Fonte:
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cidades/pri_cid_47.htm?
Autor:
Helena Mader, André Bezerra e Guilherme Goulart
Estudante da 6ª série viu integrante de gangue pichando banheiro da Escola Classe 405 Sul
“To atrais de vc pra te atrupelar aqui eh noix VIP up vou te arrastar no asfaltoo” (sic)
O recado intimidador apareceu na página do Orkut de um menino de 12 anos, morador da Asa Sul. A vítima é um estudante da 6ª série da Escola Classe 405 Sul, que recebeu ameaças de morte de cinco jovens ligados à gangue Vândalos do Império da Pichação, conhecida como Vip Up. O pai da vítima, um funcionário público que prefere não se identificar, reuniu todas as informações em um CD e entregou à Delegacia da Criança e do Adolescente, que vai investigar o caso. Os integrantes da gangue não estudam na Escola Classe, mas na semana passada entraram no local para pichar o banheiro. O estudante viu tudo e depois disso passou a ser perseguido.
A vítima está com medo de ir à escola e só entra em sala de aula acompanhado pelo pai. O funcionário público está preocupado com os recados que apareceram no perfil do Orkut do menino. “As mensagens começaram só porque meu filho estava no banheiro enquanto os outros pichavam as portas e paredes. Agora, ele recebe ameaças toda hora, os jovens dizem que vão bater, espancar e até matá-lo. É impossível não ficar com medoo”, conta o pai da vítima.
A polícia ainda não sabe se os autores das ameaças são menores de idade, mas nas fotos incluídas no Orkut, os acusados aparentam ter entre 13 e 16 anos de idade. Apenas dois dos rapazes que deixaram recados com as intimidações ao adolescente da Escola Classe 405 Sul parecem ser maiores de idade. A Delegacia da Criança e do Adolescente vai identificar os envolvidos e chamá-los para depor, juntamente com os responsáveis.
Esse não é o primeiro caso de crimes cometidos pelo Orkut. No ano passado, uma gangue de meninas intimidou uma outra estudante da Asa Sul e foi até a porta da escola para agredi-la. Outro brasiliense colocou na internet mensagens racistas em uma comunidade de alunos da Universidade de Brasília. Chamou negros de macacos, mas pagou caro pelo crime: foi investigado pelo Ministério Público do DF e se tornou a primeira pessoa do país a responder processo por crime virtual.
Site da gangue prega violência
O grupo Vândalos do Império da Pichação faz apologia às drogas e recruta outros jovens pela internet. Em um espaço reservado apenas para fotografias, há uma série de imagens de armas e munições
O grupo Vândalos do Império da Pichação, cujos integrantes fizeram ameaças de morte a um garoto de 12 anos, já havia sido identificado pela Polícia Civil durante um levantamento sobre gangues de adolescentes. Os integrantes têm páginas na internet e comunidades no Orkut em que os líderes tentam atrair mais jovens para a atividade criminosa. Em um fotolog (site de fotos) da gangue, há fotos de armas e munições, de paredes pichadas e muita apologia às drogas e à violência.
O delegado-adjunto da Delegacia da Criança e do Adolescente, Wislei Salomão, explica que muitos jovens decidem participar desses grupos para ter auto-afirmação. “Alguns dizem que são de gangue só para fazer bonito, para impressionar. A maior dificuldade de identificar as gangues é que os adolescentes estão sempre migrando de uma para outraa”, explica o delegado. A polícia não pode divulgar detalhes da investigação sobre as gangues de adolescentes para não atrapalhar o andamento do trabalho.
Na comunidade da Vândalos do Império da Pichação, um dos líderes convoca os outros integrantes a lutar contra uma outra gangue rival, que agiria no Gama. “Sou líder da VIP_up du Gama.....i nóix ta com uma treta aki....tipo tava tudo sob controle mas agora uns neguin da GLF taum caindu em cima di nóix. tamu precisandu da ajuda di gerall”, (sic) diz o autor da mensagem.
Um dos integrantes da Vândalos do Império da Pichação foi à Escola Classe 405 Sul na semana passada para buscar o irmão mais novo, que estuda no local. Enquanto esperava, o jovem entrou no banheiro e começou a pichar as paredes na frente de um estudante de 12 anos. O caso foi descoberto pela direção, que chamou o pai do pichador ao colégio. “O pai ficou muito decepcionado e mandou o filho limpar todas as paredes riscadas. Essa é a primeira vez que acontece um incidente como esse na escola, nunca tivemos problemas com brigas ou ganguess”, conta a diretora da Escola Classe 405 Sul, Míriam Fidélis.
