Proteção começa em casa

27/06/2006
Fonte: 
http://buscacb2.correioweb.com.br/correio/2006/06/27/I1-2706.pdf
Autor: 
Laís Garcia e Marcelo Portela
Veículo de Imprensa: 
Correio Braziliense

Nas férias, crianças e adolescentes costumam freqüentar mais a internet. Hora dos pais e responsáveis redobrarem a atenção pois nem sempre ficar em casa é tão seguro assim

Depois de algum tempo de correspondência apaixonada pela internet, um menino de 12 anos recebeu pelo correio uma passagem de avião de sua namorada virtual, da mesma idade, para ir até Curitiba conhecê-la. Quem analisa a situação acha até estranho, e é mesmo. A mãe do garoto concordou e relatou o problema à ONG Safernet, que recebe denúncias de pedofilia e crimes contra a vida cometidos através da web. A Polícia Federal investiga o caso e é muito provável que a suposta namorada virtual seja, na verdade, um homem adulto que tentava aliciar o garoto brasiliense. Situações como essa são mais comuns do que se imagina: das quase 30 mil denúncias recebidas pela Safernet, 46,3% relatam casos de pornografia infantil.

Em Belo Horizonte, a estudante Dayene Mendes Rodrigues, de 17 anos, começou a conversar, por pena, com um homem que se dizia carente e terminou vítima de assédio e ameaças depois de, inadvertidamente, fornecer o telefone celular ao desconhecido. O caso foi parar na polícia e a jovem ficou livre somente depois de muito sofrimento da família.

Para tentar controlar o que as crianças e adolescentes fazem na rede e protegê-los dos perigos virtuais, os pais mais atentos recorrem a tudo: tiram o computador do quarto dos filhos, usam softwares que monitoram e bloqueiam o acesso a certos tipos de sites ou verificam no histórico do browser (programa usado para navegar na web, como Internet Explorer e o Mozilla), quais foram os endereços visitados. Mas é unânime entre psicólogos e especialistas em crimes cibernéticos que melhor do que proibir é conversar.

"Não basta bloquear o acesso a alguns sites. Provavelmente as crianças vão arranjar um jeito de burlar o esquema", acredita a psicóloga Kelly de Souza Castro, especialista em crianças e adolescentes. A solução é se aproximar dos filhos e saber deles que sites acessam. O próximo passo é tentar definir em conjunto horários para se conectar e os endereços adequados para serem visitados. "Essa negociação não pode parecer um interrogatório, mas deve ser conduzida com naturalidade", completa Kelly. Para Thiago Tavares, presidente da Safernet, é preciso inserir a internet nas conversas do cotidiano. "Os pais devem conhecer a rede e falar do assunto sempre que possível", aconselha.

É o que faz o empresário mineiro, de Lavras, no Sul de Minas, Elton Ferreira e sua mulher, Cristina, com as filhas Anna Luiza e Anna Clara Lopes Ferreira, de 13 e 11 anos, pois não podem acompanhar passo a passo as atividades das duas no computador. Além das conversas, eles matricularam as meninas em vários cursos, para que a vida delas, como de muitas crianças sem opções de divertimento, não se resuma à internet.

O papo aberto e o acompanhamento atento também foram a opção para que os irmãos Helena, de 9 anos, e Rodrigo, de 10, de Brasília, entrem na internet sem traumas – nem para eles nem para seus pais. A mãe, a consultora de marketing Virgínia Couto Pessoa, diz que o segredo é ter uma relação próxima com os filhos e decidir com eles o que se deve e o que não se deve ver na rede. "Explicamos que a internet é como a rua. Não vamos deixar de sair de casa, mas temos que ter cuidado, pois podemos encontrar ladrões e perigos", explica.

Além de tentar proteger os filhos de pessoas mal-intencionadas que usam a rede para se aproximar de crianças, os pais também devem dosar o nível de "apego" dos filhos à internet. "Como elas sentem prazer em navegar, é preciso que alguém imponha limites no tempo em que elas ficam conectadas", aconselha Kelly. Na opinião da psicóloga, o ideal é que a criança só passe ao computador depois que terminar os deveres de casa. Os pais também se certificar de que os filhos não estão substituindo as relações reais pelas virtuais. "Jogar bola, conversar e estar com os amigos ainda é mais importante que interagir com as pessoas pela rede", lembra Kelly.

