E-mails ameaçadores - “Estou ficando paranóica"

03/02/2009
Fonte: 
http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML1693766-1740-1,00.html
Autor: 
Fernanda Cirenza - Marie Claire
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional

De um lado, um namorado falso. De outro, uma adolescente frágil. Entre eles, um site de relacionamentos. Em outro computador, uma mulher que não usa a internet para encontrar sua turma começa a receber um e-mail atrás do outro de um endereço fantasma. Todos com informações precisas e pessoais. As duas são vítimas de um trote perigoso: o cyberbullying.

Megan Meier era uma adolescente americana como tantas outras: um pouco acima do peso, um pouco baixinha. Assim, sem se entender pela vida, foi buscar amigos na internet. Maria* é uma mulher brasileira como outras: mãe de filhos adultos, separada, independente. Não precisa da internet para achar sua turma, mas, ainda assim, sua história corre paralela à de Megan, a menina que se apaixonou por um falso garoto que encontrou na web. Ele a elogiava, deixava sua autoestima em dia. Megan ficou forte. Enquanto isso, Maria, que usava a rede para funções triviais, começou a receber mensagens ameaçadoras de um endereço fantasma. Um atrás do outro, todos com informações pessoais. A internet tinha ganhado um espaço enorme na vida das duas. Só que o assédio de Megan terminou de forma dramática. Em outubro de 2006, seu 'namorado' começou a puxar briga e, um dia, teclou: 'O mundo seria melhor sem você'. O recado, cruel demais, levou Megan ao suicídio. Ela tinha 13 anos. O 'namorado' de Megan, descobriu-se mais tarde, tratava-se de Lori Drew, uma mulher de 49 anos que foi condenada por acessar ilegalmente um computador.

O caso é de arrepiar. Megan era amiga de Sarah, filha de Lori Drew. Vizinhas e da mesma idade, um dia elas se desentenderam. Desconfiada de que Megan falava mal de Sarah, Lori inventou Josh Evans, um adolescente de 16 anos, que frequentava a rede social My- Space. Foi lá que Megan o conheceu e se apaixonou. Nessa época, ela passava por tratamento psicológico e tomava antidepressivos. Mas o encontro com Josh a estava deixando mais feliz. Megan acreditava que ele era seu namorado. Só que, de repente, Josh passou a insultá-la. Os dois brigaram online, até Megan receber a mensagem que a fez se enforcar. A farsa começou a ser descoberta dias depois do suicídio -Lori teria contado a outras pessoas sobre Josh e, com a morte de Megan, a história vazou. Agora, dois anos mais tarde, a Justiça americana vai decidir o futuro de Lori -até o fechamento desta edição, a sentença não tinha saído, mas ela pode pegar até três anos de prisão e pagar multa de US$ 300 mil.

Por aqui, Maria continua lutando contra seu inimigo sem rosto. Assim como Megan, ela é vítima de cyberbullying -em outras palavras, intimidação cibernética. É quando alguém, por trás de uma identidade falsa, humilha, ofende, constrange, persegue ou difama uma pessoa por meio de e-mails, torpedos, scraps, mensagens ofensivas em blogs ou comunidades.

Um bombardeio
Até agosto do ano passado, Maria, que é consultora em Recursos Humanos, mantinha sua rotina profissional em equilíbrio com a pessoal. Fazia a agenda de trabalho sem comprometer suas idas à massagem, terapia, ginástica e aulas de inglês. Mas agora, com os e-mails que tem recebido, quase não sai mais de seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, onde mora sozinha -seus três filhos vivem fora da cidade. 'Tenho recusado trabalho por medo de sair de casa. Vivo uma paranoia, uma sensação permanente de estar sendo vigiada.' Também tem evitado conversar pela internet. 'Desconfio de todo mundo.' E até evitado usar o skype -programa para conversas de voz e vídeo ao vivo pela internet. 'Só falo com meus filhos, que estão muito preocupados com toda essa situação.'

