defendem abertamente regimes de exceção como o último ocorrido no Brasil, entre 1964 e 1985.

Nas comunidades dedicadas a ditadores também oscila o espectro ideológico. O mais popular é o presidente de Cuba, Fidel Castro, que tem o apoio de 1.734 pessoas na comunidade em português (e mais de 3.600 na comunidade em espanhol). Os generais que comandaram a última ditadura brasileira são homenageados por apenas algumas dezenas de pessoas. Getúlio Vargas é mais pop, mas após o Estado Novo ele foi presidente eleito.

Direitos humanos

Menos folclórica e mais orgânica é a defesa sistemática no Orkut de idéias caras a regimes de exceção. A primeira vítima desse tipo de pensamento são os direitos humanos. Mais de 5.000 pessoas repetem argumentos contrários a esses direitos, previstos na Constituição e nos pactos internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Em uma delas, porém, surgiu uma variação. O moderador, o estudante de Medicina Wilson Calil, adotou uma linha contrária à “matança de presidiários e bandidos”, dominante nesse tipo de comunidade, e chegou a apagar tópicos que incentivavam a criação de grupos de extermínio. Segundo ele, o objetivo ali é discutir tópicos relacionados à injustiça penal, violência e outros problemas relacionados.

Algumas comunidades pró-ditadura e anti-Direitos Humanos

Eu odeio Direitos Humanos - 1.888 membros – (Nº 252046)

Direitos Humanos para Humanos - 1569 membros (Nº 628477)

Cuba e Fidel Castro - 1.734 membros (Nº 414386)

A Volta da Ditadura Militar - 971 e 102 membros (Nº 327416 e 3555234)

A ditadura é a solução - 507 membros – (Nº 568932)

Eu Odeio Democracia! - 206 membros – (Nº 471615)

Foda-se Essa Democracia! - 120 membros – (Nº 86447)

Emilio Garrastazu Médici - 39 membros – (Nº 421263)

Frases

”A vantagem de um regime militar está na facilidade de se compor os quadros do 1º e 2º escalões com gente sabidamente honesta. Não necessariamente militares. Não tendo rabo preso com políticos ou empresários, o regime trabalhará com certeza para o bem da nação. Aqueles que temessem o regime estariam já exilados em outro país. Ficaríamos livres de muito pulha.Só por isso já valeria a pena!: (Luiz Mario Leal, comunidade A volta da ditadura militar, em 30/07/2005)

“O que você faz em uma comunidade que apóia a ditadura se você chupa os ovos da democracia? Se você fosse uma pessoa comprometida com a democracia, respeitaria essa comunidade e as opiniões dos membros. Como sou contra a democracia, não devo tolerar que você venha pra essa comunidade.” (Lucas Carvalho, de Juiz de Fora, estudante de Engenharia, na comunidade A volta da ditadura militar)

“Por que a democracia se o povo não sabe escolher seus lideres? É uma massa de desqualificados, que são facilmente manipulados pelo marketing.”(Paulo Vitor, na comunidade Eu odeio a democracia)

”Só com campo de extermínio é que iria dar um jeito na violência no Brasil” (Alessandro Wosiack, na comunidade Direitos Humanos)

”Eu penso que não. São inumanos, não têm direito algum” (João Henrique, estudante, na comunidade Contra direitos humanos, em tópico chamado “Homossexuais têm direitos humanos?”)

Onde eles aprendem a fazer bombas

“Detonei uma no colégio”. “Como fazer napalm caseiro”. “Link (ou vídeos) para programa de explosivos”. “Como explodir uma TV”. “Como explodir uma ponte de madeira”. “Bomba no Congresso” (o tópico discute dificuldades logísticas concretas). Entre os mais de 300 tópicos e 1.500 comentários postados desde 3 de setembro de 2004 na comunidade do Orkut Bombas e explosivos, vários são bastante focados – e uma menor parte fica apenas no aspecto humorístico.

Essa comunidade não é a única. Somada com a Bombas Caseiras & Cia Ltda, elas reúnem mais de 2.400 pessoas. A grande maioria das postagens é de 2005. E a procura cresceu nos últimos meses. Na apresentação, alguém que se nomeia Luther Blissett afirma: “Tudo o que é postado na comunidade é de caráter educativo. O objetivo é aprender e ensinar sobre elementos e reações químicas, não sendo de responsabilidade do moderador o uso indevido das informações aqui contidas.”

Alguns tópicos dão conta de que a Polícia Federal está atenta à comunidade. Ninguém dá bola. A turma quer trocar experiências. Um anônimo envia link de um sítio com a descrição – e fotos - de acidentes graves com pessoas que faziam bombas. Mãos, corpos mutilados. Também não adianta. Um alega que é químico, outro o chama de “medroso” - e todos vão para o próximo tópico.

“Estou interessado em fabricar napalm, mas com umas dúvidas”, escreveu no dia 1º de agosto um certo Pedro “Inri”. “Na hora de colocar o sabonete derretido na gasolina a gasolina precisa estar quente ou eu coloco o sabonete sólido na gasolina quente? Que tipo de sabonete eu uso, aqueles de glicerina amarelo? Gostaria de saber umas idéias do que fazer com napalm”.

Uma garota pergunta o que cada um já explodiu. As respostas variam: caixa de correio, cupinzeiro, pneu, árvore... Outro diz que está se preparando pra fazer sua primeira bomba com timer “para detonar o relógio de luz de um filho da puta que aprontou comigo”. Um adolescente leva ao pé da letra o caráter “educativo” da comunidade e avisa: “Estourei uma na escola”!

Na comunidade Subversão aprende-se a abrir e fazer ligação direta em carros, “hackear bilhete único”, e se dá dica de “um lugar fácil para conseguir pólvora”. Em Bombas caseiras & Cia Ltda, as dúvidas são igualmente práticas: “Como fazer uma bomba fácil”? “Como faço meu próprio pavio?” “Quero algo que exploda n´água." E assim por diante.

Terrorismo

Em outras comunidades, a preferência é pela observação das ações alheias. Duas delas, com ao todo 1.000 membros, apóiam o terrorismo, com fotos dos aviões se chocando contra as Torres Gêmeas, em Nova York. Pelo menos outras quatro, com cerca de 2.000 pessoas, comemoram ações como esses atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Em um dos tópicos de um desses grupos, Eu apóio o terrorismo, um adolescente pergunta: “Quem aqui já fez suas próprias bombas?” Outro responde de modo afirmativo: já fez várias bombas caseiras. Das traquinagens de adolescentes e químicos até acidentes e a prática do terrorismo, a distância é a de um pavio.

Lista de comunidades

Bombas e explosivos – 2.123 membros – (Nº 371580)

Festejei 11 de setembro - 851 membros – (Nº 205452)

Quero ser um terrorista – 641 membros – (Nº 441494)

Apóio o terrorismo – 406 membros – (Nº 241227)

Viva o 11 de Setembro - 366 membros – (Nº 402423)

Subversão - 326 membros – (Nº 731961)

Bombas Caseiras & Cia Ltda - 294 membros – (Nº 1181189)

Americano merece atentado - 194 membros – (Nº 705651)

WTC - 11/09/01 - Eu APROVEI!!! - 157 membros – (Nº 1307560)

Execuções, linchamentos, massacres, tortura: eles apóiam e, em alguns casos, dizem agir

Comunidades que somam mais de 40.000 pessoas no Orkut estão estimulando linchamentos, execuções policiais, massacres e o enfrentamento dos bandidos pela própria população ou por grupos de extermínio. As mensagens são em sua maioria postadas sem subterfúgios ou qualquer tipo de precaução quanto à identificação dos autores. Confira algumas frases:

“É hora de colocar as coisas em prática! Não podemos mais perder tempo. Vamos começar a nos organizar e constituir Grupos de Extermínios a essa gente. (...) O primeiro excluído que meter o pé na minha porta eu disparo um pente de 9mm por cima! Vamos começar a limpar a sociedade enquanto há tempo! Chega de se limitar ao Orkut, à net, vamos agir! Organizem-se em suas cidades, bairros, ruas.” (Eduardo Bozzetti, 31 anos, de Rio Grande, RS, na comunidade Bandido Bom é Bandido Morto, 25/07/2005)

“Contem suas histórias, já bateu em ladrão? Matou? Como foi assaltado? Já pegou algum safado em flagrante?”(Descrição da comunidade Eu odeio Bandido)

“Estou juntando uns amigos pra limpar a Lagoa daqueles que sujam a imagem da nossa cidade maravilhosa. Minha proposta: vamos formar grupos para linchamentos de ladrões em diversos bairros do Rio. Já que a polícia não prende os ladrões, vamos acabar com a raça deles.” (Alejandro Pattacini Jr, de 20 anos, estudante, na comunidade Campanha Linchamento já”)

“Pratico artes marciais há mais de 18 anos, me senti na obrigação de ajudar (uma senhora que estava sendo assaltada na rua) Peguei a mão que ele segurava o canivete (...), iniciei uma gravata com um braço, o pé foi pisando na parte de trás do joelho dele. Em suma imobilizei, estrangulando. (...) Apaguei ele e só depois quando eu IA ligar pra polícia percebi que no chão o cara tinha rasgado um pedaço da camisa que eu tava indo pra night!!! Fiquei puto, não liguei pra PM porra nenhuma, quebrei os dois braços dele e os dois tornozelos (porque joelho se machucar nunca volta ao normal). Deixei ele lá para morrer de hemorragia.” (Rodrigo Sedlacek, fisioterapeuta, Rio de Janeiro, na comunidade Eu odeio bandido, ladrão e afins, no dia 23/05/2005)

“Certo dia estava voltando do curso quando por volta das 13h20 parei para tomar um caldo de cana. Um negão de uns 1,80m veio se aproximando de mim, parou do nada e me deu um soco na cara. (...) Quase arrancou meu nariz, mas saiu correndo. Uma patamo da 21ª DP vinha passando na hora e foi atrás. Resultado: trouxeram o maluco, levamos ele para uma rua deserta, os policiais estragaram ele. Eram cinco policiais imensos. Deram uma surra nele que eu acho que nunca mais bateu em mulher nenhuma...” (Jeise Lima, 32 anos, estudante carioca, na comunidade Bandido Bom é Bandido Morto, em tópico chamado “Já me vinguei”, dia 07/08/2005)

“Saudades” do Dops e do Carandiru

O massacre do Carandiru, em 1992 em São Paulo, que deixou um saldo de 111 mortos, tornou-se quase uma unanimidade entre os participantes desses grupos no Orkut. Crime condenado internacionalmente, marca irrecuperável do ex-governador e hoje deputado Luiz Antonio Fleury (PTB-SP), aquele dia chega a ser comemorado por essas pessoas, que chegam a venerar o mandante da operação, coronel Ubiratan. “A chacina do Carandiru foi boa em parte, pois sobraram alguns filhos da puta! Foi muito bom ver o corpo daqueles malditos estendidos no chão e sem vida!”, comenta uma das integrantes de Bandido Bom é Bandido Morto)

Quem também desperta saudades entre esses internautas é o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e o Esquadrão da Morte. O moderador da comunidade Esquadrão da Morte, o programador Victor Sbisa, participante também de comunidades como Rachas e pegas, explica por que a criou: “Após a visita a alguns tópicos do próprio Orkut me revoltei quanto à cena que vivemos hoje no Brasil”, escreveu. “Peço que comentem e apóiem a volta do Esquadrão da Morte!”

Na falta do grupo paramilitar, ocorre o apoio a ações à margem da lei de organizações como a Rota, braço da Polícia Militar paulista. Ou de entidades parapoliciais, como a capixaba Scuderie Le Cocq. Criada em 1960, a Le Cocq ficou conhecida pelo envolvimento com a matança de pessoas no Espírito Santo e chegou a se constituir legalmente. Em janeiro deste ano, uma sentença em Vitória suspendeu todas as suas operações e proibiu a divulgação do nome e de seus símbolos.

A comunidade Legítima defesa não se alinha em sua descrição com a defesa de ilegalidades, pois procura se amparar no que o seu moderador, Victor Amazonas, considera um “direito natural”, o de defesa. Em vários tópicos, porém, há a defesa de justiçamento por parte de internautas e a definição de que há uma “guerra”, na qual “temos de montar nossos exércitos”. Amazonas afirma estar atento para impedir esses comentários citados pela reportagem: "Não defendo nenhuma ilegalidade, apenas o que é respaldado na Constituição e no Código Penal. Quanto aos posts ofensivos, cito que como mencionado na entrada de meu site, que há a liberdade de expressão e como fui pelos senhores alertado sobre tais, prontamente os removi e o continuarei fazendo na medida do possível pois não é a minha intenção que minha comunidade deixe de ser séria e idônea", afirma Amazonas.

As comunidades pela pena de morte, que em tese poderiam invocar o direito de propor a legalização da medida, acabam por abrigar a apologia do crime.

A tortura aparece nesses grupos como recurso legítimo de investigação, por exemplo na comunidade Acabem com a Febem. Em grande parte dessas comunidades a expressão “direitos humanos” é reduzida a “direitos dos manos”, mostrando a associação direta que seus membros fazem entre os moradores das periferias e a criminalidade.

Comunidades onde há defesa de violência policial ou ações de justiceiros:

Bandido Bom é Bandido Morto - 14.687 membros – (Nº 487318)

Odeio bandido, ladrão e afins - 9.148 membros – (Nº 873162)

Pena de morte – 8.730 membros – (N° 86126)

Eu odeio ladrão - 2.331 membros – (Nº 642774)

Campanha Linchamento Já - 1.567 membros – (Nº 948077)

Pena de morte = + transplantes – 1.470 membros – (N° 291467)

Amei a limpa do Carandiru - 1.417 membros – (Nº 1287745)

Eu odeio bandido - 676 membros – (Nº 529124)

Acabem com a Febem - 663 membros – (Nº 1149969)

Deus cria a Rota mata! - 624 membros – (Nº 358717)

Adoro ver marginal se fuder - 249 membros – (Nº 1365206)

Estuprador merece a morte – 151 membros – (Nº 1867467)

Fãs da escuderia “Le Cocq” - 153 membros – (Nº 1435131)

Scuderie Detetive Le Cocq - 117 membros – (Nº 1235251)

Dops – o Esquadrão tem de voltar - 117 membros – (Nº 2452544)

Esquadrão da morte – 81 membros – (Nº 1224513)

Cel Ubiratan Ministro BemEstar - 76 membros – (Nº 172106)

Coronel Ubiratan – 55 membros – (Nº 1195326)

Campo de exterminio federal - (Nº 3373943)

G.E.M. (Grupo de Extermínio de Marginais) – 12 membros – (Nº 3224886)

Frases:

“Um motorista de caminhão aparentemente alcoolizado estava (...) em frente de sua casa quando o veículo desgovernou (...). Além de matar quatro das cinco pessoas(...), o caminhão atropelou também um garoto de 14 anos (...) Momentos depois o motorista foi pego de surpresa pelos moradores e foi linchado até a morte, segundo a análise do medico legista. De acordo com a reportagem, a polícia irá averiguar os participantes do linchamento e levá-los à justiça. (...) Será que se o motorista não fosse linchado ele seria levado a ALGUMA justiça? (...) Esse cara teve o que mereceu... A polícia devia dar medalhas pras pessoas que o lincharam.” (Gustavo Gonçalves, de 24 anos, na comunidade Campanha Linchamento já!