Boa conversa afasta o medo

Um bate-papo inocente pode abrir uma porta para problemas, mas existem formas de se proteger

Quando um internauta começa a conversar com alguém em uma sala de bate-papo, dificilmente imagina que o relacionamento pode levá-lo a uma delegacia de polícia. Esse, porém, provavelmente será seu destino, caso não adote alguns cuidados básicos, pois o que começa como uma conversa inocente pode transformar-se rapidamente em assédio ou ameaças. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a representante comercial Maria Célia Silva Mendes e sua filha, a estudante Dayene Mendes Rodrigues, de 17 anos.

Até cerca de três meses atrás, a estudante passava até 12 horas por dia na frente da tela, principalmente conversando em salas de bate-papo. Foi em uma delas que ela começou a conversar, “por dó”, com um homem que parecia querer apenas alguém para ouvi-lo. Descuidada, porém, em uma das conversas, a jovem forneceu o número de seu telefone celular ao estranho.

Era o que faltava para o caso começar a complicar. Em vés de conversas pela internet, o estranho, que pela voz devia ter aproximadamente 50 anos, começou a ligar querendo marcar um encontro com a jovem. “Um dia, minha filha esqueceu o celular em casa. Ele ligou e a empregada passou o número do telefone fixo. Esse homem passou a ligar até de madrugada e começou a fazer ameaças, caso a Dayane não se encontrasse com ele”, conta Célia.

O assédio só terminou quando elas procuraram a polícia, que apurou que o suspeito era casado e ameaçou intimá-lo, se continuasse a importunar a adolescente. Hoje, Célia acompanha mais de perto o acesso da filha, que fica no máximo algumas poucas horas na internet e não freqüenta mais as salas de bate-papo. “Nem se ela quisesse entrar eu deixaria”, garante a mãe.

Papo aberto – Para evitar que as filhas Anna Luiza e Anna Clara, de 13 e 11 anos, respectivamente, passassem muito tempo diante da tela, o empresário Elton de Souza Ferreira, de 45 anos, de Lavras, no Sul de Minas, matriculou-as em cursos de vôlei, inglês e dança, além de instalar o computador em um escritório do lado de fora da casa. Mas esse recurso também dificultou o controle do que as meninas acessavam.

A forma que o empresário e sua mulher encontraram para evitar que elas tenham algum tipo de problema foi justamente a conversa diária para explicar todos os riscos caso elas não adotem alguns cuidados durante a navegação. “Não temos como ficar o tempo todo no escritório ao lados delas”, observa. “Por isso, eu e minha mulher sempre conversamos abertamente com elas sobre os riscos mostramos casos de quadrilhas que são presas usando a internet para crimes e falamos para nunca fornecer nenhum dado pessoal ou mandar fotos”, conclui.

Os pais que acham que os filhos estão a salvo de pessoas mal-intencionadas só porque estão em casa podem estar redondamente enganados. O mundo de possibilidades que se abriu com a internet também criou novas modalidades de crimes. Por isso, e é importante que as crianças e adolescentes sejam orientados sobre como se proteger, ao navegar na rede. As ameaças podem estar nas salas de bate-papo dos grandes provedores, no Orkut, nos comunicadores instantâneos... Pedófilos e crakers prontos para roubar senhas e invadir computadores se aproveitam da ingenuidade infantil para cometer crimes virtuais. A solução é manter o diálogo aberto com os filhos e dar-lhes informações úteis para se proteger.

Orkut lidera lista dos mais perigosos

No topo da lista dos endereços mais perigosos da rede estão os chats e, não tenham dúvidas, o Orkut. Cerca de 90% das denúncias de crimes contra a vida recebidos pela Safernet são praticados no site de relacionamentos do Google. Protegidas pelo anonimato estão comunidades de pornografia infantil e perfis de pedófilos que usam o site para se aproximar das vítimas em potencial. "Eles entram nas comunidades de colégios e escolas para conhecer melhor as crianças", conta Thiago Tavares, professor de direito da Informática da PUC da Bahia e presidente da Safernet, ong que recebe denúncias de crimes cibernéticos. Na opinião do advogado, o Orkut é um site adulto e pode ser perigoso para quem tem menos de 18 anos. "Mesmo com a proibição formal de aceitar crianças, não é possível impedir que crianças criem perfis no site", reclama.