O tormento de Maria começou com uma mensagem meio amarga. 'Era uma queixa, uma pessoa que reclamava do fim de seu casamento. Li, achei que tinha parado na minha caixa postal por engano e deletei.' Mas veio o segundo: 'Você vai precisar de várias encarnações para pagar o mal que me fez.' Mais uma vez, Maria apagou, achando que o recado não era para ela. Só que o terceiro e-mail apareceu. 'Esse eu nem li, já estava incomodada demais com o que imaginava ser um engano. Apaguei a mensagem e bloqueei o acesso do endereço da minha caixa postal.'

Algumas semanas se passaram, Maria já tinha esquecido o problema. Mas o agressor oculto, sem respostas, resolveu importunar o ex-marido dela. Em dez minutos, ele recebeu 17 e-mails. 'Não teve tempo de me responder, Maria? Estava ocupada com as massagens e os tratamentos estéticos? Para que tudo isso? E está acordando tarde, hein? Está com a vida ganha... Você acabou com o meu casamento. Vai pagar por isso. E aquele homem que estava com você quinta à noite? Está arrasando, hein? Tirei fotos de vocês, mando depois... Tem gente que vai adorar ver os pombinhos... E você, depois de umas taças de champanhe, fica soltinha, soltinha. Nossa! Você acha que vai esconder o jogo por muito tempo? Sua vida dá um livro, e eu vou escrever suas memórias.'

A pessoa do outro lado do computador sabe muito sobre Maria, uma mulher de 54 anos, bonita e que não esconde sua vaidade. 'Eu gosto de me cuidar e tenho condições para isso.' Mais: ela não gosta de acordar cedo e tinha saído com um amigo numa quinta-feira à noite. Era a prova de que estava sendo observada havia um tempo. O ex-marido de Maria, aqui identificado como Paulo, telefonou para ela imediatamente, queria saber por que os e-mails tinham ido parar na caixa postal dele. 'Paulo estava preocupado. Apesar de estarmos separados há oito anos, nos damos muito bem, somos companheiros.' Ela contou sobre as mensagens que tinha apagado dias antes, e Paulo matou a charada: ela era vítima de invasão de privacidade.

 

Beco sem saída

Ninguém está livre de ser alvo de um ataque no mundo virtual. Pior: nesse terreno, não há como se proteger totalmente, mesmo para quem não se expõe demais, usa sistemas seguros e programas lícitos. 'Os crimes migraram para os meios eletrônicos. O agressor perde a timidez ou o medo sob um suposto anonimato', afirma o advogado Rony Vainzof, especialista em Direito Tecnológico. O agressor de Maria deve pensar que isso o torna impune.

Mas, apesar de a internet facilitar essa zona desconhecida, o usuário deixa vestígios. 'O anonimato na internet não existe', diz Arlete Figueiredo Muoio, analista de segurança digital -uma espécie de xerife da rede- e coautora do livro 'Crimes na Rede' (Ed. Companhia Ilimitada, 240 págs.). 'É possível rastrear qualquer um, independentemente de como ele se apresenta.' O problema é que a investigação é complicada e exige paciência. Como os provedores preservam a identidade de seus usuários, é necessário um mandado judicial -a autorização pode demorar dias, semanas ou meses para sair. Muita gente desiste. Mas também tem quem esteja sofrendo cyberbullying e não vai atrás de seus direitos. 'Algumas pessoas têm vergonha, medo. Acham que, se ficarem caladas, os golpes param. Só que a atitude não funciona, só faz banalizar os crimes na rede', afirma a advogada Cristina Sleiman.

Ao contrário de Megan, que se matou acreditando que seu namorado existia, Maria vai perseguir quem a atormenta. Quer olhar nos olhos de seu agressor para dizer: 'Chega'. Por isso já tomou providências -registrou queixa na Delegacia de Crimes Virtuais de São Paulo e contratou um advogado. Agora, ela espera pela autorização judicial para a quebra de sigilo da identidade de quem manda as mensagens, todas enviadas de um único provedor brasileiro. 'Eu me sinto ameaçada. Tenho medo de sofrer um mal físico também porque essa pessoa me conhece... Enquanto isso não acabar, eu não vou ter paz.'