“Espero que a comunidade pegue esse desgraçado e termine o serviço.” – Sobre notícia de tentativa de linchamento de acusado de estupro na região de Pirituba, em São Paulo.(André Azevedo, na comunidade Campanha Linchamento já!”, dia 29/07/2005)

“O que conforta um pouco é que quando a gente ouve algum caso do gênero sempre ouve também a notícia que o estuprador foi linchado até a morte ou foi estuprado e morto na cadeia.” (Descrição da comunidade Estuprador merece a morte)

“Se você é louco para pegar um assaltante, encher ele de pancada e só parar depois que ver ponta de osso para fora... deixar ele de um jeito que nem o João XXIII vai aceitá-lo, junte-se a nós! Aqui debateremos técnicas para espancar um assaltante!” (Descrição da comunidade Ainda mato um assaltante)

Sem medo dos professores, eles oferecem e procuram trabalhos escolares

O escambo de trabalhos escolares via Internet ganha uma nova dimensão através de algumas comunidades do Orkut. Da simples troca de informações para completar uma tarefa à prática do download de trabalhos completos ou pedidos de informações sobre colas eletrônicas para concursos públicos, práticas inocentes e ilícitas misturam-se nas dez comunidades encontradas pela Agência Repórter Social. Os internautas fazem tudo isso sem qualquer receio de serem identificados, pelos professores ou pela polícia.

Alguns pedem apenas alguma orientação. A maioria dos participantes, porém, pede o trabalho pronto. “Alguém sabe onde tem uma monografia sobre circo pronta?”, solicita Ramon Oliveira, 21 anos, na comunidade Trabalhos escolares.

Em algumas delas há criação de tópicos onde se postam trabalhos completos para que os participantes possam copiá-los.

A comunidade Trabalhos prontos para facul, criada pelo administrador de empresas Gustavo Piccinini é a maior delas, com 4.264 participantes. Ali estudantes imploram pela senha de acesso do sítio Zé Moleza, que disponibiliza aos associados trabalhos de todos os níveis. O próprio Zé Moleza é homenageado em duas comunidades com seu nome, com o propósito de trocar e comercializar trabalhos escolares.

Em protesto por ninguém dividir a senha de acesso, o estudante Havirdan, de 22 anos, saiu da comunidade Zé Moleza. “Resolvi eu e mais alguns amigos rachar o pagamento”, explica.

Enquanto isso, a campineira Tatiane Franco, 23 anos, aproveita as comunidades para vender seu peixe: “Faço trabalhos escolares, digitação para tudo. Posso enviar por e-mail os arquivos digitados. Dependendo da cidade mando via correio o trabalho pronto em CD, disquete ou impresso”.

Sérgio Júnior, de São Gonçalo (RJ), faz também trabalhos para a faculdade. Eclético, atende até professores: “Na área de língua portuguesa, inglesa e suas literaturas também faço tradução. Para professores posso preparar aulas dinâmicas e criativas. Mando por e-mail, correio, preço varia”.

O dono da comunidade O seu trabalho Já, afirma, no anonimato: “Não importa se você mora em outro Estado. Basta mandar tudo o que precisa para o meu email ou me adicionar no MSN." E garante: "Faço no tempo estipulado”.

Entre os comentários há até quem faça alertas sobre “picaretas” da área. “Já aconteceu com uma amiga minha. Tinha receita de bolo no meio do trabalho”, queixa-se Ana Paula Silva Galdino, de 29 anos.

Ajuda para colar

Outra prática bastante em voga nas comunidades de estudantes que se dizem ora “com preguiça”, ora “sem tempo”, ora “desesperados”, é a cola. São mensagens, em sua maioria, em que se trocam dicas sobre maneiras criativas de ludibriar os professores. No entanto, a sensação de liberdade faz com que alguns declarem sua disposição de colar em ocasiões mais perigosas. É o caso do estudante mineiro Felipe Murad, que se declara disposto a comprar um aparelho eletrônico para passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB):

“Bom, eu comecei a colar ano passado de um modo meio esquisito. Eu uso um celular, que geralmente fica no meu bolso, e um fone de ouvido. O fone de ouvido eu passo por dentro da roupa e colo o fone no meu punho. Tudo isso com camisa de manga longa, claro. Aí, a pessoa que passa para mim (uma moça com quem já saí e tenho intimidades, alem de ser a mais inteligente da faculdade) me liga, o celular vibra e atende sozinho, eu coloco o fone no ouvido como se estivesse descansando a cabeça em meu braço... Aí é só escutar, e tirar mais um 10... Estou procurando aqueles pontos eletrônicos usados pelos apresentadores de televisão. A prova da OAB tá chegando...”

Outras declarações sobre cola:

“Eu faço o terceiro semestre de Direito, sou estudiosa, porém odeio aula de Filosofia, de Administração, Contábeis e Custos, que para mim não têm nada a ver. Portanto COLO MESMO. Altas técnicas massas para quem estiver interessado." (E descreve técnicas envolvendo garrafinha de Gatorade, "caneta que apaga", entre outras.)(Thais Queiroz, comunidade Malandragem na Faculdade S.A”)

“Pode ser cola?? Tenho cola de química, geologia e preservação ambiental...” (Heltton Katuta, da comunidade Trabalhos Engenharia Civil, oferecendo serviços)

Outro lado

Gustavo Piccinini, da Trabalhos prontos pra Facul: "Criei a comunidade ja faz algum tempo, porém nunca utilizei para conseguir algum trabalho, pois já estava no final do curso. Infelizmente a pesquisa não se aplica a mim."

Thiago Rossi, dono da Malandragem na faculdade:

"Não chega a 20% o percentual de quem manda, sim, esses trabalhos, e são feitos individualmente, por fora da comunidade. Ela em si somente serve para aproximar as pessoas que têm o trabalho daquelas que precisam. Ninguém que eu saiba cobra, é lógico que ninguem seria louco de pagar (a menos que fosse uma monografia). Com certeza a comunidade incentiva esse tipo de prática, que já é comum no Brasil. Até hoje não fiquei sabendo de nenhum caso de plágio que identificasse crime. Ninguém felizmente até hoje foi pego com trabalho copiado, todos têm um certo cuidado quando pegam trabalhos prontos".

Marco Diniz, estudante, dono da comunidade Trabalhos escolares:

"Na comunidade não é realizada venda de trabalhos, apesar de algumas pessoas oferecerem isso lá. E são poucas pessoas que realmente postam trabalhos, a maioria só entra para pedir uma vez e esquece da comunidade, mas alguns contribuem sim. E eu realmente não sei se algum trabalho é copiado sem autorização, mas acho que não, devido à pouca quantidade de trabalhos postados. Qualquer coisa pode perguntar...."

Frases:

“Sem sombras de dúvida que o melhor site é o Cola da Web http://www.coladaweb.com, com textos pra caramba e livros completos, esse cola digital é uma imitação, nem chega perto”: (Renan Bardine, comunidade Trabalhos Escolares)

“Eu colo na cara dura mesmo... hahahaha... trocando prova mesmoo... ainda mais quando a professora fuma.. aí que é uma beleza... Ela fica na porta da sala, fumando, e eu na parede trocando prova... Quanto aos nerds que querem aparecer (...) vão para outra comunidade. Aqui é para zoar e descansar da faculdade e não para dar uma de certinho...(...) Eu não sou vagabundo, tiro notas boas, mas malandragem é o que há!” (Vinicius Maia, comunidade Malandragem na Faculdade S.A.)

“Tinha que entregar um trabalho de ÉTICA e era para o dia seguinte, como não tinha como fazer pesquisando livros, pois estava em cima da hora, resolvi utilizar a tecnica do ctrl C ctrl V. Entreguei, mas o professor descobriu, pois estava igual ao de várias pessoas da faculdade. Ele resolveu me mandar para o exame especial, acabei passando. Será que aprendi a lição? hehehehe.” (Thales Me, da comunidade Faço trabalho c/ ctrl C ctrl V)

Comunidades sobre o tema

Trabalhos Prontos pra facul! – 4.263 membros – (Nº 94584)

Malandragem na Faculdade S.A – 4.021 membros – (Nº 72172)

Trabalhos Engenharia Civil – 730 membros – (Nº 394613)

Faço trabalho c/ ctrl C ctrl V - 608 membros – (Nº 668891)

Trabalhos escolares - 223 membros - (Nº 1427837)

Zé moleza sim! - 49 membros – (Nº 1431921)

O Seu Trabalho Já! – 41 membros – (Nº 2125632)

Zé Moleza – 24 membros – (Nº 1685549)

Justiça proíbe divulgação de milícia, mas moderadores não se importam

A milícia capixaba Scuderie Le Cocq, fundada nos anos 60, leva o nome do Brasil ao exterior – em relatórios de direitos humanos, que descrevem as execuções feitas por seus simpatizantes e a sua relação com o crime organizado. Desde o início do ano, uma sentença judicial proíbe a divulgação de seu nome e seu símbolo. No Orkut, transformado em mídia clandestina, duas comunidades ignoram a decisão. Um dos moderadores leva o nome de Eichmann – um dos expoentes do nazismo, o “assassino de milhões”. Outro atende por Roberto Ferreira. Os dois falaram por email com a reportagem da Agência Repórter Social.

O motoboy Roberto Ferreira, de 31 anos, defende a pena de morte, comemora o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, e gosta de programas como Cidade Alerta. Criou no Orkut a comunidade Fãs da Escuderia “Le Cocq”, com 150 membros. “Para todos aqueles que lembram e aprovam o serviço feito pela escuderia nos anos 70 e 80 e são contra o desarmamento dos cidadãos de bem como nós”, informa ele na descrição do grupo. A milícia chegou a se constituir legalmente nos anos 80, como “entidade beneficente”, mas desde o início do ano está na ilegalidade e com os bens seqüestrados, por decisão do juiz federal Alexandre Miguel. Motivo? Participação no crime organizado.

Ferreira diz ignorar a proibição, apesar de divulgar o nome e o símbolo da escuderia, com a indefectível caveira. Ele reconhece que a comunidade no Orkut incentiva o crime, mas nega sua participação. “Quando foi criada (em 27 de fevereiro) a escuderia tinha o propósito de acabar com o crime”, afirma. “Infelizmente isso não aconteceu e alguns membros se desviaram de seu real propósito.”

O motoboy acredita que a polícia monitore o fórum, mas não acredita que possa ser punido. Diz que não é e nunca foi participante da milícia, apenas admira o trabalho feito “nas décadas de 70 e 80”. Nessa época não eram mortos inocentes, segundo ele, “e sim bandidos perigosos”. “Não infringi nenhuma lei que possa me condenar”, considera. Ele garante que, se for repreendido por alguma autoridade, deleta a comunidade. “Não quero problemas.”

O moderador que no Orkut se nomeia Sandro Heer Himmler Eichmann, ou, no MSN, “Sandro skinhead”, controla um grupo formado por 107 pessoas, o Scuderie Detetive Le Cocq. A apresentação da comunidade fala do surgimento da milícia, nos anos 60, e detalha seu símbolo proibido pela Justiça: “uma caveira, sobreposta a duas tíbias cruzadas e duas letras brancas sobre um fundo negro: EM”. As letras EM são as iniciais de Esquadrão da Morte.

Esse senhor Eichmann – nome de um dos principais carrascos do nazismo – diz estar ciente da sentença judicial relativa à Le Cocq, mas imagina que ela valha “apenas no Estado do Espírito Santo”. Não acha que a milícia incentive o crime. “Existem letras de rap que fazem mais apologia à violência”, compara. “Há comunidades que incentivam, sim, a criminalidade, nós apenas debatemos que devemos agir contra os criminosos.”

O skinhead diz deletar mensagens indevidas.

"Comentários e tópicos que denigram a imagem da Scuderie são imediatamente retirados, bem como apologia a qualquer tipo de crime”, informa. Mesmo assim, ele acredita na liberdade proporcionada pelo sítio. “No Orkut você tem liberdade para comentar e passar a idéia que quiser, sem restrições.”

Entre os emails que “Eichmann” diz receber estão, segundo ele, as perguntas “mais absurdas”. “Se somos matadores, como elas fazem para se tornar assassinos, coisas do tipo.” Até por incorporar um personagem fictício, ele não acredita em punição. “Tanto que fazem parte da comunidade advogados, policiais civis, militares, promotores, enfim, pessoas de caratér e moral.”

Alceu Luís Castilho, Jéssika Torrezan e Lígia Ligabue

Outro lado: o que dizem os moderadores das comunidades

O moderador da comunidade Racha é crime, e daí?, o webmaster Mark Lawrence Smith, de 26 anos, não considera que faça apologia ao crime no Orkut. “Pelo contrário, nossa entonação (sic) é no sentido de que racha é crime mas ninguém faz nada sobre isso”, afirma. “A policia não fiscaliza e o poder público não oferece espaços para a prática do esporte. Nossa briga é para termos em São Paulo e no resto do país eventos dentro de autódromos com segurança e custos acessíveis.”

Ele diz que não há vigilância em relação aos comentários. “Mesmo porque o máximo que ocorre é um ou outro integrante da comunidade comunicar algum grande feito”, diz. Se o Orkut facilita esse tipo de comentários? “Sem dúvida. No meio virtual as pessoas são mais soltas e corajosas.” Smith não se espanta com o que lê. “O que é dito lá dentro é o que se vê nas madrugadas de qualquer avenida da cidade.” E não se preocupa com ações judiciais. “Não corro nas ruas. Participo de campeonatos regulares de arrancada e eventos em autódromos.”

Essa é a mesma linha de argumentação feita pela dona da comunidade Rachas e Pegas, a professora Regiane Cristina Taddei, que desde o início da série, há uma semana, teve um crescimento de 3%, de 59.538 para 61.520 membros. “A comunidade não aprova a prática de rachas de rua, mas sim tem o intuito de que seja viabilizado não somente em São Paulo mas em todo o País pistas para as disputas com valor acessível a todos”, afirmou. Ela creditou a defesa de rachas de rua no fórum a “membros irresponsáveis”.

“É obvio que fica difícil estar em tempo integral na Internet para poder gerenciar 100% do que está acontecendo na comunidade”, justifica Regiane, em relação ao monitoramento do conteúdo. “Mas sempre que estamos presentes, eu mesma ou algum dos integrantes da equipe moderadora, estamos coordenando para que tudo seja postado de forma consciente e sem agredir a legislação.” A moderadora acha que com o Orkut as pessoas “começaram a se inteirar mais sobre o que está de fato acontecendo nas ruas há anos e anos, e ficava teoricamente encoberto pela falta de informação”.

Ela cita como exemplos de irresponsabilidades cometidas por integrantes da comunidade menores "postarem que saem com os carros dos pais às escondidas” e “motoristas imprudentes que disputam nas ruas e avenidas mais movimentadas das cidades, colocando em risco as pessoas”. Ela não acredita que possa sofrer punição, até por não praticar racha de rua. “Se eu na qualidade de moderadora oficial sofresse tal ação não teria por que os 60 mil membros atuantes na comunidade estarem imunes a isto”.

Campos de extermínio

Nem o dono da comunidade Campo de Extermínio Federal, que se apresenta apenas como Marc H e como “digitador e músico”, considera incentivar o crime. “Muito pelo contrário, é uma comunidade voltada ao desabafo do cidadão de bem, contrário ao crime, contrário às drogas”, afirmou. “Procuro na medida do possível verificar se não há nenhum tópico que transgrida alguma lei ou algum tópico que ofenda cidadãos de bem brasileiros. Com certeza me espanto com vários comentários, mas a comunidade foi feita para desabafar mesmo, então deixo os membros livres para exporem suas opiniões, afinal estamos numa democracia.”

Ele não acredita que possa sofrer algum tipo de punição por criar uma comunidade que defende o extermínio. “Se eu sofresse uma ação judicial por conseqüência desta comunidade com certeza estaríamos em um país totalmente governado pelo crime organizado”, diz. “Já recebi elogios por e-mail por parte de policiais e cidadãos de bem trabalhadores. O único problema são os criminosos, que ficam me enviando mensagem com ameaças e com palavrões, e isso ninguém tenta investigar”.

Para o dono da comunidade Pena de morte, o empresário Jorge Quintão, cabe aos pais e responsáveis monitorar a utilização da Internet “por menores e incapazes”. “E cabe à polícia e orgãos competentes, ao receberem denúncias, agir contra criminosos que usam o Orkut como ferramenta de trabalho”. Como moderador ele diz não interferir nos comentários e tópicos – que em boa parte pregam a execução e outros crimes.

Quintão diz nunca ter se espantado com algum comentário e não considera que faça apologia da violência. “Pelo contrário, a idéia contida na maioria das mensagens é a de defender a pena de morte para combate a violência. Acreditamos que ficando livre dos criminosos irrecuperáveis como Fernandinho Beira-mar, Maníaco do Parque e outros estaremos tornando o nosso país mais seguro.”

Como seus colegas, ele não se preocupa com a possibilidade de punição. “Não tenho esta preocupação, visto que estamos em um país livre discutindo um tema cada vez mais pertinente. Se eu fosse do criador de uma comunidade que trata de algo ilícito, como apologia do consumo de droga, da pichação de muros, teria esta preocupação”.

Legítima defesa

Recebemos do sr. Vitor Amazonas, moderador da comunidade Legítima Defesa, o seguinte texto, que publicamos como direito de resposta:

"A citada comunidade anteriormente Legítima Defesa(http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=317909) de propriedade do Sr.Vitor Amazonas não enquadra-se na categoria de comunidades que pregam ou fazem apologia a ilegalidade."

Discutindo religião

O moderador da comunidade Eu odeio a Igreja Universal, Fernando Costacurta, adota um tom um tanto missionário para defender seu espaço na Internet. "Quando ela foi criada, o objetivo era tentar alertar ou mostrar para as pessoas o que de verdade o que o senhor Edir Macedo estava tentando fazer", explica. "Todas as vezes, desde a Idade Média, que a religião se mistura com a política, são causados conflitos sérios e de grandes proporções. Tenho medo de que um dia o Brasil se torne uma teocracia devido à ignorância do povo e se inicie uma ‘caça às bruxas’".

Sua comunidade, porém, tornou-se um espaço para a intolerância religiosa contra os evangélicos. "De vez em quando aparecem alguns usuários mais exaltados tentando agitar alguma coisa, mas são iniciativas isoladas e em sua grande maioria adolescentes que nem sabem muito bem por que criticam a igreja ou o bispo", minimiza. "Mas tenho alguns colaboradores que me avisam quando alguém tem um comportamento inadequado e eu excluo o tópico e expulso o membro pra sempre".

Por conta da comunidade, Costacurta diz receber cinco ameaças de morte por semana, de pessoas diferentes. "Dizem que vão me matar, pra eu tomar cuidado, que sabem onde moro, etc. Nunca pensei que fosse chegar a tanto, mas, como já disse Luís Fernando Verissimo, quando uma pessoa se põe a discutir religião com você, quase nunca ela quer ouvir a sua opinião".

"Vou tirar do ar"

O quinto moderador a atender a reportagem foi o argentino Alejandro Montalbano, de 24 anos, da comunidade Eu odeio a menininha do 21. Sobrevivente de um boom de comunidades similares no ano passado, retiradas após a publicação de reportagem sobre o tema, essa comunidade é composta por agressões explícitas à criança de 5 anos, atriz dos comerciais da Embratel, e até por uma ameaça de estupro – mantida por mais de um ano entre os tópicos.

"É o seguinte, eu nem sequer entro mais no Orkut. Faz meses que deixei de usar, e nem lembrava da comunidade pra falar a verdade", afirmou. "Não sei nem o que acontece nela. Mas agora que você me lembrou, a única coisa que posso responder pra você é que sim, me preocupo com que as autoridades possam encher o meu saco, por isso eu vou tirar essa comunidade do ar. Muito obrigado por me lembrar, hehehe!!!".

Xenofobia

O estudante Marcus Vasconcellos, de 20 anos, da comunidade Eu odeio a Argentina, se isenta de responsabilidade pelo que digam naquele espaço. Ele diz que não a criou para incitar a violência. "As pessoas levam sempre para esse lado, mas não tenho a ver com o que escrevem lá", comenta. "Já li alguns tópicos com ofensas, muita delas partindo de argentinos que ofendem nosso país com comentários racistas, e como o Orkut tem o domínio de brasileiros, a resposta é dada à altura."

Vasconcellos também não se preocupa com eventuais punições. "Eu não, tem tanta comunidade pior aí, por que iriam pegar justo a minha? O Orkut não diz que tu não pode te expressar desta forma... Tem comunidades sobre o mesmo tema mas com nomes muito mais ofensivos. Se lá houvesse um moderador que entrasse em contato com os criadores das comunidades pra mudar nome e apagar tópicos a historia seria outra..."

O Orkut não atende desde o ano passado a pedidos de reportagem sobre abusos praticados na rede, da pedofilia à apologia do nazismo.

Entre os que assumem furtos, há 75.000 “ladrões” de cones e placas de trânsito

A falta de uma placa ou cone de trânsito pode provocar um acidente com mortes. Mesmo assim, há mais de 75.000 inscritos em comunidades no Orkut que relatam em detalhes o furto de cones e placas de trânsito. Há também quem assuma ter furtado extintores, mas também galinhas e “lanche das crianças” em acampamentos escolares. Outros defendem abertamente a pirataria de produtos, em especial CDs, “gatos” de TV a cabo.

No mesmo sítio da Internet onde dezenas de milhares de membros pregam execução de bandidos, em geral associados a pessoas de origem na periferia, jovens de classe média e alta gabam-se de seus furtos. Na comunidade Eu roubo mais do que cones..., eles divertem-se relatando suas “proezas”: cavalete da CET, DVDs e um cassetete da polícia; extintor, antena e calota de carro; mesa de pebolim, gnomos, orelhão e até um poodle.

Nenhum desses praticantes confessos de furtos vê qualquer problema ético na ação. Apenas na escala. “É um vício”, dizem, entre risadas. A sensação geral é de impunidade. Mas na raiz do problema há também o gosto pelo proibido. A ponto de haver mais de dez comunidades de fãs do roubo da agência do Banco Central em Fortaleza – e, apesar do fato ser relativamente recente, com milhares de membros.

Na comunidade Ladrões de Cone, com mais de 60.000 membros, o baiano Guilherme Camargo, com quase 400 amigos no Orkut, convida: “Quero reunir uma equipe para roubar um semáforo em Salvador”. Em um dos tópicos alguém ofende todos os participantes e conta que sofreu um acidente porque alguém tinha retirado a sinalização; é execrado. Somente nas respostas ao tópico “Quantos cones você já roubou?” a reportagem contou 811 cones furtados.

As comunidades pela pirataria - como de CDs, DVDs e softwares - somam mais de 5.000 membros. Um crime “menor”, mas com muitos simpatizantes, é o trote telefônico, cuja comunidade possui quase 10.000 pessoas.

Lista de comunidades:

Ladrões de cone - 64802 membros - 172549

Eu passava trote - 9.145 – (Nº 730721)

Eu já roubei... – 6.150 membros – (Nº 47495)

Ladrões de cones e placas - 3.307 membros – (Nº 312735)

Eu amo CD pirata - 2918 membros – (Nº 386117)

Fãs do roubo ao Banco Central – 2.128 membros – (Nº 4052505)

Eu roubo copos de bar – 1.658 membros – (Nº 473974)

Ladrões de Cone S/A – 1.630 membros – (Nº 246768)

Pirataria – 1600 membros – (Nº 52004)

Eu roubei um cone. E você? - 1.469 membros – (Nº 566168)

Eu roubo placas - 1.156 membros – (Nº 195331)

CD original é crime – 952 membros – (Nº 1222415)

Salvem a pirataria – 741 membros – (Nº 423712)

Eu uso Windows pirata – 660 membros – (Nº 705730)

Quem nunca roubou um cone? - 605 membros – (Nº 318711_

Ladrões de extintor – 583 membros – (Nº 370158)

É legal roubar cones! - 476 membros – (Nº 420135)

Ladrões de placa – 412 membros – (Nº 959247)

Ladrões de copos – 387 membros – (Nº 656863)

Ladrões de cone BSB - 382 membros – (Nº 1161695)

Ladrões de placas de transito - 379 membros – (Nº 746982)

Só tenho CD pirata – 413 membros – (Nº 469502)

Viva à pirataria – 235 membros – (Nº 830633)

Eu compro produto pirata -227 membros – (Nº 265192)

Fã dos ladrões do Banco Central – 158 membros – (Nº 4060601)

Eu tenho gato de TV a cabo! – 141 membros – (Nº 1184583)

Eu roubo mais do que cones... – 110 membros – (Nº 339163)

Roubamos o lanche das crianças - 26 membros – (Nº 1227640)

Frase:

“Fico muito satisfeito de encontrar várias cabeças no mundo que se identificam com essa mania meio louca... Quando eu criei essa comunidade, tinha começaado a diminuir as paradas que eu estava fazendo, porque chega uma hora que você literalmente perde a noção. Essa foto é de umas últimas coisas que eu peguei emprestado e não devolvi, e está lá na casa de um amigo meu. Tem um 2,5 metros de altura. No mesmo dia, um orelhão rodou também... Que vocês continuem nessa boa, pela diversão, não pela violência. Pelo bem da sociedade (roubem placas de proibido estacionar, mas nenhuma de criança atravessando a rua perto de escola). Acho que nunca vou parar completamente com essa vida, porque às vezes dá coceira na mão... Estou passando um tempo nos EUA e me segurando, porque aqui dá merda. Mas um alarme de incêndio já rodou”. (Felipe Moutella, na comunidade Eu roubo mais do que cones..., dia 23/01/2005)

José Vicente da Silva: "As autoridades devem pôr um limite nisso"

Para o coronel José Vicente da Silva, especialista em segurança pública, comunidades do Orkut que incitam a violência, conforme relatado nesta série "Orkut sem Lei", estão promovendo a ilegalidade. “Existe o que eu chamo de elasticidade do que é ilegal. E as autoridades devem pôr um limite nisso”, afirma.

Segundo ele, a disseminação de comunidades elogiando ações ilegais, violência e até a volta de organizações como o Esquadrão da Morte e a Scuderie Le Cocq é o reflexo de uma parcela da sociedade brasileira. “Eu encontro pessoas no meu círculo social que falam isso, que tem que matar mesmo, que bandido bom é bandido morto”, observa.

Para reverter a situação, o coronel, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública, afirma que é necessário o envolvimento da população. “É necessário o clamor público. Talvez a sociedade ainda considere isso uma brincadeira”, diz. “As pessoas não se dão conta dos problemas que acontecem bem embaixo do nariz”.

Origem do comportamento

"No meio virtual as pessoas são mais soltas e corajosas”, afirmou à reportagem Mark Lawrence Smith, 26 anos, dono da comunidade Racha é crime. E daí?”. O que leva pessoas como ele a pensar dessa forma?

Segundo o coronel, que também é mestre em psicologia social, esse tipo de atitude é fruto da combinação de duas situações. A primeira é a diluição da personalidade individual em um grupo. “Em movimentos coletivos que possuem um grau exacerbado de emoção, ele irradia de pessoa para pessoa”, explica. Ou seja, faz-se em grupo algo que não se faria sozinho. Aliado a isso, o internauta possui, na avaliação de Da Silva, “o conforto aparente de estar seguro em casa”.

É nesse contexto que se manifesta também o comportamento desequilibrado. “Pessoas que têm distorção de personalidade vêem nessas situações oportunidade de se expor”, observa o coronel. “Quem agride são as pessoas que sofrem. Que sofrem em casa, na rua ou no trabalho”, explica.

Impunidade

“A sensação de impunidade vem com a cultura de baixos controles. Você faz alguma coisa e nada acontece”, explica Silva. A falta de mecanismos legais pra combater esses crimes colabora com o sentimento de impunidade. “Não existe Internet no Código Penal."

