Fonte:
http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=230353&idselect=9&idCanal=9&p=200
Autor:
Ricardo Ramos, com agências
Pedófilos de 77 países pagavam 68 euros para ver e descarregar fotos e vídeos de crianças a serem violadas. A maioria das vítimas é do Leste da Europa, mas os predadores sexuais estavam espalhados por pelo menos três continentes.
O ministro austríaco do Interior anunciou ontem o desmantelamento de uma rede internacional de distribuição de material pedófilo através da internet, com clientes em pelo menos 77 países. Mais de dois mil pedófilos foram identificados e a maioria poderá vir a enfrentar acusações criminais, naquela que foi uma das maiores operações do género na Europa. Os vídeos disponibilizados pela rede mostravam crianças entre os cinco e os 14 anos a serem submetidas aos “piores abusos sexuais imagináveis”.
O material pedófilo estava alojado num site russo, ao qual os clientes acediam mediante um pagamento trimestral de 68 euros. As autoridades austríacas acreditam que a maior parte dos pedófilos que acederam ao site não só viram o material como também o descarregaram para os seus computadores e o redistribuíram a outros pedófilos.
A investigação foi coordenada pelas autoridades austríacas, pois foi naquele país que surgiram, em Julho, as primeiras pistas. No caso, uma denúncia de um servidor de internet austríaco, que informou a polícia de que hackers teriam alojado material suspeito no seu servidor. As autoridades puseram-se em campo, e no período de 24 horas, registaram mais de oito mil visitas ao site, provenientes de 2361 computadores em 77 países.
Todos estes suspeitos foram identificados e no, caso da Áustria, 14 dos 23 pedófilos que acederam ao site já foram interrogados e confessaram ter descarregado material pornográfico com crianças.
“Podíamos ouvir os gritos”
O perito da polícia austríaca que coordenou as investigações, Harald Gremel, informou que os milhares de fotos e vídeos apreendidos mostram crianças entre os cinco e os 14 anos a serem submetidas “aos piores abusos sexuais imagináveis”. “Vimos imagens de meninas pequenas a serem violadas, e podíamos ouvir os seus gritos”, afirmou o responsável, adiantando que os vídeos aparentam ter sido realizados na Europa de Leste e colocados no site russo a partir de um servidor no Reino Unido.
O ministro austríaco do Interior, Guenther Platter, afirmou que esta foi a maior operação do género contra a pedofilia na internet realizada no seu país, e uma das maiores de sempre a nível mundial. A investigação contou com a colaboração da Interpol e da Europol, bem como a ajuda preciosa das polícias dos 77 países envolvidos.
Segundo as autoridades austríacas, 607 dos suspeitos identificados residem nos Estados Unidos, 466 na Alemanha e 114 em França. A rede tinha ainda clientes em Espanha, Argélia, África do Sul, Brasil, Islândia e Venezuela, entre dezenas de outros países. Fonte da Polícia Judiciária disse ao CM que não há qualquer informação sobre o envolvimento de portugueses.
No âmbito da investigação, a polícia austríaca apreendeu 31 computadores pessoais, sete portáteis, 23 discos rígidos e outros dispositivos de armazenamento de dados, 1233 DVD, 1428 disquetes e 213 cassetes de vídeo com um total de sete terabytes de material pedófilo.
O mais novo dos suspeitos de descarregar material pedófilo tem 17 anos e o mais velho 69. O grupo inclui estudantes, professores, funcionários públicos e reformados.
CRIME EM CRESCIMENTO
Segundo dados da Interpol, a difusão e venda de pornografia infantil representa cerca de metade dos crimes cometidos através da internet, mais ainda que a pirataria digital, as fraudes financeiras ou o roubo de identidade. O relativo anonimato do consumidor de pornografia infantil e a crescente sofisticação dos fornecedores deste tipo de material são algumas das causas apontadas para um crescimento que a Interpol estima em cerca de dez por cento ao ano.
CRONOLOGIA
17/03/05 - Uma megaoperação à escala mundial contra a distribuição de pornografia infantil, liderada pela Itália, leva à detenção de centenas de suspeitos em 88 países.
26/05/05 - A polícia espanhola desmantela uma rede que violentava bebés e distribuía as imagens através da internet. Cinco pessoas foram detidas e acusadas pelos abusos, descritos pela polícia como “horríveis”.
23/02/06 - A polícia espanhola lança a megaoperação ‘Azahar’, que leva à detenção de mais de 130 pessoas em 40 países, incluindo um português. Um jovem brasileiro de 17 anos suicidou-se quando soube que estava a ser investigado.
Maio 2006 - Numa acção conjunta, as polícias de 12 países europeus e dos EUA efectuam buscas em casa de centenas de suspeitos e fazem dezenas de detenções por crimes relacionados com a posse e tráfico de pornografia infantil.
NÚMEROS
- 2361 suspeitos foram identificados num período de 24 horas antes de as autoridades encerrarem o site.
- 77 é o número de países onde foram identificados suspeitos, o que faz desta uma das mais abrangentes investigações
- 17 anos é a idade do mais jovem suspeito identificado. O mais velho tem 69 anos.
- 7 terabytes de imagens e vídeos de pornografia infantil foram apreendidos pela polícia austríaca.
- 31 computadores pessoais e sete portáteis foram apreendidos, bem como 23 discos rígidos e outros dispositivos.
- 607 é o número de clientes da rede identificados só nos EUA. Em segundo lugar surge a Alemanha, com 466 suspeitos.
- 5 anos é a idade da mais jovem das vítimas dos pedófilos. A mais velha tem 14 anos. A polícia não disse quantas crianças estão envolvidas.
- 2 anos é a pena máxima de cadeia na Áustria para posse de pornografia infantil. A produção e distribuição pode dar até dez anos.
- 7 meses foi a duração da investigação, que contou com a colaboração da Interpol e da Europol.
'OPERAÇÃO BARRO' DETEVE 47 PESSOAS EM PORTUGAL
Em Portugal, ao abrigo do artigo 172.º do Código Penal, a posse de material pornográfico com crianças até aos 14 anos é punível com penas de prisão até aos três anos. A pena é agravada até aos cinco anos se existir intenção lucrativa na cedência ou exibição daquele material.
As investigações deste tipo de casos estão a cargo da Secção de Investigação da Criminalidade Informática e de Telecomunicações (SICIT) da Polícia Judicária, uma divisão da Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira (DCICCEF).
Foi esta secção que levou a cabo a ‘Operação Barro’, em Julho de 2005, considerada uma das maiores operações de combate ao tráfico de pornografia infantil desencadeada em Portugal. A investigação levou à detenção de 47 pessoas em Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Madeira e Açores, e envolveu quase 200 elementos da PJ, tendo na altura sido apreendidos 58 computadores com vídeos e imagens de teor pedófilo. Na altura, a PJ considerou preocupante o facto de grande parte dos suspeitos identificados serem menores de idade.
A SICIT colabora ainda com as investigações de outras polícias europeias e internacionais na investigação das ramificações das redes pedófilas em Portugal, como no caso da megaoperação ‘Azahar’, desencadeada há cerca de um ano em Espanha, e que levou à detenção de mais de 130 pessoas em 40 países, incluindo um cidadão português acusado de descarregar material pornográfico infantil para o seu computador a partir de um site pedófilo espanhol.