O agressor não para de invadir a caixa postal do ex-marido de Maria. Agora Paulo também recebe insultos. 'Sua ex-mulher sai com outros e você ainda mantém uma boa relação sócio-econômica com ela? Que bobo!'. Outra: 'Você é um bebê crescido? Nem imagina quem eu sou, não é? Mas eu estava esperando você no aeroporto... Pena que não me viu. Ainda quero marcar um encontro com você... Tomara que esteja sozinho'. Mais: 'Sua mulher deu baixa nas suas economias e você não faz nada?'. Apenas um deles dessa leva era para Maria: 'Está assustada? Curiosa está. Não se preocupe. Você ainda vai pagar todo o mal que me fez'.

Três dias depois desse e-mail, Maria se sentiu mal, perdeu o controle e sofreu uma queda grave. Ela teve, na verdade, uma convulsão causada por estresse -um laudo médico comprova a situação. 'Nunca imaginei que, um dia, eu seria vítima de cyberbullying. Achava que os jovens eram os alvos perfeitos porque distribuem o e-mail pra todo mundo, frequentam comunidades, entram em qualquer site. Mas eu, uma mulher adulta sendo submetida a um constrangimento desses?'.

Cerco psicológico
De fato, o cyberbullying é mais frequente entre jovens. Segundo pesquisa da SaferNet -organização que defende e promove os direitos humanos na rede-, 37% de crianças e adolescentes brasileiros já sofreram esse tipo de ataque. Mas adultos não estão imunes. 'Os jovens são mais vulneráveis porque usam mais o computador. Por outro lado, têm menos recursos para lidar com a agressão', diz a psicóloga Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC-SP. 'O sentimento de impotência da vítima é enorme, porque ela sabe que o autor é real, apesar de escondido por trás de uma identidade falsa.' Especialistas afirmam que, quem sofre golpes virtuais, está suscetível a sentir, além de medo, raiva, humilhação, constrangimento, instabilidade emocional, desconfiança e rebaixamento de autoestima.

É essa a sensação de Maria. 'Estou apavorada. Não fico em casa sem trancar todas as portas. Eu me fechei em um cubículo. É como se, em cada canto, houvesse uma vigília contra mim.' Há cinco meses, Maria vem imaginando quem está por trás das agressões. Vasculha o próprio passado à procura de algum inimigo, de algum desafeto, de algum escorregão. 'Essa pessoa diz que eu acabei com o casamento dela. Mas, depois da minha separação, só tive dois namorados divorciados. Não sei quem está fazendo isso comigo. Só sei que quem me escreve não comete erros de português e não usa a linguagem da internet.' Ela também não tem ideia de que seu algoz pretende. 'Essa pessoa tem raiva de mim, do Paulo e da harmonia que temos. Quer me fragilizar, me deixar insegura. Ela me colocou num cerco psicológico.'

Arlete Muoio, a analista de segurança digital, diz que, em caso de ataque virtual, a melhor estratégia é não responder às provocações. Mas avisa que é fundamental armazenar as evidências da intimidação (imprimir as mensagens) e denunciar. Com as provas, a pessoa faz um boletim de ocorrência. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Porto Alegre e Paraná já existem delegacias especializadas em crimes cibernéticos. Mas qualquer delegacia pode (e deve) atender uma vítima. 'Cometer crime na internet é como cometer crime em qualquer lugar. As penas variam de acordo com o delito e, na rede, eles também são diversos. Mesmo que um caso não termine em detenção, é importante denunciar. Só assim as pessoas vão entender que a internet não é um terreno sem lei', afirma a advogada Cristina Sleiman. Maria está no caminho certo. Apesar de não saber o que pode acontecer com seu agressor ao ser descoberto, ela está determinada a encontrá-lo. 'Pode ser que seja preso. Não dá para saber ainda. Mas ficará com a ficha manchada e não vai fazer isso com mais ninguém. Se eu deixar como está, isso não vai parar nunca. Para o meu sossego, tenho que descobrir quem é.'