Uma saída apontada pelo coronel é a federalização dos crimes praticados na Internet, o que acabaria com a dificuldade de jurisdição.

Ministério Público investiga comunidades

Segundo o promotor de justiça Christiano Jorge Santos, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), o grupo sabe dos fatos relatatos pela série Orkut Sem Lei e está investigando comentários e comunidades no sítio.

“As denúncias são investigadas. Avaliamos se o que foi escrito de fato ocorreu depois investigamos. O que está fora de São Paulo nós encaminhamos à região responsável”, esclarece.

Segundo ele, inexistem mundos e pessoas virtuais. "Existe um mundo real que se manifesta no computador”, afirma Santos. “A Internet não é uma terra sem lei. A pessoa navega na Internet, mas não num oceano de impunidade”.

O promotor lembra que, segundo o Código Penal, a apologia ao crime (artigo 287) e a incitação à prática de um crime (artigo 286) podem resultar em detenção de três a seis meses.

"Apologia da violência"

O advogado Ariel de Castro Alves diz que a denúncia "inédita" feita pelo site da Agência Repórter Social demonstra que milhares de pessoas estão utilizando o Orkut para fazer uma verdadeira apologia da violência, é crime previsto no Código Penal.

"O que colabora com essas pregações da violência e da barbárie é a total sensação de impunidade. As policias estaduais precisam criar setores especializados para combater esses crimes na Internet", afirmou. "A Polícia Federal precisa começar a atuar para combater essas práticas e responsabilizar todos os autores. O Ministério Público, tanto nos estados, quanto o Ministério Público Federal, também precisam dar uma atenção especial para essa questão."

Segundo Alves, não se trata de censura. "E sim de punir criminosos, que não estão exercendo o direito à liberdade de expressão e cometendo crimes de apologia da violência e discriminação/ racismo".

O advogado Paulo Cremonesi disse nesta sexta-feira que ia entrar com representação no Ministério Público para que integrantes de algumas comunidades sejam investigadas por formação de quadrilha.

Moderadores mudam nome de comunidades “para evitar problemas”

Após a publicação na quinta-feira de reportagem sobre a defesa de furtos no Orkut, moderadores de alguns desses fóruns decidiram alterar o nome das comunidades. A comunidade Ladrões de copo agora se chama Colecionadores de copos. Eu roubo mais do que cones passou a ter o nome de Eu amo o Vivo no Samba - referência a um objeto que ilustra a foto da comunidade e, conforme descrição anterior, teria sido furtado. Foram mantidos, porém, os comentários que descrevem furtos praticados pelo País.

Confira o que os moderadores dessas e outras comunidades disseram nesta sexta-feira à reportagem, após a publicação da reportagem sobre furtos na série “Orkut sem Lei”:

Felipe Moutella, dono da comunidade Eu amo o Vivo no Samba (antiga Eu roubo mais do que cones):

“O nome da comunidade não está adequado à sua proposta inicial, pois nenhum dos membros inicialmente praticava roubos ou furtos. A foto principal é uma espécie de outdoor, da época do carnaval de 2004 no Rio de Janeiro, e fazia parte da campanha publicitária da empresa Vivo. Por mais que o nome da comunidade sugira que este item tenha sido roubado, este foi achado num depósito de lixo. Em nenhum momento a descrição da comunidade menciona qualquer tipo de prática ilegal. Após certo tempo, diversas pessoas começaram a se juntar e a deturpar a imagem da comunidade. Verifiquei ‘posts’ completamente contrários à proposta. Tenho consciência que o Orkut é uma ferramenta de comunicação, e, mesmo que a comunidade tenha sido criada para manter amigos em contato, pessoas inescrupulosas se aproveitam da possibilidade de não se identificarem. Fiquei um pouco triste com a imagem errada que a comunidade possui.Tenho consciência que muitos jovens, sem distinção de classe, praticam diversos atos semelhantes aos descritos. No momento a comunidade possui um novo nome, “Eu amo o Vivo no Samba", mais adequado à proposta inicial”.

Flavio Largacha, o Flavinho, da comunidade Ladrões de copo:

“Não acredito que esse tipo de manifestação incentive crime nenhum. As pessoas que entram são pessoas que já o faziam antes. Não acho que alguém pratique objetivando ficar mais ‘in’, ou algo do tipo. Criei a comunidade porque coleciono copos. Na verdade tudo começou com o ‘roubo’ de um, mas hoje tenho mais de 30 copos e poucos deles foram ‘roubados’. Mas não costumo entrar pra regulamentar o que as pessoas escrevem. No Orkut, e na Internet de uma forma geral, as pessoas se sentem mais seguras, como se estivesem anônimas. Nunca vi nada que me espantasse. Ninguém vê isso como um ato ilícito, mas como um hobby, que muitos bares até incentivam, produzindo copos exclusivos como chamariz. Claro que esses copos estão com o preço incluso no chope. Tentei trocar o nome da comunidade algumas vezes para ‘colecionadores de copos’, que na verdade é a essência da comunidade, mas o Orkut, com toda sua generosa velocidade na hora do rush (única hora que tenho para isso) fica dando erro o tempo todo. Depois consegui e aproveitar para deletar todas as comunidades relacionadas que ‘incentivam’ esse tipo de ato”.

Bernardo Souza, dono da comunidade Salvem a pirataria:

“A finalidade da comunidade não é incentivar o crime (pirataria), mas apenas discutir com tópicos e fóruns os preços altíssimos dos produtos originais do nosso País, geralmente o de CDs, que fazem os consumidores optarem por um produto não original, mais barato e de qualidade semelhante. As pessoas que estão na comunidade possuem liberdade total de se expressar da maneira que quiserem. A maioria posta como ‘anônimo’ quando faz propaganda de venda de produtos piratas, talvez por medo de estar incitando a pirataria. Não excluo os tópicos. Os preços estão cada vez mais absurdos e o Orkut trouxe uma maior facilidade de comunicação entre essas pessoas, indignadas por pagar estes preços abusivos. A comunidade é vista como um meio de reclamar para os dirigentes do nosso País essa exploração comercial. Não me preocupo com alguma ação judicial porque não estou comercializando produtos piratas. Apenas discuto o assunto. O fato de ter sido o criador da comunidade não significa que eu seja seu maior defensor, mas apenas alguém que teve coragem de expor sua opinião publicamente. De acordo com o artigo 5º, IX, da Constituição Federal, ‘é livre a expressão da atividade intelectual, artística cientifica e de comunicação, independentemente de censura ou licença’.”

Leandro Rossi, da comunidade Eu roubo placas:

“Acho que o crime é incentivado por muitos fatores, sobretudo a necessidade de status, de destaque no grupo que a pessoa está inserida. Outras vezes é simplesmente uma oportunidade que aparece, um apreço pelo objeto. A grande maioria dos casos de materiais de sinalização roubados é facilmente evitada se a peça for solicitada aos responsáveis. Cleptomania é uma doença, mas acho conspiracionismo demais achar que uma comunidade de Orkut vai fazer as pessoas roubarem mais ou menos coisas. O problema é mental ou social. Já eliminei comentários pesados demais ou muito extremistas. Todo tipo de exagero se torna patético. Mas minha idéia era abrir um espaço de discussão, não ficar julgando o certo e o errado. Leio muitos comentários bestas, onde percebo apenas cabeças vazias e a questão do status. Muitos erros gramaticais, ortográficos, dialéticos. O que espanta é perceber que jovens com condições de ter um computador estejam sendo tão mal preparados por suas famílias e escolas. Claro que não são todos, e isso não é exclusividade da comunidade. É algo que ocorre em toda sociedade. Sei que o Orkut não se submete às leis brasileiras. De toda forma, se fosse acionado judicialmente teria que ser junto com todos os inscritos na comunidade, todos os programadores de jogos que incentivam a violência, todos os filmes onde ser ‘bandido’ é bom. Mas em um país onde a corda arrebenta sempre do lado do mais fraco tudo pode acontecer. Creio que irei propor uma alteração no nome da comunidade. Também não me agrada o termo roubo. Penso em realizar uma votação entre os integrantes para algum termo menos agressivo”.

Wilson Ferreira, dono da comunidade Viva à pirataria:

“Fico feliz pelo contato da reportagem. Isso evidencia o quanto há necessidade de se discutir o assunto. O propósito da comunidade é o de levar-nos à reflexão e discutirmos sobre os verdadeiros problemas que levam as pessoas a comprarem softwares piratas. Não estamos fazendo apologia do crime. Apenas tratando a questão sob o ponto de vista pragmático. Gravadoras e empresas de softwares, em geral, insistem em cobrar altos preços pelos seus produtos. Mas podemos ser práticos ao questionarmos: por que se cobra tão caro por um CD e ao mesmo tempo vendem-se mídias virgens, prontas para o armazenamento de músicas, programas e outros dados? Por que se vendem gravadores de CDs? Essas perguntas estão apenas na ponta do iceberg. O assunto pode ser muito mais aprofundado, bastando para isso que as pessoas queiram discuti-lo. No Orkut temos um pequeno meio de trazer à tona estas e outras questões. À medida que a comunidade vem crescendo, já estou mais atento aos comentários e não permitirei questões que não enriqueçam a discussão proposta. Como em qualquer outro veículo de informação, no Orkut temos coisas boas e ruins. Assim como na televisão, precisamos examinar tudo e reter o que for bom. As pessoas normalmente comentam sobre as coisas que todos estamos cansados de saber. Na maioria dos casos, todos somos protagonistas dessa história. Mais que espanto, precisamos é ter indignação”.

Gustavo Almeida, dono da comunidade Fãs dos ladrões do Banco Central:

“Não me espanto de forma alguma com nada! Um banco daquele porte receber um assalto daquele tamanho, paciência, né? Fiz aquela comunidade ressaltando o belo trabalho dessa quadrilha! Valeu e beijos!”

Repercussão: o que pensam os internautas sobre os abusos e ilegalidades

O próprio Orkut repercutiu a série “Orkut sem Lei”, publicada desde o dia 10 no sítio da Agência Repórter Social. Veja algumas das opiniões postadas em algumas comunidades:

“O Orkut é a realidade brasileira. Adianta censurar? Alguém faz alguma coisa para punir corruptos, médicos que matam ao invés de curar, todos os juizes são justos? Enfim... Isso é Brasil. É barbárie assumida.” (Bet Stetner, na comunidade Eu Quero Justiça Social!)

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”Repórter Social o caralho. Conheço essa corja. Falam de ‘barbárie’, mas são eles quem são os bárbaros. Ou me mostre um artigo de lá criticando as comunidades comunistas e socialistas que pregam morte aos estrangeiros. (Carlos Augusto Bento, na comunidade Brasil)

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“O fim da censura não pode nos levar a uma sociedade em que tudo é permitido! Se assim for, vamos mostrar filmes pornográficos ao meio-dia na TV... Se alguns querem liberdade absoluta de expressão, estejam prontos para pagar o preço, que é o direito das outras pessoas de não terem sua integridade moral massacrada por grupos que defendem supremacias raciais, por exemplo. O problema deve ser discutido, revelado, mas não sem punição!” (Thiago Andersen, estudante de Engenharia, na comunidade Eu Quero Justiça Social!)

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“Talvez isso seja apenas um momento de revolta. Mas quando leio coisas desse tipo, palavras preconceituosas e de apoio ao roubo e à violência, então perco totalmente a crença nas pessoas. Acho muito importante que tópicos e reportagens deste tipo sejam mais expostos, uma vez que as pessoas estão perdendo o senso de realidade e, pior, de humanidade. O uso de um serviço legal como esse está sendo deturpado ... pelos jovens, principalmente, o que é o mais triste. (Taís Palmieri-Scholz, designer, na comunidade Eu amo o Brasil)

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“Enfia a tua revista naquele lugar, tu tá passando fome e vem fazer propaganda aqui de uma revista que tá é morta de inveja da MÍDIA que é o Orkut, isso se não houver outros interesses!!! Todas as glórias ao Orkut! Comunidades ilegais são retiradas do ar! É questão de tempo, é muito volume de trabalho lá para os webmasters!” (Marco Nunez, na comunidade Brasil)

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“Eu li algumas reportagens do site...que coisa mais horrível... Cadê o respeito....a ética??? Eu fico indignada com isso e mais ainda por não saber como mudar isso!” (Fabiane Hildebrando, na comunidade O que está havendo com o mundo)

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“É isso aí, pessoal. Vamos acabar com o Orkut! É um absurdo termos um canal de informação livre do poder inquisitório da mídia televisiva, livre do controle do Estado, livre do controle do Silvio Santos, do Edir Macedo, da Família Marinho, da Viva Rio e outras escórias controladoras da nossa sociedade decadente. Vamos censurá-lo, destruí-lo.” (Jefferson de Oliveira Junior, na comunidade Brasil)

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“Essas comunidades são reflexo de uma realidade que está aí. O problema é que no Orkut as pessoas têm uma ferramenta para mobilizar e reunir pessoas com o mesmo interesse, como fabricar uma bomba. Grande parte desses jovens são na verdade menores de 18 anos. Querem contestar, ser diferentes, ‘autênticos’, rebeldes, e muitas vezes não têm noção exata da gravidade do que estão defendendo.” (Kátia Cipris, atriz, na comunidade Cibercultura)

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“Poderiam ser criadas penas alternativas on-line. Tipo: o cara é pego promovendo racismo na Internet e a sentença é trabalhar como webdesigner em telecentros. Ia ser um trabalho de educação interessante.” (Gilberto Pavoni Junior, jornalista, comunidade Cibercultura)

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“Nossa juventude está partida, perdida num sem número de informações, mas com pouquíssimo conhecimento. Não vejo como um fenômeno do Orkut, mas como um fenômeno social que ele acaba denunciando. Mas para nossa alegria existem também comunidades de filosofia, educação, direitos humanos... O Orkut mostra parte da cara da nossa sociedade, sem vínculos, compromisso, ética e valores.” (Roberta Trotta, pedagoga, na comunidade Profissão Professor(a))

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“Quanto ao uso do Orkut para este tipo de divulgação de violência, se não for aqui vai ser em qualquer espaço que eles tenham acesso, virtual ou não. Quando não tínhamos Internet eles já divulgavam, se comunicavam de outras formas.” (Melissa Soares, pedagoga, na comunidade Profissão Professor(a))

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“Nem li a matéria toda para saber que é meramente especulativa. Tem pessoas associadas em mais de 500 comunidades, isso prova que não é preciso muita identificação para pertencer a uma delas, entram porque é engraçado...” (Roelton Maciel, na comunidade Jornalismo)

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“Gostar ou não de uma igreja, fazer piada com religiosos até o Casseta e Planeta faz. Não vejo nada de mais. O que se faz no Orkut não é humor. Infelizmente muitos se aproveitam da liberdade de expressão para formarem bandos de intolerância religiosa. Sou a favor da piada, mas sem segundas intenções. Há muita gente querendo fomentar conflitos raciais e religiosos no Brasil. Há gente louca disposta a iniciar esse processo.” (Marco Fonseca, na comunidade TheWebjustice, QG da Liberdade)

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“A partir da matéria chega-se à conclusão de que o nosso país tropical, mestiço, subdesenvolvido, é celeiro de minorias, pois classes média e alta são minorias absolutamente ignorantes da nossa formação e história. A denúncia aos órgãos policiais é necessária. Denúncia formal, por escrito e assinado.” (Bete Abrantes, professora, na comunidade Preconceito? To Fora)

Eles têm entre 7 e 17 anos e estão no Orkut – na mira dos pedófilos

Boa parte dos 6 milhões de brasileiros no Orkut é composta por crianças e adolescentes – embora o sítio seja proibido para menores de 18 anos. Somente em 229 comunidades do tipo Eu tenho 12 anos, Crianças no Orkut ou Eu nasci em 1995 a reportagem contou mais de 220.000 pessoas. Esse número é uma amostra da presença de menores no sítio, pois apenas uma parte deles entra nesses fóruns. Todos esses brasileiros estão em risco. O Orkut reúne comunidades de apologia da violência, das drogas e dos rachas no trânsito, por exemplo, como vem mostrando esta série de reportagens. E também pedófilos. Prontos para agir.

