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http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=8742
Usuárias recentes do site de relacionamento virtual, elas querem saber o que a garotada anda aprontando
As mães resolveram contra-atacar. Após ver os filhos passarem horas no computador, trocando mensagens, combinando baladas e encontros, elas decidiram participar: cadastraram-se no Orkut. O maior site de relacionamento da internet, com mais de 27 milhões de integrantes no mundo, é formado por jovens. A maioria (61,23%) tem de 18 a 25 anos e se diverte ao ver a própria mãe no meio da galera. Surgiram assim comunidades bem-humoradas como Minha Mãe Está no Orkut, a mais disputada do gênero, com 5.700 participantes, e Até Minha Mãe Está no Orkut, mais tímida, com 107 integrantes.
“Há um ano entrei no Orkut porque estava preocupada com meus filhos”, diz a dona de casa Claudia Nochi de Carvalho, de 48 anos, mãe de Camila, de 17, e Daniel, de 21. Ela queria saber exatamente com quem eles falavam e sobre o quê. “No Orkut fica muito fácil mentir e inventar uma identidade falsa”, diz Claudia. Depois de receber denúncias de racismo, nazismo, pornografia infantil, tráfico de drogas e até venda de medicamentos proibidos , o Ministério Público Federal de São Paulo abriu investigação sobre o site.
No início, Claudia fazia praticamente uma varredura na página dos filhos. Lia os scraps (recados) e o perfil dos amigos. Até que um dia Daniel avisou que iria viajar com um amigo. A mãe desconfiou. Depois que ele saiu com as malas de casa, abriu a página no Orkut e viu que era mentira. “Ele foi a Manaus encontrar uma garota que tinha conhecido pelo site”, conta Claudia, que ficou com medo de o filho cair numa armadilha. Nada de ruim aconteceu, mas Daniel ouviu um sermão na volta.
“As mães não percebem, mas elas também perdem a privacidade ao entrar no Orkut”, afirma Erik Itakura, psicólogo do Núcleo de Estudos em Psicologia e Informática da PUC de São Paulo. “Às vezes, também dou uma olhada no Orkut de minha mãe”, diz Daniel. Apesar de ter entrado no sistema por causa dos filhos, hoje Claudia também se diverte no site. “Achei amigos da época em que estudei no Colégio Bandeirantes.”
“O Orkut é uma ferramenta capaz de diminuir a angústia e os medos maternos”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há duas gerações, os pais controlavam a rotina familiar com autoridade. Hoje, os filhos têm muita liberdade e os pais, mais motivos para se preocupar.
Mãe de Camila, de 21 anos, e Edu, de 22, Maria Aparecida Pereira não dorme sem antes ver os filhos chegarem a salvo em casa. “É impossível não se preocupar numa cidade assim violenta e por isso pego mesmo no pé”, diz. Maria Aparecida não permite que eles desliguem o celular quando estão fora de casa. Se saem para encontrar algum amigo, deixam o endereço onde vão estar. Agora a mãe zelosa também está de olho no Orkut. “Me cadastrei para participar mais da vida deles e conhecê-los melhor.”
No Orkut, popularidade conta muito. Ter centenas de amigos é status. Preocupados mais com a quantidade do que com a qualidade, muitos acabam anexando desconhecidos. “Quando surge um nome estranho na página de um dos meus filhos, leio tudo o que está disponível para saber de quem se trata”, diz Maria Aparecida.
O empresário Ricardo Carielo não deixa o filho Matheus, de 10 anos, entrar no Orkut sozinho. “Eu fico com ele no computador, porque tem muita pedofilia na internet”, diz Carielo, que cadastrou o filho depois de o menino insistir muito. