De olho nas armadilhas virtuais

10/10/2007
Fonte: 
http://www.folhape.com.br/folhape/materia.asp?data_edicao=10/10/2007&mat=64922
Autor: 
Tárcio Fonseca
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional

Pais e filhos tentam chegar a um acordo sobre o uso do computador

Limite sempre foi uma questão delicada na relação entre pais e filhos. Um dos fatores que pode gerar polêmica em casa é a utilização do computador e da internet. A maioria dos especialistas concorda que crianças e adolescentes que passam tempo demais com os jogos, programas de mensagens instantâneas ou nas comunidades virtuais estariam prejudicando os estudos e uma relação mais saudável e "real" com seus amigos. Além disso, ainda estão vulneráveis às abordagens de desconhecidos mal-intencionados que podem se passar por amigos virtuais. Por todos esses motivos, uma conversa sobre tecnologia e segurança se mostra necessária.

Estipular horários, examinar o que o filho faz e os amigos com quem anda são práticas bem conhecidas dos pais. Esse controle e preocupação, atualmente, também devem se estender à net. De acordo com a psicopedagoga Simone Bérzamo, 42, "devemos mediar e moderar nossos filhos também na internet, mas sem proibição. Deve haver um diálogo, um acordo".

Esta recomendação é seguida à risca na casa do engenheiro civil Fabrício Muller, 39, em sua relação com a filha de 10 anos, Ana Júlia. "Ela costuma ver os e-mails, assistir a vídeos no YouTube, entrar no Orkut, falar com suas amigas pelo MSN e jogar. Tento sempre conferir o que ela anda fazendo", revela. Ele mantém o computador na sala de casa para que, junto com a esposa, possa observar melhor a filha. Simone recomenda esse tipo de controle, mas sem exageros. "Se você proibi-los de algo, eles vão ficar com mais vontade e vão acabar arrumando um jeito de fazer", afirma.

A também psicopedagoga Sandra Helena da Fonseca, 36, considera a relação aberta que tem com seu filho Gabriel, 14, primordial. "Ele costuma passar a maior parte do tempo que fica na frente do computador jogando, mas conversamos muito e ele sabe que primeiro devem vir os compromissos escolares", enfatiza.

Outro cuidado constante está nas redes sociais e chats, que podem esconder a verdadeira identidade de pessoas de má índole buscando aproximar-se de crianças e adolescentes. "Não devemos fingir que não pode acontecer com nossos filhos, temos sempre que desconfiar", avisa Simone, que, há alguns anos, chegou a acompanhar o filho em um encontro que ele marcou com uma garota pela web. "Ele tinha 12 anos e a menina dizia ter a mesma idade, mas insisti, fui junto com ele, e fiquei escondida até a hora que a garota apareceu", conta.

SaferNet no combate aos abusos contra as crianças e adolescentes

Os abusos contra crianças e a pedofilia infantil constam como grande parte das ocorrências registradas pela equipe do site SaferNet Brasil, que funciona em parceria com Ministério Público Federal, o instituto World Childhood Foundation e o Comitê Gestor da Internet do Brasil, recebendo denúncias de crimes virtuais e orientando os internautas a uma melhor utilização da internet.

Segundo o psicólogo da SaferNet, Rodrigo Nejm, 27, o site recebe, em média, 80 mil denúncias por mês, o que representa por volta de oito mil páginas diferentes registradas mensalmente. A lista de crimes envolve pornografia infantil (pedofilia online), racismo, xenofobia, intolerância religiosa, neonazismo, apologia e incitação de crimes contra a vida, homofobia e apologia e incitação de práticas cruéis contra animais. Para Rodrigo, as precauções naturais dos pais também devem se repetir no ambiente virtual. "Assim como os pais não devem deixar seus filhos saírem sem orientação para passear na rua ou na praça do bairro, eles precisam orientar e monitorar a forma como seus filhos navegam na internet", explica Rodrigo.

Outra recomendação é deixar o computador em áreas de comum acesso dentro de casa. "Quando a criança esconde imagens ou desliga a tela assim que um adulto entra no ambiente, é preciso ficar atento", alerta Rodrigo. Por fim, a convivência familiar e a conversa sempre é a melhor saída. "Uma boa dica é navegar junto com os filhos. Esta é uma ótima oportunidade para os pais menos familiarizados com as tecnologias apreenderem e compartilhar os conteúdos saudáveis e criativos também disponíveis na internet", conclui.

Cartilha dá dicas de proteção para crianças e adultos

Alunos do projeto educacional de redes e segurança da computação, HackerTeen, em parceria com a organização de defesa dos direitos humanos na internet, SaferNet Brasil, criaram uma cartilha de orientação sobre a correta utilização da web. Com o título Diálogo Virtual, o texto, direto e de fácil compreensão, explica aos jovens, pais e educadores as utilidades e perigos de vários serviços disponíveis online. Entre os diversos assuntos abordados estão as redes sociais, chats, roubo de dados, blogs, fotologs e conceitos de crime virtual. Também está presente uma seção que trata da forma como denunciar as infrações cometidas no mundo virtual.

Julgando a falta de conhecimento dos internautas como o principal trunfo dos criminosos virtuais, a cartilha fornece informações para que os usuários aprendam a driblar os perigos e utilizar melhor a rede. Esta informação também ajuda a estreitar a conversa dos pais com os filhos sobre o uso responsável e seguro da internet, como sugere o slogan de capa; "Contra pessoas de má índole, nenhum software ou hardware protegerá tanto seu filho quanto um diálogo franco com ele. A educação deve vir antes ou junto com a tecnologia".

A cartilha Diálogo Virtual, na sua versão 1.1 pode ser baixada gratuitamente.