Fonte:
http://buscacb2.correioweb.com.br/correio/2006/05/03/A15-0305.pdf
Uma semana depois da audiência pública que debateu crimes na internet, na Câmara dos Deputados, o Orkut, maior rede virtual de relacionamentos, mantém ativas mais de 100 comunidades que incentivam suicídio, racismo, nazismo e pedofilia, além de fazerem apologia ao tráfico de drogas. Ontem, haviam inclusive páginas estimulando a intolerância religiosa. Segundo a organização não-governamental SaferNet, nos últimos sete dias, as denúncias contra o Orkut aumentaram de 14 mil para 17 mil.
O coordenador da SaferNet, Thiago Tavares, ressalta que a maioria das denúncias, cerca de 11 mil, trata de páginas com fotografias de crianças fazendo sexo com adultos, com outras crianças e até com animais. “É impressionante. Fizemos uma audiência pública para tentar coibir e punir os autores desses crimes. Mas ocorreu justamente o contrário. Aumentaram as páginas que estimulam a pedofilia”, critica Tavares.
Uma das comunidades alvo de denúncias se chama “Sexo com crianças é bom e eu gosto”, que possui 124 integrantes. No fórum de discussão, os integrantes relatam experiências sexuais com adolescentes que se prostituem nas ruas de Porto Alegre. Outra comunidade criminosa intitula-se “Eu vendo todo tipo de drogas”. Nos tópicos de debate há 23 usuários reclamando do preço alto da cocaína.
Religião
Uma novidade constatada no Orkut são as comunidades que estimulam a intolerância religiosa. Duas delas dizem “morte aos evangélicos” e outra, com 1.234 participantes, chama-se “Eu odeio crentes”. Comunidade denunciada há mais de um mês, “Odeio judeus” tem como imagem o símbolo nazista e ainda ressalta no texto de apresentação que Adolf Hitler “não fez o serviço direito ao exterminar os judeus na Alemanha” nos anos 30.
No dia 16 de maio, o Ministério Público de São Paulo e representantes da Google, empresa que administra o Orkut, vão se reunir mais uma vez com os deputados que fazem parte da Comissão de Direitos Humanos e Minorias para debater o assunto. Na audiência da semana passada, os executivos da Google já haviam ressaltado que não podem quebrar o sigilo de usuários do Orkut por conta da legislação norte-americana, que é rigorosa com a preservação da identidade de quem freqüenta a internet. Outro empecilho seria o contrato firmado entre os usuários da rede de relacionamentos e a própria empresa, que preserva as informações dos usuários.
O procurador da República Sérgio Gardenghi Suiama já havia acusado a Google de ser a única empresa de internet que não coopera com a Justiça brasileira nos casos de crime na web. Ele relatou o caso de um homossexual que foi espancado até a morte em São Paulo. O crime, segundo o procurador, foi combinado no Orkut.
Em nota, a Google informou que está utilizando todos os recursos disponíveis para retirar do Orkut as comunidades impróprias. Para isso, a empresa afirma vai aumentar sua equipe de suporte e implementando novas ferramentas.
Fui expulso do Orkut Por: Ullisses Campbell
Nunca fui adepto de internet. Uso muito mais para o trabalho do que para diversão. Há três anos, fui convidado por um amigo a participar da rede de relacionamentos do Orkut e aceitei. Descobri que se tratava de um ótimo canal para rever colegas de infância e amigos que moram em outros estados. Como sou jornalista, aproveitei a ferramenta para procurar pautas para o trabalho.
Há duas semanas, descobri uma infinidade de comunidades no Orkut que estimulam o suicídio. Uma delas chama-se Suicídio é a solução. Tem mais de mil integrantes. Nos fóruns de discussões, os criadores da comunidade ensinam, passo-a-passo, os doentes de depressão a tirar a própria vida. Instruem até como deve ser o bilhete de despedida. Resolvi fazer uma reportagem denunciando o fato. A matéria foi publicada no domingo (23/04) sob o título Orkut traz dicas para suicidas. Na mesma matéria, revelamos que há comunidades que anunciavam a venda de drogas e promoviam o preconceito racial, homofobia e pedofilia.
Para minha surpresa, dois dias depois de fazer tal denúncia, não tive mais acesso ao Orkut. Ao tentar entrar com a minha senha, a Google me enviou a seguinte mensagem, em inglês: “O seu perfil foi excluído porque contém imagens que não estão de acordo com nossas diretrizes de upload de imagem. Excluímos seu perfil e recomendamos que você leia nossas políticas e diretrizes de utilização antes de criar um novo perfil”. No meu álbum de fotos do Orkut havia 12 imagens pessoais da última viagem que fiz a Nova York. Nada demais.
Oficialmente, a equipe de suporte do Orkut informou que o meu perfil foi removido por mim mesmo “por volta do dia 25 de abril” e não pela equipe do site, o que não é verdade. Segundo uma fonte extra-oficial da própria Google, a minha exclusão pode estar relacionada ao fato de eu ter entrado em várias comunidades criminosas durante a apuração da reportagem. O curioso é que as comunidades que freqüentei para realização do meu trabalho estão todas lá, mais ativas do que nunca. Acredito que a minha exclusão tenha sido uma forma de retaliar o meu trabalho. Não faço questão de ter perfil no Orkut. Principalmente depois que foi revelado que a Google não colabora com a Justiça brasileira na caça aos criminosos da internet. Adeus Orkut e seus mananciais de crimes cibernéticos. Até a próxima reportagem.