Orkut encontra fãs e infratores no Brasil

10/04/2006
Fonte: 
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Autor: 
Seth Kugel
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional

RIO DE JANEIRO, Brasil – Pergunte para os usuários de internet daqui o que eles acham do Orkut, o serviço de rede social do Google que completou 2 anos, e você poderá receber um olhar vazio. Mas pronuncie "or-cu-ti", como eles fazem em português, e verá os rostos se iluminarem.

"Nós estávamos falando sobre isso!", disse Suellen Monteiro quando questionada pelo repórter em meio a uma conversa com quatro amigas em um bar do shopping New York City Center. O assunto era o rapaz que Aline Makray, 18, conheceu durante o final de semana em um baile funk, que desde então a localizou no Orkut e pediu para fazer parte da sua rede social.

Orkut, a invenção de um engenheiro de softwares turco chamado Orkut Buyukkokten, não chegou a pegar nos Estados Unidos, onde MySpace? e Friendster dominam o ciberespaço adolescente. Mas é um fenômeno cultural no Brasil.

Cerca de 11 milhões dos mais de 15 milhões de usuários do Orkut são registrados como vivendo no Brasil – um número impressionante uma vez que estudos estimam que apenas 12 milhões de brasileiros acessam a internet de casa. E estes 11 milhões não incluem pessoas como Makray, que se registrou na Hungria em homenagem a sua ascendência, ou alguém chamado Maurício que escreve em português, mas de brincadeira diz ser de Mauricius.

As próximas edições dos dicionários portugueses do Brasil devem conter a palavra "orkut". O Globo, o maior jornal diário do Rio, se refere a ela sem explicações. E a mídia brasileira rotineiramente mede a popularidade de grupos musicais e atores pelo número de comunidades dedicadas a eles no Orkut.

"Surto", uma popular comédia em cartaz no Rio de Janeiro, é temperada com referências ao site. E os jargões do Orkut já fazem parte do vocabulário brasileiro, como "scrap" (pronunciado aqui como "is-cré-pi" ou "is-cra-pi"), que significa um recado deixado em um livro de visitas na página de alguém que todos – inclusive namorados e namoradas ciumentos e pretendentes – podem ver.

Mas a querida popularidade do Orkut, ao qual as pessoas podem se unir apenas se forem convidadas, teve diversas conseqüências. Logo quando os brasileiros começaram a falar sobre o Orkut, em 2004 – e bem antes de abril de 2005, quando o Google tornou o site disponível em português – usuários da língua inglesa formaram expressivas comunidades antibrasileiras como "Brasileiros Demais no Orkut".

E, pior, o sucesso do Orkut o tornou um veículo popular para pornografia infantil, pedofilia e grupos racistas e anti-semitas, de acordo com promotores brasileiros e grupos sem fins lucrativos. A fomentação do ódio no Orkut também foi condenada nos Estados Unidos e outros países, mas é no Brasil que acontece o maior esforço em conter o problema e confrontar a atitude bico-fechado do Google.

A SaferNet Brasil, uma organização não governamental fundada no ano passado, rastreia violações aos direitos humanos no Orkut e gerou ampla cobertura da mídia sobre a atividade ilegal no site. Muitas formas de racismo são contra a lei no Brasil.

O presidente da SaferNet, Thiago Nunes de Oliveira, professor de lei no ciberespaço na PUC de Salvador, disse que o problema explodiu nos últimos meses.

"Em 45 dias de trabalho, identificamos 5.000 pessoas que estão usando a internet e, principalmente, o Orkut, para distribuir imagens de sexo explícito com crianças", ele disse. E isso fora os racistas, neonazistas e outros grupos de ódio que a organização encontrou.

Em fevereiro, depois que diversas tentativas de contatar o escritório do Google no Brasil, a SaferNet Brasil entrou com ações, através da promotoria federal de São Paulo, contra o site. Os promotores reuniram-se com a equipe de vendas do Google no Brasil no dia 10 de março e pediram ajuda para identificar os usuários que estão infringindo as leis brasileiras.

O Google recusou o pedido de uma entrevista direta com Buyukkokten, mas uma porta-voz repassou algumas de suas respostas por e-mail. O escritório brasileiro, segundo ele, lida com vendas de comerciais e não trabalha com o Orkut, que não gera renda. "O Orkut proíbe atividades ilegais (como pornografia infantil) tanto quanto discursos de ódio e a promoção da violência", ele escreveu. "Nós iremos remover tais conteúdos do Orkut quando formos notificados."

Mas, Nunes de Oliveira disse que remover o conteúdo não é o que precisam. "A incapacidade das autoridades em investigar estes crimes é principalmente ligada à falta de cooperação do Google em identificar estes usuários", ele disse. Ele também se preocupa que o Google não arquive evidências dos crimes caso apague as páginas ofensivas.

Thamea Danelon Valiengo, parte do time que trabalha em casos cibernéticos em São Paulo, concordou. Ela disse que os promotores pediram aos juízes que ordenem o Google a entregar as informações de usuários que efetuam crimes. Até então, ela disse, o Google concordou em enviar um advogado ao Brasil para uma reunião em maio.

Buyukkokten escreveu por e-mail que o Google irá cooperar com as autoridades, mas não especificou se, por exemplo, irá fornecer informações que permitam o rastreamento através de seu endereço na internet, como os promotores pediram. Uma porta-voz do Google, disse por e-mail que em entre quatro e seis semanas, o Orkut disponibilizara uma ferramenta que "permitira a identificação e remoção de conteúdos que violem os termos de uso".

Em geral, no entanto, os fãs do Orkut não parecem perturbados pelas atividades ilegais no site, que a maioria dos usuários entrevistados disse nunca ter encontrado. Eles estão mais interessados em encontrar antigos colegas de classe e amigos, uma das habilidades do site mais alardeadas. Escolas, locais de trabalho e até mesmo ruas residenciais têm "comunidades" onde as pessoas que estudaram, trabalharam ou viveram se unem.

E todos têm histórias de romances desenvolvida através de uma intrigante publicação. Makray encontrou uma vez um homem que flertou com ela em uma boate. "Ele não havia me dito que tinha filhos e que era casado", ela disse. "Eu descobri no Orkut".

Erika Laun, 23, verifica o Orkut diariamente para ficar de olho no namorado. "Quando começamos a sair", ela disse, "uma garota que estava afim dele mandava mensagens e fazia graça das coisas que eu escrevia". A irmã da rival, que ele nem mesmo conhecia, ajudava deixando mensagens como "Hey gatão, te amo, mil beijos".

"Eu ficava muito brava", disse Laun.

Ninguém sabe de verdade porque o Orkut pegou entre os brasileiros e não entre os americanos, apesar de o fato de ser uma rede social apenas para convidados possa explicar porque explodiu no Brasil. Em uma entrevista em 2005 para o jornal A Folha de São Paulo, Buyukkokten disse que pode ser porque os brasileiros são "um povo muito amigável" e talvez porque alguns de seus amigos, entre os primeiros a usarem a rede, tem amigos brasileiros.

Fernanda Leon, estudante de arquitetura entrevistada em um restaurante oriental local com seu namorado, disse acreditar que o país gira em torno do Orkut por causa de sua herança cultural. "Os brasileiros realmente querem interagir com outras pessoas, tanto com velhos amigos quanto com novos", ela disse. Ela tem 379 amigos em sua rede social.

Nunes de Oliveira da SaferNet enfatiza ser contra apenas o uso ilegal do Orkut. "É uma ferramenta fantástica, um serviço excelente", ele disse. "Não queremos acabar com ele."


Matéria original em inglês