As comunidades assumidamente pedófilas surgem às dezenas. Boa parte sai do ar após iniciativas dos próprios internautas. Entre os nomes de algumas que ainda estão no ar encontram-se: Amo menino de cueca, com 160 pessoas, Adoro porra teen, com 1.016 seres humanos, Adoro uma ninfeta e “Anal infantil” que delícia. Ao todo elas somam milhares de pessoas. Somente a Ninfetas anônimas, excluída no início do mês, reunia 8.918 membros. Os perfis de pedófilos, muitos deles assumidos, chegam às centenas. Em alguns casos interessados em fazer sexo com menores expõem nome, foto e profissão.

É diante dessa realidade que pais ignoram os riscos e deixam crianças e adolescentes navegar à vontade no sítio. Uma comunidade chamada Eu tenho 9 anos tem 212 crianças. Com essa idade ou menos, são pelo menos 950 meninos e meninas expondo seus gostos e hábitos, vulneráveis a investidas de pedófilos. Em Tenho 12 anos, vai encarar? há 2.157 pré-adolescentes. Alguns disponibilizam seus Messenger, o sistema de comunicação on line da Microsoft, pelo qual, recentemente, adultos foram flagrados convidando crianças a fazer sexo.

Na adolescência os números explodem, sob as barbas das autoridades e do próprio Orkut. Somente na comunidade Nascidos em 1989 há 50.616 adolescentes entre 15 e 16 anos. O crescimento é muito rápido. Na comunidade Eu tenho 12 ou 13 anos o número saltou de 208 para 580 em menos de um mês, do fim de julho até esta segunda-feira (22 de agosto). Os moderadores anunciam desde o início que mentiram para poder entrar no Orkut – é obrigatório colocar um perfil acima de 18 anos para poder fazer parte do sítio.

Conexão perigosa

A quantidade de crianças e adolescentes no Orkut pode ser dimensionada clicando-se em palavras-chave de busca, que localizam comunidades. Somente aquelas com as palavras “nascidos em” ou “nasci em” somam 117.457 membros – número que cresce a cada dia. A partir de outras palavras-chave, como “tenho ‘n’ anos”, “crianças”, “pré-adolescentes” e “adolescentes”, a reportagem chegou a mais 103.235 pessoas. Total: 220.692. O mais provável é que isso signifique apenas uma menor parte dos menores filiados ao Orkut.

Pais e professores devem saber que a ligação entre os pedófilos perfilados no sítio e esse exército de crianças e adolescentes está longe de ser eventual. Em comunidades aparentemente inocentes, ou onde o moderador avisa desde o início (em alguns casos, apenas pró-forma) que é proibida a entrada de menores de 18 anos, chama a atenção o número de adolescentes abrindo suas experiências sexuais – ao lado de marmanjos interessados na prática ilegal.

Uma dessas comunidades é Sou novinha, mas já sou safada, com 2.150 pessoas, onde uma garota de 15 anos declarou-se disponível a aventuras. Dezenas de adultos ofereceram-se em seguida. Em Coroas e boys, com 3.170 membros e “dedicada a promover encontros e possíveis namoros entre homens maduros e garotos”, há assédio a adolescentes gays. A KTC & Cia – Adolescentes gays divulga para 834 pessoas e quem nela passar, durante a navegação no Orkut, a foto ilegal de dois adolescentes nus, fazendo sexo.

O estilo de navegação do sítio leva rapidamente de comunidades “inocentes” às demais. Quem clicar nas palavras-chave “7 anos” verá na lista um fórum intitulado “Eu tenho 7 anos”. Exatamente abaixo dele vem uma comunidade sobre “7 anos sem transar”, com uma mulher em posição erótica, de costas e com o bumbum erguido para o possível internauta de 7 anos de idade, recém-saído da primeira infância. Mais alguns cliques no mouse e essa criança facilmente verá coisas sobre sexo bizarro ou violência contra animais.

Liberou geral

O País de 6 milhões de “orkuteiros” potencializa esse número com perfis fictícios, como os que inundam as comunidades assumidamente pedófilas. Essas entram e saem do ar, mas os membros vão migrando para outras e outras. São senhores e senhoras que atendem por nomes como “Gozo pedófilo”, “Papa anjo tarado”, “ninfeta” (entre 40 perfis com esse nome), “comedor” (95 perfis) e “Lolita” (141 perfis). Mesmo com a falsidade evidente e as fotos de pênis, vaginas, posições sexuais e surubas a substituir rostos e fotos de apresentação tradicionais, eles em alguns casos possuem dezenas ou até centenas de amigos.

Cada um dos 220.000 perfis é uma porta de entrada para a comunicação por e-mail. Além disso, há outros recursos para os pedófilos: nas comunidades sobre sexo, entre elas as de “ninfetas” e “lolitas”, há articulação para troca de vídeos e fotos. Em Ninfeta gostosa, inspirada num sítio da Internet, havia um tópico para a venda dos “melhores vídeos Lolitas 2005”. Em praticamente todas as comunidades desse tipo há alguém pedindo para trocar fotos ou querendo adicionar alguém no MSN para fazer sexo virtual.

Na comunidade Sou adolescente e adoro dar, com 312 membros, retirada nesta segunda-feira do ar, a descrição era outro convite a pedófilos: “Tenho 15 anos e gosto de transar. Gosto de rapazes e homens mais velhos, e não tolero aquele papo que sexo entre adolescentes é uma saudável descoberta, enquanto sexo de um homem maior com uma menor é estupro. Besteiras assim nos deixam longe de experimentar as coisas boas que descobri com rapazes e homens mais velhos.”

Em Adoro Lolitas, odeio pirralhas, o dono da comunidade assumia: “Para quem adora uma lolita, lolita de verdade, menor de idade...”. Na Irado e pega ninfeta, idem: “Se você acha que menina é igual a uísque, passou dos 12 está pegando, e não resiste ao ver uma mina novinha e gostosa...”. Em Lolitamania, outra que saiu do ar e reunia 3.552 membros, a descrição era: “A nossa comunidade reúne admiradores (na verdade escravos) dessas nínficas (sic) criaturas entre 11 e 14 anos”.

Inocência

Em contrapartida, as comunidades compostas por crianças mostram-se alheias a esse universo. Não há garantias de que não haja entre os participantes perfis falsos, de pedófilos com capacidade de se aproximar dos meninos e meninas. Mas elas seguem falando sobre temas de sua faixa etária. Uma das moderadoras de uma comunidade formada por crianças de 7 anos mostra gostar da Barbie, da Hello Kitty, da Moranguinho e do Kinder Ovo.

A exemplo de qualquer membro do Orkut, todos classificam-se como “legais”, “confiáveis” ou “sexy”. Em muitos tópicos, elas fazem o mais comum na idade: brincam.

Em outro tópico, T., de 7 anos, divulga seu MSN aos 8 milhões de membros do Orkut.

Comunidades com crianças e pré-adolescentes:

Nascidos em 1997 - 83 membros – (Nº 2140352)

Nascidos em 1996 - 258 membros – (Nº 960280)

Nasci em 1995 - 216 membros – (Nº 1824885)

Nascidos em 1994 - 2377 membros – (Nº 1420641)

Eu Nasci em 1994 - 891 membros – (Nº 1666124)

Menores de 15 anos - 6.171 membros – (Nº 378087)

Menores de 12 anos - 63 membros – (Nº 1389222)

Tenho 11 anos – 452 membros – (Nº 1680742)

Eu tenho 11 anos e to no orkut – 781 membros – (Nº 2022233)

Eu tenho 10 anos e to no orkut - - 318 membros – (Nº 3097581)

Eu tenho 10 anos - 81 membros – (Nº 2923662)

Eu tenho 9 anos – 215 membros – (Nº 2842114)

Eu tenho 8 anos no Orkut - 44 membros – (Nº 2488010)

De 7 a 9 anos - 91 membros – (Nº 2225707)

Eu tenho 7 anos estou no orkut - 46 membros – (Nº 2902419)

Garotas de 7 a 9 anos - 13 membros – (Nº 2811556)

Sou criança com muito orgulho - 400 membros – (Nº 649161)

Crianças do Orkut - 913 membros – (Nº 652004

Menores de 18 anos - 37.407 membros – (Nº 193450)

Menores de 18 anos no Orkut - 623 membros – (Nº 1207023)

Eu tenho menos de 18 anos - 519 membros – (Nº 393764)

Disse ao Orkut que tinha 18 anos - 184 membros – (Nº 601951)

Menores de 17 anos - 501 membros – (Nº 1238714)

Menores de 16 anos - 643 membros – (Nº 1046384)

Só gatinhas (até 17 anos) - 42 membros – (Nº 2303072)

Comunidades com adolescentes:

Adolescentes - 16.918 membros – (Nº 82594)

Eu sou um adolescente revoltado - 340 membros – (Nº 909984)

Eu amo ser adolescente - 109 membros – (Nº 2004330)

Nascidos em 1993 – 819 membros – (Nº 997181)

Eu nasci em 1992 - 4.153 membros – (Nº 1475007)

Nascidos em 1992 – 1.772 membros – (Nº 894683)

Nascidos em 1991/92 – 2.043 membros – (Nº 573956)

Nascidos em 1991 - 7.965 membros – (Nº 1201875)

Nasci em 1991 – 2.681 membros – (Nº 1037005)

Nasci em 1991 *feminino*– 1.117 membros – (Nº 1415673)

Nascidos em 1990 – 4.609 membros – (Nº 2809609)

Nasci em 1990 – 11.993 membros – (Nº 1043584)

Nascidos em 1989 – 50.768 membros – (Nº 344280)

Nascidos em 1988 – 7.911 membros – (Nº 697035)

Eu tenho 17 anos de idade - 503 membros – (Nº 696021)

16 anos - 725 membros – (Nº 761716)

Tenho 14, 15, 16 anos e msn – - 3.399 membros – (Nº 1538457)

14/15 anos – 10.986 membros – (Nº 356840)

15 anos – 2.862 membros - (Nº 670237)

Tenho 13, 14 anos, e daí? – 5.191 membros – (Nº 100428)

Tenho 13, 14 ou 15 anos - 997 membros – (Nº 1651679)

Tenho 14 anos – 626 membros – (Nº 982549)

13 anos de idade – 2.657 membros – (Nº 688185)

Tenho 12 anos, vai encarar? – 2.168 membros – (Nº 1001292)

De 11 a 12 anos – 1.430 membros – (Nº 803103)

Meninas de 12 anos - 426 membros – (Nº 870164)

Algumas comunidades onde há ação de pedófilos:

Coroas & boys – 3.169 membros – (Nº 508365)

Suruba Teen – 2.770 membros – (Nº 530774)

Paizão_ativo Filhão_passivo – 2.155 membros – (Nº 795976)

Sou novinha, mas já sou safada – 1.834 membros – (Nº 760661)

Adoro porra teen – 1.416 membros – (Nº 1346820)

Quanto mais nova, mais gostosa – 690 membros – (Nº 1023534)

Amamos ninfetas e lolitas – 570 membros – (Nº 1523450)

Garotas precoces – 536 – (Nº 862387)

Menininhas pervertidas – 469 membros – (Nº 495258)

Ninfetas adoram homens maduros - 468 membros – (Nº 1425725)

Clube dos amantes de ninfetas – 377 membros – (Nº 1484769)

Jovens gays (11 a 19 anos) PR – 318 membros – (Nº 2999833)

Sou adolescente e adoro dar – 312 membros – (Nº 1129807)

Discursões-sexo aos 13/15 anos – 234 membros – (Nº 1000143)

Lolitas forever – 228 membros – (Nº 538178)

As ninfetas são as mais gatas – 177 membros – (Nº 20093359)

Ninfas bebês - 170 membros – (Nº 1134594)

Tenho 14/15/16 anos,sou gay/bi - 155 membros – (Nº 3505917)

Amo menino de cueca – 130 membros – (Nº 3855105)

As novinhas são as melhores – 123 membros – (Nº 1009783)

Ninfetas safadinhas – 91 membros – (Nº 4092369)

Os + gatos (16 a 26 anos) – 61 membros – (Nº 1793056)

Ninfetas e ninfomaníacas – 55 membros – (Nº 821651)

Disponíveis – SP, 13 á 25 anos – 42 membros – (Nº 3560570)

Amo ninfeta que tb curte ninfeta - 35 membros – (Nº 1170240)

Lolitas ninfetas BH – 16 membros – (Nº 2458427)

Ninfetas que curtem inversão – 4 membros – (Nº 3258634)

Ninfetas X Casais em Caxias-RS – 2 membros – (Nº 3714662)

Dono de comunidade ‘Ninfetas Anônimas’ a apaga após dar entrevista

O estudante de Computação Carlos Fernando Ferreira Junior, de 22 anos, criou no Orkut uma comunidade chamada Ninfetas Anônimas. Ele deu esta entrevista à Agência Repórter Social pouco antes de apagar a comunidade. Nela o jovem de Macaé (RJ) diz que as crianças “deveriam ser proibidas” de entrar no sítio, declara-se ciumento em relação à irmã de 4 anos e diz que não imaginava a dimensão que o fórum pudesse ter. Em seguida, ele enviou email à repórter dizendo que tinha conseguido apagar a comunidade. Confira:

Repórter Social Há quanto tempo você está no Orkut?