Logo após o incidente, o garoto que testemunhou a pichação começou a receber ameaças de cinco jovens que participam do grupo Vândalos do Império da Pichação. “Fiquei muito assustado porque isso nunca tinha acontecido comigo antess”, conta o menino de 12 anos. O pai tenta convencê-lo a enfrentar o medo e voltar às aulas. “Depois disso tudo, ele não quer mais ir à escola, tem medo até de sair de casaa”, conta o pai da vítima. “Também ficamos assustados porque não sabemos quem são essas pessoas nem do que elas são capazess”, justifica o pai do estudante ameaçado.
A Delegacia da Criança e do Adolescente vai identificar os autores das ameaças de morte. Se necessário, os agentes podem pedir a quebra de sigilo dos dados para identificar os computadores de onde saíram as mensagens. Em seguida, a polícia convoca os menores, com os pais, para depor. Ao final do procedimento, o delegado encaminha o caso à Vara da Infância e da Juventude e o juiz determina a medida socioeducativa que o menor deverá cumprir. A penalidade vai de uma simples advertência até a internação no Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje).
Os delitos mais comuns cometidos pela internet são a pornografia infantil e os crimes de ódio, como racismo. “O Orkut virou o paraíso dos crimes cibernéticos. Mais de 95% das denúncias que recebemos são relativas ao conteúdo do sitee”, explica o especialista Thiago Tavares Nunes, professor da Universidade Católica de Salvador e presidente da ONG SaferNet Brasil, uma organização que recebe denúncias de crimes virtuais. Para fazer denúncias, basta entrar no site
www.denunciar.org.br.
Memória
Menina ameaçada
Como foi:
Em julho do ano passado, garotas das gangues virtuais Minas de Feh na Ativa (MFA) e GS3 usaram o Orkut para deixar mensagens ameaçadoras no perfil de uma menina de 13 anos, estudante de escola da Asa Sul. Três dias depois, 20 delas cercaram o colégio da jovem. Gritaram palavrões e ameaçaram atacá-la. A “rivall” havia beijado o ex-namorado de uma das agressoras.
Situação atual:
A Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) indiciou 15 adolescentes — 11 meninas e quatro garotos — por injúria e ameaça. O caso chegou à Vara da Infância e da Juventude (VIJ) em julho. E continua sem desfecho até hoje. Ninguém foi condenado ainda, apesar dos depoimentos prestados. A vítima está matriculada na mesma escola, mas só anda acompanhada e não acessa mais Orkut.
Racismo via Orkut
Como foi:
O estudante Marcelo Valle Vieira Mello, 22 anos, é acusado de usar o Orkut para disseminar idéias racistas e agredir negros e afrodescendentes. Termos como “sujoss” e “macacoss” foram escritos numa comunidade para se referir aos estudantes que ingressam na Universidade de Brasília (UnB) pelo sistema de cotas.
Situação atual:
O caso está nas mãos da juíza Geilza Fátima Cavalcanti Diniz, da 6ª Vara Criminal. Ela transferiu os depoimentos das testemunhas de defesa, previstos para ontem. A alteração ocorreu porque a juíza entendeu que não havia tempo hábil para intimar as testemunhas — o processo ficou no Ministério Público entre 12 de março e 8 de junho. Marcelo é o primeiro acusado pela prática de racismo na internet a sentar no banco dos réus.
Morte planejada pelo MSN
Como foi:
Três jovens de classe média são acusados de planejar a morte de um adolescente do Guará em abril deste ano. Dois deles, de 18 e 23 anos, foram flagrados pela polícia em conversas mantidas no MSN por pelo menos 10 dias. Os investigadores também encontraram fotos da dupla ao lado de colegas com armas e, aparentemente, cheirando cocaína. As ameaças ocorreram depois que um jovem ficou com a ex-namorada da vítima. Uma discussão entre os dois provocou a briga posterior. O grupo o ameaçou na rua. Um outro jovem estava armado.
Situação atual:
A 1ª Delegacia de Polícia, na Asa Sul, investiga os acusados por formação de quadrilha armada, corrupção de menores e ameaça. A delegada Suzana Machado, responsável pelo caso, pedirá mais tempo para investigar por que se passaram 30 dias desde a sua abertura. O inquérito está na Justiça.