Rio - Pela primeira vez, a dona de casa Maria (nome fictício), de 27 anos, quebrou o silêncio de uma vida inteira. “Não penso, faço tudo por impulso. Se tentar raciocinar sobre qualquer coisa, minha cabeça se enche de flashes da violência que sofri. Ele dava balas e moedas à minha irmã de 2 anos e dizia que, se eu quisesse ganhar também, teria que deixá-lo me tocar.

Perdi o gosto pelas coisas da vida desde que destruíram a minha inocência”, relata a moça, vítima de abuso sexual aos 4 anos de idade pelo marido da babá. Diferente dela, que não teve oportunidade para denunciar o agressor, depoimentos de jovens vítimas de pedófilos estão ajudando a polícia a levar cerca de 80% dos casos à Justiça.
A estimativa é do delegado Luiz Henrique Marques, baseada na técnica de investigação pioneira, adotada pela Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav). Cada criança passa por entrevistas com os três psicólogos do Núcleo de Atendimento à Vítima da delegacia, que usam métodos lúdicos, como conversas, desenhos e até brincadeiras com bonecos de pano, para que os pequenos se expressem.
Vitória
“A Justiça tem aceitado bem esse trabalho. Antes, era a palavra do denunciante, geralmente os pais, contra a do acusado. O exame de corpo de delito nem sempre prova o abuso porque, na maioria das vezes, o pedófilo não chega a violentar a vítima”, pondera o delegado. A técnica ajudou na conclusão de seis inquéritos até maio. Em 2009, 80 casos viraram processos.
Para Maria, a maior dor é não ter conseguido fazer justiça. O silêncio da família permitiu que o pedófilo fugisse e nunca pagasse pelo crime. Aos 6, sofreu nova violência. Desta vez, o agressor era seu próprio irmão, na época com 18 anos.
“Minha mãe não acreditou quando contei. Meu padrasto ficou revoltado quando soube, mandou que ela escolhesse entre ele ou o filho. Ela preferiu proteger o filho. Guardo essa mágoa até hoje”, revelou a dona de casa.
Conversar é o melhor remédio
Fazer uso de conceitos da psicologia nos depoimento agilizou os inquéritos. Segundo Emerson Brant, psicólogo da Dcav, as investigações chegavam a durar cinco anos. Hoje, os casos são concluídos entre seis meses a um ano.
“É difícil para os pais ouvirem que o filho sofreu abuso. Mas falar é o melhor caminho porque o pedófilo não tem perfil definido. Ele conquista a confiança da criança para abusar. Ela precisa saber que pode confiar também na família”, ensina.
Foi em uma conversa que Fernando (nome fictício) descobriu que a filha de 12 anos foi abusada por um pastor, seu amigo de infância. “Ele era acima de qualquer suspeita, fiquei em dúvida, mas acreditei na minha filha”, revela.
Denúncias para evitar a violência
A divulgação de casos é ótima arma de combate à pedofilia. “As pessoas ficam motivadas a denunciar. Quanto mais informação, mais a população sabe que os direitos das crianças devem ser preservados”, afirma Joacy Pinheiro, coordenador do programa Disque 100.
O projeto nacional recebeu 11.354 denúncias de violência infanto-juvenil no Rio nos últimos 7 anos. Na Dcav, foram 209 inquéritos de abuso sexual em 2009.
O número de denúncias na Internet também cresceu. A ONG Safernet aponta 14.001 crimes confirmados no Orkut, entre 2008 e este ano. Entre as principais vítimas, jovens de classe média.