Fonte:
http://idgnow.uol.com.br/internet/efeito_web/archive/2007/04/25/uma-pergunta-para-o-seu-orkut
Autor:
Silvia Bassi, Diretora Geral e Publisher do IDG Brasil
Caro sr. Orkut, o senhor conhece Hemanshu Nigam, o CSO (Chief Security Officer) do MySpace?
Humm, lendo as últimas notícias do Brasil sobre o site de relacionamentos que tem seu nome, eu diria que não.
Ou, se conhece, talvez não tenha aproveitado a proximidade geográfica (já que ele mora aí no seu país) para trocar umas idéias sobre proteção aos usuários e responsabilidade social.
Afinal, o Orkut, site que leva seu nome, acaba de bater um triste recorde local, segundo relatório da ONG Safernet: acumula 45 mil denúncias envolvendo crimes contra os direitos humanos nas suas comunidades online e apresenta um crescimento da ordem de 10 vezes no número de denúncias mensais se comparado com o ano anterior. E olha que um monte delas, na verdade milhares, tem a ver com pedofilia.
Chato, não? Digo chato, porque a gente até imagina que sua intenção foi muito boa ao inventar o Orkut. Essa coisa de redes sociais é o futuro e a geração Millenium (pessoas que nasceram entre 1980 e 2000) está completamente imersa nelas.
A gente até entende o seu comentário, na sua badalada visita ao Brasil, de que o Orkut é um reflexo da sociedade, com pessoas boas e más.
Entende mas não aceita, porque não justifica que, sabendo disso, o senhor ainda não tenha implementado um sistema mais eficiente de proteção aos usuários que frequentam sua comunidade. Estamos falando de um site com 52 milhões de pessoas cadastradas, das quais 27,5 milhões são brasileiras. De quantas pessoas mais o senhor precisa para se convencer de que é preciso tomar medidas mais enérgicas de proteção?
Por favor, converse com o sr. Nigam, acho que ele vai ter muito para lhe contar.
Afinal, ele foi contratado pelo MySpace, um site de relacionamento como o seu, mas que tem 150 milhões de usuários cadastrados, em maio de 2006 para exatamente atacar o problema da segurança dessa população. Nessa época, o MySpace tinha mais ou menos 80 milhões de usuários e era uma grande, imensa fonte de dores de cabeça para a News Corporation, que o tinha comprado em outubro de 2005 por U$ 580 milhões.
Como o senhor deve saber, as dores de cabeça vinham dos mesmos problemas de segurança enfrentados pelo seu site Orkut.
O sr. Nigam é um ex-promotor de Justiça, especializado em crimes de pedofiilia, que passou três anos e meio colocando molestadores de crianças na cadeia. E sua presença como "xerife" do MySpace não impediu o site de crescer ou melhor, dobrar de tamanho em um ano. E mais, não está impedindo o site de ganhar dinheiro, já que até a empresa para a qual o senhor trabalha fechou um acordo para pagar U$ 900 milhões pelo direito de ser a provedora dos mecanismos de busca das propriedades da Fox Interactive Media, o que inclui o MySpace.
E o que vem fazendo o sr. Nigam? Bom, em primeiro lugar, criando mecanismos para que os adolescentes possam ter suas páginas como adolescentes sem precisar mentir a idade ou o país de origem (o senhor sabe que isso acontece no seu site, não sabe?) já que há mecanismos automáticos que impedem que qualquer pessoa desconhecida possa visitar a página de um adolescente. Só os convidados dele podem.
No MySpace, o sr. Nigam também colocou códigos complexos que permitem minar as buscas dos pedófilos. E ele e sua equipe de "xerifes ajudantes" deletam, por semana, mais de 8 mil perfis de pessoas que mentem sobre sua idade. Mais recentemente, o sr. Nigam anunciou o desenvolvimento de um software gratuito que permite aos pais monitorar informações públicas que seus filhos colocam no site. Isso é claro não está parando com todas as dores de cabeça nem com os processos movidos por pais contra o MySpace, mas está ajudando bastante.
Enfim, o sr. Nigam sabe que está só no começo, mas não está deixando para a comunidade o ônus de se proteger. E ele está coberto de razão. Em março passado, o sr. Nigam foi o assunto da reportagem de capa da revista CSO, do IDG e há cerca de duas semanas, teve seus feitos contados numa reportagem da BusinessWeek. Nessa reportagem, aliás, o sr. Nigam diz que sabe da responsabilidade do seu cargo e que acredita que "como companhia, temos de forjar o caminho para todo um mercado".
Então, sr. Orkut, a gente sabe que um dos valores da empresa para a qual o senhor trabalha é que é possível ganhar dinheiro sem fazer o mal. Pois coloque o valor em prática, converse com o sr. Nigam. Ele deve ter boas idéias para lhe contar.
Ah, só uma última pergunta: o senhor não tem filhos, tem? Acho que não, porque se tivesse, como eu tenho, estaria mais preocupado com o problema.