Carlos Fernando Ferreira Junior - Quanto tempo... Olha, acho que um ano ou quase dois.

Repórter Social - E você é dono de muitas comunidades?

Ferreira – Hehehe, algumas... Eu crio comunidades para zoar.

Repórter Social - Como assim para zoar?

Ferreira - Um exemplo... eu criei uma comunidade "eu tenho pouca barba", porque meus amigos me zoam porque eu quase não tenho barba. Outra, “eu amo Santa Rita do Sapucaí”. Que eu me lembre, agora só essas.

Repórter Social - Mas você participa de todas elas?

Ferreira - Não, não tenho muito tempo também. Eu gosto mais de criar, mas raramente eu faço um post.

Repórter Social - Você falou que está trabalhando. O que faz? Estuda também?

Ferreira - Sou programador em uma empresa, e faço faculdade de Computação.

Repórter Social - Tem uma comunidade da qual você é moderador, que se chama "Ninfetas Anônimas", confere?

Ferreira - Yeahp!

Repórter Social - Que tem mais de 8.000 pessoas. Muita gente, né?**

Ferreira - É sinistro, né?! Quando eu criei tinha uma função... mas agora... foi tomada... e nem tem como desfazê-la.

Repórter Social - Mas qual era a função dela quando foi criada?

Ferreira - É porque eu moro em Macaé, que é uma cidade pequena... e aqui tem muitas garotinhas novinhas que parecem ser mais velhas... tipo com 15, 16 anos que parecem ter 18 ou 20. Aí a galera ficava chamando de papa-anjo e tal. Criei para a galera zoar... mas começou a entrar tanta gente que perdeu o controle... Hoje em dia eu nem vejo mais o andamento da situação.

Um povo meio estranho, inclusive...

Repórter Social - Você acha que sua comunidade incentiva a pedofilia?

Ferreira - Espero que não, ehhehe, pois eu sou contra... Eu tenho uma irmã de 4 anos e sou ciumento.

Repórter Social - Tem um monte de crianças que estão no Orkut, algumas delas com perfil feito pelos pais. Ela não está lá não, né?

Ferreira – Não, ehhehe, ela nem mexe no PC. No Orkut tem um monte de comunidades de sexo, pedofilia, zoofilia e essas coisas.

Repórter Social – Pois é...

Ferreira - Deveria ser proibida (a participação de crianças)... mas eu também concordo que é difícil restringir.

Repórter Social - E tem um monte de crianças lá, que podem achar essas comunidades a qualquer momento. Mas você acha que devia ser proibido e cria uma que pode incentivar as pessoas a terem mais pornografia, pedofilia... Não é meio contraditório?

Ferreira - Talvez, mas como lhe disse... Eu criei com um propósito, coisa de amigos... No inicio ninguém tinha Orkut, não era essa "febre". Eu já tentei desfazê-la, mas não tinha essa opção lá

Repórter Social - Por exemplo, se alguém quiser investigar, é seu nome que está lá. Você cogita a possibilidade de ser considerado pedófilo?

Ferreira - Nunca pensei nessa hipótese não. E pior, como dono, quando eu saio meu nome ainda fica lá... Pô, se eu tivesse essa intenção não colocaria meu nome, MSN, uma serie de informações honestas, geralmente as pessoas ocultam informações. Eu realmente nunca tinha imaginado dessa forma.

Repórter Social - Eu pergunto porque quem bate o olho vê umas coisas horríveis lá.

Ferreira - Mas isso é fogo... Imagine que você cria uma comunidade pra um amigo chamado de Azul e nego entra e acha que você é racista.

Repórter Social - Você criou uma comunidade para um amigo chamado Azul?

Ferreira - Não, hehe.

Repórter Social - Como as pessoas entram na comunidade? Você controla quem entra ou não?

Ferreira -Entra quem quer.

Repórter Social - Mas você concorda que o Orkut ficou tão grande que tem muita gente lá, que perdeu esse caráter de "brincadeira entre amigos"?

Ferreira - Ehheh é verdade... mas eu já tentei excluir, e não consigo. Se souber como apagar uma comunidade você me avisa.

Estudante criou sítio ‘Ninfetas Gostosas’ aos 12 anos, para ganhar dinheiro

A comunidade que o estudante de Administração de Empresas Cristiano Coubé mantinha no Orkut, retirada após a realização desta entrevista, era uma extensão do sítio homônimo que ele mantém desde 1998 na Internet – desde quando ele tinha 12 anos. Ele conta que começou com um provedor grátis, depois comprou o domínio. Sobre o sítio, ele diz que é uma forma de ganhar dinheiro, pois recebe patrocínio. As fotos lá publicadas, inclusive nas categorias “ninfetas” e “teens”, ou são enviadas por internautas ou ele mesmo acha na net. Coubé afirma que, quando fica na dúvida se uma menina tem menos de 18 anos, não coloca a foto. Confira a entrevista:

Repórter Social -Há quanto tempo você está no Orkut?

Cristiano Coubé - De 7 a 8 meses, eu acho... não sei a data certa.

Repórter Social - Você é dono de muitas comunidades?

Coubé – Não.

Repórter Social -Tem uma comunidade da qual você é dono, a "Ninfeta Gostosa", de maio de 2004... Para que exatamente ela foi criada?

Coubé - Para os usuários do site ninfetagostosa.com.

Repórter Social - O sítio existe faz tempo?

Coubé – Desde 1998.

Repórter Social - Você acha que sua comunidade é pedófila?

Coubé - Não, porque não tem fotos de pedofilia lá.

Repórter Social – Você sabe que pessoas menores de idade podem ter acesso?

Coubé - No meu site não tem menores cadastrados. Acho que só tem homem e maiores de idade. Agora, no meu Orkut tem, sim, mas são todas amigas minhas... e a maioria é de maior.

Repórter Social - Nas fotos que lhe mandam, antes de você colocar no site, dá para saber se as meninas são maiores ou menores de idade? Às vezes não, né?

Coubé - Não. Mas as que eu tenho duvida não coloco.

Repórter Social - Existe essa preocupação, então?

Coubé - Claro... afinal não quero ser preso, né? Hehe. Olho todas as fotos antes.

Repórter Social - Muita gente pode considerar a sua comunidade como pedófila... Qual será seu argumento diante disso?

Coubé - Eu sei, mas acho que seria pedofilia se eu colocasse fotos de menores, o que não e o caso.... Será que só pelo nome pode me ter algum problema?

Repórter Social - Então você não considera que sua comunidade tenha conteúdo pedófilo?

Coubé - Não... eu vi agora .. e só tem uma mulher lá ... e ela tem 23 anos.

Repórter Social - Mas a comunidade chama-se “ninfetas”. O nome, por si só, não pode atrair pedófilos ou meninas menores de idade?

Coubé - Sim, mas o nome é só pra chamar visitas... Se você vir bem nenhuma ali é menor, não!

“Sei que ela pode encontrar comunidades sobre sexo, mas por enquanto não me preocupo”, diz mãe

Dulcinéia Nascimento Medeiros, 33 anos, criou o perfil da filha de 8 anos no Orkut. Ela conta que viu um perfil suspeito, “de um palhaço”, tentando falar com a menina e com outras crianças. “Tem muita gente estranha por aí”, admite. Confira seu depoimento:

“Eu tenho Orkut desde 2004. Minha filha está há uns quatro meses. Criei o perfil dela porque ela sempre ficava querendo ver o meu, aí eu mostrava as fotos dos meus amigos, etc. Ela foi gostando e fiz um perfil para ela. Antes ela não sabia mexer direito, até um dia em que entrei no Orkut e vi uma mensagem dela para mim.

Antes ela até perguntava como fazia, mas agora entra sozinha e mexe na página dela, chama outras crianças para serem amigas. Já tem um monte de criança que ficou amiga dela pelo Orkut.

Eu oriento quando estou em casa, mas não dá para ficar toda hora vendo que tipo de página ela acessa. Como ela ainda é muito nova, ainda não tem muita curiosidade em relação a sexo, essas coisas, mas depois que crescer um pouco não sei... Sei que ela pode encontrar esses sites ou comunidades no Orkut com a maior facilidade, mas por enquanto não me preocupo muito com isso. Por enquanto ela está mais preocupada em acompanhar as comunidades da Barbie, Hello Kitty, essas coisas.

Minha orientação é que ela não autorize adultos como amigos, só crianças. Tem muita gente estranha por aí, a gente não sabe o que passa na cabeça das pessoas. Eu me preocupo com isso sim, não tem muitas fotos dela, por exemplo. Tem uma só, e que eu estou com ela. Eu não fico colocando um monte de fotos, sei que elas podem ser usadas para outras coisas, eu sei que fica fácil para as pessoas identificarem, por isso não tem muita coisa lá.

Quando eu vejo que alguém que pode ser suspeito entra em contato com ela pelo Orkut, vou logo investigar. Um dia um perfil com uma foto de palhaço deixou scrap perguntando de onde ela era, aí eu fui investigar. Vi que ele tinha deixado a mesma pergunta para um monte de crianças, mesmo assim pedi para ela não continuar a conversar com ele.

Mas se eu suspeitar que alguém quer fazer mal para minha filha, não tenho problema nenhum em denunciar, ou me passar por ela para pegar, junto com a polícia, a pessoa no flagra”

“Adultos são enganados pela Internet, por que as crianças sairiam ilesas?”

A psicológa Maluh Duprat avisa: “No Orkut muita gente deixa informações muito pessoais, é muito fácil para um possível malfeitor descobrir as preferências da criança, onde ela mora, onde ela estuda, e se aproximar dela.” Ela faz parte do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Critica os pais que expõem demais os filhos na Internet e nota a falta de fiscalização no Orkut. Confira a entrevista dada a respeito da série “Orkut sem Lei”:

Repórter Social – Centenas de milhares de crianças e adolescentes estão no Orkut. Como você analisa isso?

Maluh Duprat -Eu acho que o Orkut tomou uma proporção que nem o criador dele pensava que ia ter. A partir disso, mudanças estão sendo feitas, mas tem muita coisa que eu acho que não foi prevista. A adesão de tanta gente, por exemplo. Não dá, por enquanto, para controlar as coisas que têm lá dentro. E não acho que esse controle foi pensado, porque essa não era a intenção do site. A partir disso, fica muito fácil achar coisas que são contra a lei lá dentro, porque não tem fiscalização. Por isso, talvez, só maiores de 18 anos possam entrar, mas não há fiscalização nenhuma. Aliás, acho que metade das pessoas que estão lá são adolescentes, porque é uma linguagem com a qual eles se identificam.

Repórter Social – O caminho é proibir?

Maluh -Não sei se adianta muito os pais proibirem o acesso, até porque não tem como saber o que os adolescentes fazem na Internet, ou no Orkut, o tempo todo. Ainda mais na adolescência, quando parece que tudo que é proibido é melhor... A única solução é o diálogo com os filhos, fazer com que eles entendam que algumas coisas são prejudiciais. As orientações para Internet e Orkut são as mesmas que podem ser aplicadas na rua: não fale com estranhos, porque nem sempre eles têm boas intenções, não aceite coisas de desconhecidos... A mesma coisa pode ser aplicada no Orkut: não adicione estranhos, não entre em comunidades suspeitas... a regra é a mesma.

Repórter Social – Há pais fazendo perfil para os bebês no Orkut. A comunidade Bebês do Orkut, por exemplo, possui mais de 1.000 membros.

Maluh - Muitos pais expõem os filhos além da conta, e acho que no Orkut isso pode ser verificado. As crianças menores ainda não têm muita ligação com o Orkut, até por ser um site mais voltado para comunidades, e para escrever. Os meninos nessa idade preferem os jogos, as meninas preferem outras coisas, como fotlog, sites de jogos também, coisas mais interativas. O fato de colocar crianças pequenas, até antes delas nascerem no Orkut demonstra que os pais querem mais mostrá-las ao mundo do que qualquer outra coisa. Eles querem mostrar aos outros o que eles conseguiram fazer. É uma atitude narcisista, e expõem os filhos ao mundo, meio como propriedade deles. Existe, ainda, a violação da privacidade da criança. Ela não sabe muito bem para que aquilo serve. Será que quando ela for mais velha vai gostar de se ver tão exposta assim, desde que nasceu? As pessoas às vezes não têm muita noção do alcance da Internet. Elas podem até achar que as fotos dos filhos vão ficar lá só para os amigos e parentes, e se esquecem que qualquer pessoa no mundo pode ter acesso àquela página. Inclusive no Orkut muita gente deixa informações muito pessoais, é muito fácil para um possível malfeitor descobrir as preferências da criança, onde ela mora, onde ela estuda, e se aproximar dela. Não digo que isso acontece milhares de vezes, mas pode acontecer.

Repórter Social – No caso dos adolescentes a lógica é a mesma?

Maluh - Mesmo com adolescentes, muitas vezes eles marcam encontros, dão telefones para pessoas que conhecem na Internet e são enganados. Muitos adultos são enganados pela internet, então porque as crianças sairiam ilesas? Os pais desrespeitam a privacidade de alguém que não teve escolha. Uma coisa é ter um álbum de fotos, ou mandar fotos por e-mail para os conhecidos, mas expor seu filho para o mundo é uma falta de respeito com a privacidade dele. A noção de propriedade é interessante. Os pais não fazem perfis de filhos grandes, por exemplo, a maioria das vezes é de bebês e crianças. O relacionamento entre pais e filhos já começa com esse sentimento de posse, mais ou menos como "olha que parte linda de mim que é essa", e não é assim, o filho é outra pessoa. Não acho que o fato de uma criança ter página no Orkut ou fotologs afete diretamente o desenvolvimento delas. Mas pode ser que, quando essa criança crescer e ter mais conhecimento do que se trata, ela não goste tanto de ter sido exposta desde cedo.

Repórter Social – O Orkut, ao contrário da Internet, não oferece a opção de bloquear comunidades pornográficas, por exemplo. Os adolescentes estão expostos demais? Há comunidades para sexo entre adolescentes gays, com a participação de adultos.

