Rio - O professor e perito judicial José Lopes sentiu que a filha Laura, de 11 anos, que mora com a mãe, começava a se distanciar dele. Não queria visitá-lo nos finais de semana, levava o computador para onde quer que fosse e passava longos períodos diante da tela. José, que é especialista em segurança da informação, decidiu instalar um keylogger no laptop da filha para saber o que tanto atraía a atenção dela. Descobriu então que o motivo de tantas horas na Internet era um namorado, colega de escola. “Mas assim como era algo inocente, poderia ser um aliciador, um desconhecido de má índole. Quem sabe o que vai estar do outro lado?”, diz.

Seja em casa, na escola ou em lan-houses, a infância de hoje tem na Internet uma de suas principais fontes de lazer. Uma pesquisa realizada pela ONG SaferNet Brasil com alunos de escolas do Rio de Janeiro mostrou que 32% dos entrevistados aprenderam a utilizar a Internet com menos de 9 anos e que 47% permanecem conectados, em média, 4 horas por dia. Acessar a Web se tornou um hábito e a falta de orientação sobre o uso seguro da Internet torna crianças e adolescentes um público vulnerável a perigos como o aliciamento online, o bullying e a pedofilia. A preocupação de José é, portanto, natural e muito comum entre pais e professores. Mas até que ponto deve chegar essa vigilância? Espionar é a melhor maneira de proteger a criança dos riscos que a Web pode oferecer?
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Para Rodrigo Nejm, psicólogo e diretor de prevenção da SaferNet Brasil, controlar o uso da Internet sem ferir a privacidade dos filhos é um grande desafio. “A relação de confiança com a criança ainda é a melhor tecnologia a que temos acesso”, acredita. Ele desaconselha a vigilância e defende que o direito à privacidade, garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, deve ser mantido. “Supervisionar, navegar junto e orientar é mais eficaz do que espionar”, diz o psicólogo, que recomenda a instalação do computador em áreas comuns da casa, como a sala de estar, onde a criança não fique sozinha.
Segundo especialistas, o diálogo é a principal ferramenta na construção de uma relação saudável das crianças com a Internet. “É importante explicar os perigos e os benefícios, estabelecer uma parceria com a criança desde cedo”, afirma a psicopedagoga e coordenadora pedagógica Gabriela Abreu.
Prestar atenção ao comportamento da criança também é importante para perceber quando ela passa por problemas. “Detectamos, aqui na escola, casos seríssimos. Alunas de 12 anos bulímicas, anoréxicas, porque seguiam instruções de pessoas mal intencionadas em comunidades online”, conta a psicopedagoga.
Comportamento seguro
A SaferNet Brasil tem uma cartilha com dicas de comportamento seguro:
ESTRANHOS NA REDE
Importa mais a qualidade do que a quantidade de amigos. Cuidado com estranhos, se tem certeza de quem está por trás de um perfil, de um e-mail ou apelido
PRIVACIDADE
Você distribui seu endereço, telefone e fotos na rua? Então por que fazê-la na Internet? Mantenha o mínimo de informações no perfil
PREÇO
Não responda mensagens de desconhecidos nem diga quando e onde estará pessoalmente. Evite publicar fotos que facilitem a sua identificação por outros
ENCONTROS
Jamais aceite convite para encontrar pessoalmente um amigo virtual sem autorização. Mesmo que esteja em companhia dos responsáveis, prefira os locais públicos
DENUNCIE
Se visualizar conteúdos suspeitos, preconceituosos, com cenas de violência contra crianças, denuncie em http://www.denuncie.org.br. Se conhecer uma pessoa que seja vítima de abuso, incentive-a a denunciar