Em chats ou no Orkut, o perfil do pedófilo é bastante difuso. "Podem ser jovens de 16 anos que sofreram abusos quando crianças ou adultos mais velhos ou profissionais gabaritados", conta Thiago. Eles criam oportunidades para se aproximar das crianças e ganhar a confiança delas. "Se você entrar agora numa sala de bate-papo dos grandes provedores, encontrará crianças sendo aliciadas", alerta Thiago. O próximo passo na estratégia dos pedófilos é pedir os contatos dos mensageiros eletrônicos para tentar uma aproximação física. "Tentarão descobrir onde a criança estuda ou mora", acrescenta Thiago.

Para mostrar que a internet pode ser uma grande aliada das crianças se usada com segurança, a Safernet criou uma cartilha com orientações para os pais e para os próprios jovens. Há dicas sobre como usar chats, programas de mensagens eletrônicas, e-mails e jogos sem pôr a segurança em risco. "A internet não é uma coisa ruim, mas deve ser usada com orientação e sabedoria", finaliza Thiago. A cartilha é gratuita e pode ser baixada no site da SaferNet.

De olho neles

Converse com seus filhos sobre o que fazem na web. Mas, antes de abordar o assunto, um bom conselho é usar a própria rede para se aproximar das crianças. Mandar e-mails com mensagens interessantes pode ser o começo de uma relação virtual com os filhos. "Mas o contato pessoal e a convivência real nunca devem ser prioridade para os pais", adverte Kelly de Souza Castro, psicóloga especialista em crianças e adolescentes.

Fique atento a mudanças no comportamento das crianças. "Quando estão sob pressão, o comportamento delas muda", alerta Thiago. Eles podem parar de comer, comer demais ou demonstrar nervosismo.

Tenha certeza de que seus filhos sabem que não devem, em hipótese alguma, divulgar seu endereço, número de telefone, escola onde estudam ou qualquer outra informação pessoal.

Em vez de deixar o computador no quarto das crianças, prefira um espaço coletivo da casa, em que haja circulação. Assim ficará mais fácil observar o que elas andam fazendo na rede.

Só permita que os filhos tenham pessoas conhecidas nas listas de contato dos comunicadores instantâneos. Por meio de programas como o MSN Messenger é possível enviar vírus e roubar senhas. Além disso, Thiago alerta que as webcams usadas nos comunicadores instantâneos podem ajudar pessoas mal-intencionadas a captar imagens dos interlocutores para chantageá-los mais tarde.

Controle a atividade on-line de seus filhos com software de internet avançado. A proteção infantil pode filtrar conteúdo prejudicial, supervisionar os sites que seu filho visita e averiguar o que ele faz neles.

Softwares podem ajudar

Para ajudar a controlar o que as crianças e adolescentes fazem na internet, existem filtros de conteúdo – programas capazes de bloquear sites escolhidos pelos pais ou identificar sites com palavras-chave e impedir que são sejam vistos pelos filhos. Confira algumas opções:

Parental Filter – http://www.ecommsec.com/product_info.php?products_id=28

Ainda que esteja em beta, o Parental Filter 0.2 oferece funções para que pais bloqueiem conteúdos ou páginas impróprias, principalmente que envolvam pornografia. Depois de configurar o leve programa, o pai o esconde apertando a tecla F9. É de graça.

Kidsplorer- http://www.devicode.com/kidsplorer/

Browser adaptável. Vem com uma lista de sites que podem ser acessados e umarelação de palavras que, se presentes, terão as páginas que as contém bloqueadas. Tanto a lista de sites quanto a de palavras pode ser modificada pelos pais. Pode ser comprado por cartão de crédito e custa U$ 20. Também é possível fazer o download de uma versão de teste por 21 dias.

Kid's playground – http://www.candles-weblog.us/kidsplayground

Tem uma versão sem texto, só com ícones, para crianças que ainda não sabem ler. O segundo link, no alto da página, vai direto para o download. Também é de graça.