Maluh - Os adolescentes estão muito expostos a uma erotização precoce, e isso se reflete em todas os aspectos da vida deles, inclusive no Orkut. A TV, as revistas para adolescentes são todas direcionadas para a perda da virgindade, por exemplo. Nem assuntos como o primeiro beijo são tratados mais, parece uma coisa banal demais. A virgindade, inclusive, já é vista como um problema depois de certa idade. Essa pressão da sociedade faz com que adolescentes e pré-adolescentes comecem um processo de erotização muito precoce. O problema é que, se a vida sexual acontece cada vez mais rápido, a maturidade demora cada vez mais. Os adolescentes estabelecem entre eles relações muito rápidas, superficiais. Daí a necessidade de muitos deles em aparecer, e serem desejados. Há falta de atenção e carinho nas relações reais. Por meio de um perfil no Orkut no qual a menina aparece de calcinha, por exemplo, muitos homens vão deixar mensagens, falando o quanto ela é linda. Esse tipo de atenção ela vai conseguir, mas vai ser uma coisa muito superficial. Aí o vazio vai ficar cada vez maior, e uma hora ela não vai mais conseguir esconder a necessidade de ser amada atrás dessa coisa sexual.

Repórter Social – E o que fazer?

Maluh - Para um adolescente chegar nesse ponto,é preciso uma lacuna muito grande de afetos. Muitas vezes os pais não percebem o quanto estão distantes dos filhos, quanta falta faz para eles o afeto. Se de repente eles descobrem que a filha ou o filho tem um perfil pronográfico no Orkut é porque o caso é muito grave. Não adianta punir ou deixar de castigo. Essa família vai ter que sentar e descobrir o que está acontecendo. Um adolescente que tenha um bom suporte afetivo dificilmente vai se expor dessa maneira. Claro que podem existir casos de pais que colocam os filhos na net (ou no Orkut) para fins de exploração, mas aí já crime, não simplesmente falha na comunicação... Esses casos são para a polícia resolver.

Racismo tem divulgação disfarçada

O controle de comunidades assumidamente racistas no Orkut vem ocorrendo com um certo sucesso. Diante da vigilância dos negros, ou mesmo da Justiça, elas são obrigadas a sobreviver com perfis falsos e duram poucos dias ou semanas. Mas o racismo prossegue a todo vapor no sítio com 6 milhões de brasileiros: ele aparece nas comunidades contra “manos” e disfarçado de brincadeira em comunidades que em tese não propagam a discriminação. Em muitos casos, o preconceito tem nome e sobrenome.

A carioca Alessandra Salles participa de uma discussão na comunidade Eu odeio a Preta Gil sobre “qual bicho ela parece”. “Saca só o nariz na foto da comunidade, agora olhe a boca dela... na hora eu lembrei de um gorila”, afirma. Vanessa Siqueira também participa e compara a cantora a um “macaco”. A filha do Ministro da Cultura é comparada por 53 brancos, dois negros e quatro pessoas sem foto a inúmeros outros bichos, em comentários que reproduzem o rebaixamento histórico dos afrodescendentes à condição de animais.

Essa comunidade tem mais de 20.000 pessoas, quase o mesmo número da Anti-cotas Raciais. Um direito legítimo, o de ser contra as cotas. Mas que vira porta de entrada para avaliações como a do carioca Eduardo Chueri: “Na cultura negra balançar a bunda é legal. Se você é um negro preguiçoso, então é um cara maneiro e sangue bom. O dia que os negros começarem a pensar como japoneses, vão notar o como é fácil passar no vestibular.”

Eles odeiam “manos”

Mas os racistas utilizam como maior recurso a criação ou utilização de comunidades contra “manos”. Esse termo está ligado a jovens de periferia, em boa parte adeptos da cultura hip-hop, mas é utilizado pelos jovens de classe média em relação aos pobres e negros que, segundo eles, “invadem os shoppings”. Nas fotos de apresentação dessas dezenas de comunidades aparece sempre um jovem negro. Algumas delas, como Mate um mano/plante uma árvore, pregam explicitamente a violência.

Em Eu odeio as Minas Mano, o paulista Fernando Rabello avalia: "O mais engraçado das minamano é quando elas vão sair e usam aqueles cabelos cheios de creme. Ô racinha pra ter cabelo ruim!" Michael Pires, que declara ter 19 anos, escancara, na comunidade com mais de 30.000 pessoas: "Sou preconceituoso, sim. E quero que todos os manos vão se foder.”

Em uma mídia com 6 milhões de pessoas, o preconceito se espalha. Há comunidades com nomes como Manos estragam Sorocaba e Manos estragam Poços. Poços, no caso, é a mineira Poços de Caldas. Mas são os paulistas que estão à frente da discriminação no Orkut. Bauru, Rio Claro, São Carlos, Valinhos e Botucatu são outras cidades do interior paulista onde milhares de jovens declaram seu preconceito contra os “manos” e discutem “como acabar com eles”. A comunidade sorocabana tem quase 2.000 membros.

Há um desejo recorrente de ver “os manos fora dos shoppings”. Na verdade, mais do que isso. “Devíamos fazer que nem os nazistas”, diz na comunidade Eu odeio os manos de shopping o título de um tópico postado por P. R. C. Junior, de Marília (SP). Ele não tem o nome divulgado aqui por aparentemente ter menos de 18 anos. “Fiquei pensando em como essa raça miserável é um soco na cara da sociedade... aí me veio na cabeça que eles podem ser o que está atrasando o Brasil, assim como Hitler pensou que os judeus estavam acabando com a economia alemã...”

O jovem prossegue em sua avaliação: “Mas no caso de Hitler ele estava errado... no nosso caso é verdade! Pense bem: são eles que assaltam, traficam drogas, picham muros, destroem patrimônio público e quando são pegos pela polícia somos nós que temos que pagar a estadia dos vagabundos na prisão. Imaginem se pegassem toda essa raça e começarem a jogar na câmara de gás? Sei que estou sendo utópico, mas seria uma bela solução.” Nove outros internautas concordaram com Junior.

Influência do dono

Os moderadores influenciam diretamente o andamento das comunidades. A começar da escolha das fotos. Uma das descrições é repetida em vários fóruns. “Se você é que nem eu e quer exterminar essa raça entre na comunidade e discuta sobre esse lixo que são os manos”, escreve o dono da comunidade Eu odeio manos. O dono do fórum BS- Black Service (em referência à expressão racista “serviço de preto”) é o mesmo de Mate um mano/plante uma árvore.

Em Eu odeio o Alexandre Pires, o moderador avisa que ali não há espaço para racismo mas mesmo assim há várias tentativas nesse sentido – como um tópico na quinta-feira, onde o cantor, a exemplo de Preta Gil, é também comparado a um macaco.

Foi por ter supostamente chamado de “macaco” o jogador Grafite, do São Paulo, que o argentino DeSabato foi preso este ano após jogo no Morumbi. Em junho, o promotor Christiano Jorge Santos, denunciou em São Paulo Leonardo Viana da Silva, de 20 anos, por racismo praticado no Orkut. No seu caso, o perfil dizia: “Odeio preto”. Segundo Santos, Silva confirmou ser racista no depoimento à promotoria. O crime praticado através de meio de comunicação prevê pena de reclusão de 2 a 5 anos, mais multa. Como ele fez quatro depoimentos racistas no Orkut, foi denunciado cinco vezes.

Segundo o Ministério Público, qualquer internauta pode ser punido.

Alceu Luís Castilho, Jéssika Torrezan e Lígia Ligabue

Lista de comunidades:

Eu odeio as "Minas Mano" - 31.323 membros – (Nº da comunidade 267420)

P.q.Pariu,eu odeio a Preta Gil - 20.167 membros – (Nº 79266)

Anti-cotas raciais - 18.031 membros – (Nº 40260)

Eu odeio mina q paga de mano - 6.556 membros – (Nº 1379753)

Eu não comeria a Preta Gil - 5.580 membros (Nº 92727)

Eu odeio os manos de shopping! - 3.532 membros – (Nº 774201)

Eu odeio mano & maloqueiro - 1.991 membros – (Nº1321197)

Manos Estragam Sorocaba! 1.836 membros – (Nº 902121)

Já arranjei briga com mano - 951 membros – (Nº 1326410)

Os Manos estragam Poços! - 930 membros – (Nº 1444511)

Eu odeio os manos de Bauru - 598 membros – (Nº 705014)

Eu odeio mano!! 565 membros – (Nº 665182)

Nós odiamos manos! - 553 membros – (Nº 879665)

Odiamos Os Manos De São Carlos - 484 membros – (Nº 1689532)

Mate um mano/plante uma árvore - 454 membros – (Nº 2866537)

Manos da Catedral... Sucks! (Botucatu) - 443 membros – (Nº 431265)

Odeio os manos do shops de Rc (Rio Claro) - 359 membros – (Nº 945736)

Eu odeio "Manos" - 325 membros – (Nº 866303)

Odeio os manos de Rolândia - 200 membros – (Nº

Odeio mano - 369 membros – (Nº 233749)

Eu odeio “Mano Fucker” - 279 membros – (Nº 701800)

Eu odeio mano - 240 membros – (Nº 1142216)

Seja um humano, não um mano - 217 membros – (Nº 4217930)

Os manos tomaram conta de TB (Telêmaco Borba) – 152 membros – (Nº 3273580)

Odeio os manos de Valinhos - 125 membros – (Nº 1854510)

BS – Black Service - 69 membros – (Nº 2421397)

Eu odeio os manos de Marília - 48 membros – (Nº 1980847)

Odeio os manos de Arapongas - 46 membros – (Nº 3602584)

“Antes existia a sensação de impunidade, hoje se tem certeza”, diz psicólogo do trânsito

Com mais de 35 anos de experiência em psicologia do trânsito, Salomão Rabinovich mostrou-se indignado com as reportagens sobre trânsito publicadas na série “Orkut sem lei”. Em particular, o fato de 250 comunidades sobre rachas e pegas terem mais de 100.000 membros. "Estamos vivendo uma pseudo-democracia. Democracia é muito difícil porque exige respeito. E estamos muito longe de cidadania, de civilidade”.

Presidente da Associação das Vítimas de Trânsito (Avitran) e presidente da Comissão de Ética, Cidadania e Direitos Humanos da Academia Paulista de Psicologia, Rabinovich ressaltou o clima de impunidade no Brasil. “Antigamente você tinha a sensação da impunidade, hoje você tem a certeza. Só o que esses jovens não sabem é que eles estão pondo em risco a vida deles.”

Para o psicólogo, o Orkut é freqüentado por jovens. “Jovens que estão sem perspectiva”, avalia “Então eles estão se juntando em grupos, onde conseguem recalcar uma série de coisa, principalmente a violência. E esta é a nossa temeridade, porque se está tendo incitamento ao ódio.”

Rabinovich vê problema mesmo em comunidades aparentemente inocentes, do tipo “eu odeio” – onde as pessoas dizem odiar uma personalidade, um time, alguma coisa. “É uma palavra muito forte”, ele diz. “É um incitamento ao ódio. Inclusive juntando pessoas que cometem ilícitos civis e penais e não acontece nada. Entristece ver uma camada importante da população jovem incitando a ódios. Porque eles têm uma coisa que poderia ser muito mais produtiva, construtivamente.”

Para o psicólogo, o Brasil pode, sim, ter campeões de Fórmula 1 e outras provas de automobilismo, sem que isso migre para as ruas. “Mas que quem queira correr vá se preparar em locais adequados, com segurança. E não na rua, ameaçando a vida dos outros. Nada justifica você cometer ato ilícito porque não tem um lugar próprio.”

Sobre comunidades como a Eu bebo e dirijo, Rabinovich escolheu o termo “absurdo” para defini-las. “Democracia é respeito à lei. Você pode ter idéias contrárias, discuti-las, mas não questionar e transgredir a lei. Senão vira uma desobediência civil total e acabou. Nós já estamos vivendo um momento difícil no país. Nós já estamos vendo irresponsabilidades de toda a sorte. Será que nós precisamos de mais problemas ainda?”

O psicólogo questionou a “emoção” que o praticante de racha alega ter. “Ao mesmo que se luta com a medicina e com a tecnologia de ponta para salvar uma vida, você perde uma vida assim, estupidamente, numa fração de segundos. Quer ter emoção? Então se jogue de um viaduto e vá ter emoção sozinho, sem colocar em risco a vida de outras pessoas”.

Poder público

O presidente da Avitran criticou ainda a falta de policiamento de trânsito: “Antes nós tínhamos o Comando de Policiamento de Trânsito aqui na capital, que conseguia inibir um pouco. Hoje o governador acabou com esse batalhão. Está um Deus dará.” Rabinovich defende ainda a obrigatoriedade do uso do bafômetro. “Tem em qualquer país do mundo. No Japão a tolerância para isso é zero. A lei serve para regular a vida em sociedade. Senão cada um faz o que quer”.

E, para além das leis, falta, segundo o psicólogo, um projeto de educação. “Se não mudarmos a questão da educação, da civilidade, da cidadania, da impunidade, da moralidade pública não vamos atingir nada. E muito menos o trânsito, que vai por tabela”.

"Pais podem responder por negligência", diz promotor sobre exposição de crianças

Em repercussão à série "Orkut Sem Lei", o promotor Arnaldo Hossepeian Jr, assessor da Procuradoria Geral de Justiça, do Ministério Público do Estado de São Paulo, disse que os pais podem responder por negligência se permitirem a exposição de seus filhos a conteúdos libidinosos em qualquer tipo de mídia, inclusive no Orkut.

“O pai negligente tem que arcar com a sua negligência”, afirma Hossepian. “Se ele permite que seu filho fique exposto a imagens e conteúdos de libidinagem, ele age dolosamente”, explica o promotor.

Uma vez que a criança tenha seu perfil criado, por ela mesma ou pelos responsáveis, o promotor sugere que se exerça uma fiscalização dos locais que ela freqüente. “Mas são poucos os pais que efetivamente podem fazer isso”, avalia.

Por isso, recomenda, os pais devem ficar alertas. “O controle dos pais é fundamental. Se eu não tomar conta, eu exponho meus filhos”.

Caso a criança receba alguma mensagem de conteúdo ilícito, o promotor recomenda que os pais a imprimam e a encaminhe ao Ministério Público, que iniciará a investigação.

