Fonte:
http://jbonline.terra.com.br/editorias/rio/papel/2007/05/16/rio20070516005.html
A Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) vai investigar os casos citados ontem pelo Jornal do Brasil referentes à exibição, através do site de relacionamentos Orkut, do arsenal em poder do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Fuzis, metralhadoras, pistolas e granadas são exibidos em dezenas de páginas e comunidades do site sem qualquer controle.
A delegada Sânia Burlandi, titular da DRCI, entretanto, admite que as investigações de casos de apologia ao crime por usuários do Orkut são prejudicadas pela falta de repasse de dados sobre os responsáveis pelas páginas pessoais e pelas comunidades do site de relacionamentos.
- O Google, que administra o Orkut, só fornece os dados mediante ordem judicial. Ou seja, para conseguir as informações eu tenho que abrir um inquérito, encaminhar ao Ministério Público e aí fazer a solicitação à Justiça - explica a delegada da unidade, que possui até uma comunidade no Orkut justamente para receber denúncias de internautas. - Acontece que as provas desse tipo de crime são muito voláteis. Um dia a imagem está lá, outro dia não.
Mesmo com as dificuldades, a delegada cita a prisão de um menor de idade que participou do assalto à ex-Miss Brasil Leila Schuster, em janeiro deste ano. Na ocasião, dois homens em uma moto tentaram roubar sua bolsa no estacionamento de um evento do Fashion Rio, em Botafogo. Agredida a navalhadas, Leila quase perdeu a mão.
Sânia Burlandi explica que o jovem mantinha em sua página no Orkut fotos de granadas e de diversas armas de uso restrito. A DRCI recebeu uma denúncia contra a página, com a informação de que era acusado, em inquérito na 10ª DP (Botafogo), de ter participado do assalto à ex-Miss Brasil. Diante disso, a polícia conseguiu na Justiça um mandado de busca e apreensão na casa do jovem. Ele foi apreendido, juntamente com o arsenal exibido no Orkut.
O Ministério Público estadual diz que um convênio assinado há dois meses entre a instituição e o Google facilitou, além do processo de retirada do ar das páginas consideradas impróprias, o acesso às informações pessoais dos responsáveis pelas páginas de apologia a diversas ilegalidades. A delegada da DRCI, no entanto, nega a informação e diz que o convênio só prevê a retirada das páginas do ar - o que, segundo ela, não ajuda no processo de investigação criminal.
O Google, site que administra o Orkut, informa que os termos de uso são bastante claros e descrevem o que não pode constar em uma comunidade ou em páginas pessoais, como, entre outros, a incitação ao crime, nudez ou pornografia infantil.
Segundo a empresa, apesar de manter uma linha direta com a polícia, realmente não libera o acesso aos dados cadastrais dos usuários do Orkut. Quando for o caso, a comunidade ou o perfil é retirado do ar, os dados dos responsáveis são preservados e entregues à Justiça, caso haja determinação.
Atores se surpreendem com imagem no site
A imagem de 12 jovens atores portando armas foi parar em duas páginas pessoais do Orkut e é exibida ao lado de outras que fazem apologia ao poderio bélico do narcotráfico do Rio de Janeiro. Segundo o ator do grupo de teatro Nós do Morro, Luciano Vidigal, a foto foi tirada durante as filmagens de Cidade dos homens , em julho do ano passado. O lançamento do filme está marcado para agosto próximo.
Luciano conta que a foto registra um momento em que traficantes vão invadir uma comunidade.
- Depois de filmar, fizemos uma pausa e a foto foi tirada - revela Luciano.
Os integrantes do grupo de teatro dizem que não sabiam que a imagem foi exibida em páginas do Orkut nem que havia parado lá. Os atores tomaram conhecimento do que havia ocorrido por intermédio da reportagem publicada ontem no Jornal do Brasil sobre usuários do site de relacionamento que mostram em páginas pessoais armas pesadas, que estariam em poder dos traficantes do Rio de Janeiro.
- Somos trabalhadores - desabafa Luciano Vidigal.
Cico Caseira, professor do Teatro Tablado, na Lagoa, e diretor do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Rio de Janeiro (Sated) ensaia com os 12 jovens há três anos, aos sábados e domingos, pela manhã, no Café Cultural, no Humaitá. O diretor revela que já encenaram várias peças, inclusive participaram de uma maratona com o diretor Naum Alves de Souza. Cico conhece o grupo e está preocupado com a proporção que a exibição da imagem alcançou na mídia.
- Isso serve de alerta para que os garotos tenham cuidado com esse material - adverte o professor.
De acordo com Cico, os jovens estão com medo e chateados por terem sido confundidos com traficantes.
Versões sobre a foto
De manhã, a assessora de imprensa do grupo teatral Nós do Morro procurou o Jornal do Brasil e disse que os 12 jovens integravam o grupo e a foto em que eles apareciam armados era de divulgação do filme Cidade dos homens. A assessora não esclareceu como nem em que circunstâncias a imagem foi parar no site de relacionamentos Orkut, em páginas ligadas ao Comando Vermelho. Não foram fornecidos os telefones dos atores que estavam estampados na foto.
Horas mais tarde, a assessora informou que, em vez dos atores, os donos da produtora do filme Cidade dos homens, a O2, entrariam em contato com o jornal. O motivo da ligação da O2 era para pedir esclarecimentos sobre a foto. No entanto, a exemplo da assessora, os produtores não sabiam dizer quem tirou a foto. Além disso, eles negaram que o material fizesse parte da divulgação do filme e informaram também que nem todos eram atores e que alguns - não precisaram o número - faziam figuração.
Depois de muita insistência, a assessora forneceu o telefone do ator Luciano Vidigal, que aparece em primeiro plano na foto. A assessora disse que Luciano fazia parte do Nós do Morro e que os outros jovens eram de outras ONGs.
Luciano explicou que todos os jovens fazem teatro. O ator lembra que a foto foi tirada em julho do ano passado, durante as filmagens, mas também não sabe como a imagem foi parar no Orkut.