Denatran diz desconhecer existência de 250 comunidades sobre rachas

O Departamento Nacional de Trânisto (Denatran) foi informado pela reportagem sobre a existência de 250 comunidades sobre rachas no trânsito, onde estão filiados mais de 100.000 participantes do Orkut: "O Denatran não tinha conhecimento dos fatos ora relatados, porém, cabe ao Denatran, com base em denúncia fundamentada, encaminhá-la à autoridade competente, com vistas a sua devida apuração."

Segundo o órgão ligado ao Ministério da Justiça, que demorou 10 dias para responder à Agência Repórter Social, a pena para quem for pego disputando um racha é a prevista no art. 173 do Código de Trânsito Brasileiro. A infração é considerada gravíssima, com penalidade de multa (multiplicada por três), suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo, além do recolhimento do documento de habilitação do motorista.

Sobre crimes como roubo de cones e placas, a assessoria jurídica do Denatran apenas informou que se tratam de crimes que fogem à sua competência. À autoridade de trânsito cabe, segundo o órgão, "intensificar a fiscalização nas áreas sob sua circunscrição e, se constatada a prática de 'racha', adotar as medidas administrativas previstas".

Além do Código de Trânsito Brasileiro, os motoristas estão sujeitos às punições previstas no Código Penal.

Alceu Luís Castilho, Jéssika Torrezan e Lígia Ligabue

Homofobia: do humor “inocente” aos relatos de violência

“Quem já espancou um veado?”, pergunta Ronaldo Ineu Guedes na comunidade Eu odeio viados, do Orkut, com mais de mil pessoas. Ele mesmo respondeu, no dia 28 de julho: “Eu já espanquei, foi antes do carnaval. O puto deu parte de mim, depois quase fui preso e quase perdi o carnaval! Mas não me arrependo nem um pouco”.

Em comunidades como Eu zôo travecos,com 847 membros, há diversos relatos de violência praticada contra travestis, nas ruas de cidades como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Vitória.

“Eu já soltei rojão também, e joguei o extintor do carro nesses filhos da puta”, contou o surfista Paolo, no dia 26 de junho. Outros relatam espancamentos, humilhações e contam que jogam ovos e até dão tiros com espingarda de chumbo ou pistola de paintball. “Boas essas idéias”, analisou no dia 20 de agosto o capixaba Yuri Mariano, de 18 anos. “Mas também dá para fingir que vai dar carona pro bicha e quando ele estiver entrando, você arranca com o carro. Aí a bicha vai ficar no chão, já fiz isso. Se estiver com muita raiva, dá até para dar uma rezinha."

Pessoas com nome, sobrenome e outras identificações participam de comunidades como Matem os travecos, com descrições como esta: “Traveco bom é traveco morto. Então não fique aí sentado esperando. Quando encontrar um traveco na rua, bata nele até ver o filho da puta vomitar sangue!!!”

Assim como ocorre com o racismo, a maior parte das comunidades explicitamente homofóbicas sai do ar em pouco tempo. Mesmo assim, elas somavam nesta terça-feira mais de 5.000 membros. Algumas não pregam a violência, mas definem o homossexualismo como câncer ou algo anormal. Uma delas coloca entre as comunidades relacionadas – o moderador da comunidade pode escolher 9 fóruns desse tipo – uma chamada Saúde Mental e outra sobre HIV/Aids, reforçando estereótipos.

A defesa da violência aparece ainda em comunidades que não têm nada a ver com temáticas homofóbicas. É o caso do fórum KDM Clube de Ginástica, uma academia no Rio de Janeiro. “Está foda de malhar e ficar um monte de bicha dividindo aparelho com cueca enfiada no rabo”, afirmou em janeiro Marcelo Guimarães, um fã ardoroso de surf e jiu-jitsu. “Vai chegar a hora em que a KDM vai virar point gay da Tijuca”, reclama. “Hostilização já!”

Homofobia em escala

Nem tudo descamba para a apologia da violência e discriminação de homossexuais, mas a base cultural da homofobia no Orkut é bem mais ampla que a das comunidades acima. Ela se manifesta em pelo menos três vertentes principais:

1) Comunidades contra personalidades. Jean, do Big Brother Brasil 5, é um dos principais alvos, ao lado dos apresentadores Clodovil e Leão Lobo. O fórum Eu odeio Jean do BB5 tem mais de 5.000 pessoas. Entre as mulheres, uma das citadas é a empresária Marlene Mattos. Em comum, ocorre o linchamento da imagem de um profissional a partir de sua opção sexual.

2) Comunidades “humorísticas”. São engraçadinhas, mas homofóbicas, e existem às dezenas. Caso da Sem camisa no Orkut = viado, ou da Zagallo é viado tem 13 letras, com mais de 13.000 pessoas, sobre o auxiliar técnico da seleção brasileira.

3) Comunidades de times de futebol. Xingar a torcida do time adversário de veado é algo comum a todas as comunidades de torcida de futebol. Os times gaúchos do Grêmio e Internacional criaram comunidades similares: Colorado eh tudo viado, com mais de 14.000 pessoas, e Odeio bichonas castelhanas. Uma da torcida do Atlético contra a do Cruzeiro, de Belo Horizonte, tem mais de 6.000 integrantes.

Lista de comunidades onde há defesa da violência contra homossexuais:

Eu odeio viados - - 1.037 membros – (Nº 908486)

Bixa filha da puta - 991 membros – (Nº 617347)

Eu odeio travesti - 914 membros – (Nº 805371)

Eu zôo travecos - 847 membros – (Nº 741208)

Eu odeio bichas viados e gays - 767 membros – (Nº 11299304)

Adoro zoar putas - 491 membros – (Nº 681366)

Ovada nos traveco - 489 membros – (Nº 557426)

Eu ainda mato um viado - 250 membros – (Nº 1028719)

Outras comunidades homofóbicas:

Eu odeio o Jean do BB5 – 5.769 membros - (Nº 1141237)

É coisa de viado - 947 membros – (Nº 355027)

No viado no meu Orkut - 504 membros - (Nº 516880)

Eu tenho um colega viado - 469 membros – (Nº 2810040)

Eu odeio Leão Lobo - 417 membros – (Nº 263924)

Sou contra o homossexualismo - 360 membros – (Nº 1190298)

Eu odeio lésbicas - 273 membros – (Nº 740850)

Conheço um gordo bicha – 213 membros – (Nº 2237168)

Homofobia sim e sempre - 158 membros – (Nº 1358203)

Odeio bixas - 139 membros – (Nº 1341909)

Homossexualismo=Cancer mundial - 66 membros – (Nº 2430409)

Anti-homossexualismo - 60 membros – (Nº 2289662)

O outro lado da força: comunidades “do bem” reúnem 1 milhão

No dia 10 de agosto, a série “Orkut sem Lei” começou a mostrar a dimensão da barbárie no Orkut – e portanto em uma boa fatia da sociedade brasileira. Comunidades que defendem a violência, crimes e ilegalidades somavam naquela data pelo menos 650.000 membros. Algumas delas mudaram de nome ou foram apagadas após a publicação das reportagens. Outras ganharam ainda mais adeptos – a exemplo da Rachas e Pegas, que cresceu de 59.000 para 66.000 em 20 dias.

Mas há um outro lado. O Orkut tem hoje também em escala suas comunidades “do bem”. Somente em 100 delas o número de integrantes passa de 1 milhão. A maior, Eu sou contra o preconceito, reúne 240.000 pessoas – há exatamente três meses, eram 80.000.

Outras comunidades desse tipo registraram um grande crescimento. O fórum Anti-nazismo saltou de 8.000 para 18.000 nesses três meses; o Homofobia – já era... dobrou de 7.000 para 14.000, de 29 de maio a 29 de agosto.

Há comunidades, como a WebJustice e a Diga não à Pedofilia, que existem para combater as ilegalidades. Em outras, o objetivo é reunir pessoas em torno de objetivos comuns – dentro de um espírito de exercício da cidadania. Uma delas é a Direitos Humanos, criada por um professor de Direito Penal, o mineiro Túlio Vianna. A comunidade tinha 1.400 membros no início de janeiro, hoje tem 6.400.

Um dos fóruns, o Mutirão Virtual, foi criado seguindo a lógica do próprio Orkut. Os internautas votam todo mês numa associação – que tenha por sua vez uma comunidade – e a partir dali, e por um mês, ela recebe R$ 10,00 de cada integrante do fórum.

Em temas como homofobia, racismo e nazismo o número de pessoas contrárias supera o de quem propaga a discriminação. No caso do trânsito, porém, há menos de 10 mil pessoas reunidas em comunidades pela vida nas ruas e estradas, contra mais de 100.000 defensores de rachas.

A Agência Repórter Social, que mantém no Orkut as comunidades Repórter Social, Agenda da Cidadania, Outro Brasil é Possível e Outro Jornalismo é Possível, preparou uma lista com 100 comunidades “do bem”. Por falta de espaço, outras dezenas, com mais de 100.000 pessoas, ficaram de fora.

Ao contrário das listas de centenas de comunidades que propagam ilegalidades e preconceitos, publicamos aqui o link exato de cada uma, para facilitar o acesso. Confira:

Comunidades pela paz e direitos humanos:

Eu quero paz – 52.319 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=55673

Paz! – 9.409 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=99142

Direitos humanos – 6.451 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=88331

TheWebjustice, QG da Liberdade – 3.908 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=730618

Violência não – 1.905 membros – http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=870947

Grupo Tortura Nunca Mais – 399 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=913125

Ditadura nunca mais – 267 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=465142

Ativistas pela não-violência – 94 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1133720

Comunidades anti-pedofilia:

Diga não à pedofilia - 9.701 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=127639

Pedofilia é crime! Denuncie! - 542 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=723362

Cruzada contra a pedofilia - 395 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1822068

Pedofilia holocausto invisível - 378 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=780250

Combate à pedofilia - 377 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=600205

Comunidades sobre crianças:

Crianças desaparecidas - 5.702 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1157446

Direito da criança - 730 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=276373

Crianças de rua - 499 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=236377

Crianças especiais - 182 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1025502

Febem – 64 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1485562

Comunidades anti-racismo e nazismo:

Anti-nazismo – 18.534 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=82999

Orgulho Negro – 12.928 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=112813

Consciência Negra – 4.200 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=89679

Odeio racismo e preconceito - 3.299 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2652763

União das Raças - 1.066 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3492237

Comunidades anti-preconceito:

Eu sou contra o preconceito! - 240.799 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=95464

Abaixo o preconceito - 15.475 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2164611

Todos diferentes, todos iguais - 946 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3747028

Diga não ao preconceito - 470 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=637164

Preconceito lingüístico – 61 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1220336

Comunidades anti-homofobia:

Homofobia já era – 14.422 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=65754

Homofobia e Racismo Nunca! – 9.154 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=106143

Feminismo e Feministas – 5.580 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=412404

Homofobia Zero – 4.792 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=91209

Inclusão Social GLBTTH – 990 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=850466

Comunidades sobre trânsito:

Beber e dirigir (não combinam) - 4.554 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=794734

Vida urgente - 4.018 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=53403

Não quero morrer no trânsito - 543 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=642048

Não à selvageria no trânsito - 301 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=249123

Sou contra rachas e pegas - 133 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1558382

Comunidades sobre educação:

Profissão professor (a) – 17.267 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1485562

Educação – 7.404 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=46787

Movimento Estudantil – 7.159 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=59602

Educ-ação ambiental – 6.849 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=59650

Educação infantil – 3.825 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=76126

Educação especial – 3.553 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=66758

Brasil pela Educação – 3.241 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=74058

Comunidades sobre meio ambiente:

Greenpeace – Brasil – 35.138 membros – http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=71272

Meio Ambiente – 35.081 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=50433

SOS Mata Atlântica – 23.898 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=71227

Desenvolvimento sustentável – 16.625 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=165428

Ecologia – 16.210 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=29803

Reduza, Reutilize e Recicle! – 10.848 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=95869

Economize Água – 8.534 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=160297

Ambientalistas – 5.780 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=39597

Comunidades anti-desigualdade:

Eu quero justiça social – 14.512 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=326428

Igualdade Social – 2.832 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=535893

Ajude a acabar com a miséria – 256 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=435623

8 jeitos de mudar o mundo – 790 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=219275

De senzala em favela – 377 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1400129

Moradores de rua – caridade – 214 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=681656

Direito humano à alimentação – 62 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1367176

Comunidades sobre saúde:

SUS – Sistema Único de Saúde – 56.938 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=63141

Humanização da Saúde – 15.570 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=205533

Eu sou doador de órgãos – 11.330 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=217878

Câncer de mama no alvo da moda – 9.962 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=216703

Doadores de Sangue – 8.015 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=85834

Saude Mental / Saúde Mental – 3.305 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=171301

Doe Medula Óssea – 2.617 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=118779

Prevenção ao câncer de pele – 2.069 membros -http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=236266

Epidemiologia e saúde pública - 1.667 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=264712

AIDS/HIV – BR – 1.000 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=95537

Câncer: vença-o! – 851 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=242131

Unidos contra a Leucemia – 768 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=653259

Humanização da UTI neonatal – 582 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1994512

Humanização hospitalar – 337 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2087698

Comunidades anti-xenofobia:

Argentinos Brasileiros Unidos – 6.073 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=61595

América Latina Unida – 3.000 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=112262

Diga não à xenofobia – 186 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=434499

Comunidades sobre o Brasil:

Por um Brasil melhor – 7.925 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42044

Brasil 2022 – 1.734 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=161946

Brasil que dá Certo – 1.524 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=31691

Melhorando o Brasil – 1..076 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=114019

Comunidades sobre política:

Repúdio à Ignorância Política – 6.250 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2078498

Chega de corrupção – 3.235 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=436052

Eu assisto TV Senado – 1.022 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=869260

Conscientização política – 1.019 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=93589

Congresso Nacional – 522 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=150269

Comunidades sobre cidadania:

O que está Havendo com o Mundo – 93.878 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=123282

Eu quero mudar o mundo – 47.437 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=250653

Por um Mundo Melhor! – 13.028 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=973078

Direitos do consumidor – 10.411 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=54640

Respeito - 7.186 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1578297

Voluntariado – 7.152 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=74731

Responsabilidade Social – 6.401 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=115727

Solidariedade – 3.722 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=632052

A corrente do bem – 3.732 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=67070

Forum Social Mundial – POA – 3.080 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=99689

ONG’s – Voluntariado – Terceiro Setor – 2.925 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=288222

Terceiro Setor – 2.613 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=73905

Cidadania – 1.815 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=29725

Mutirão Virtual – 645 membros - http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=836298

Alceu Luís Castilho, Jéssika Torrezan e Lígia Ligabue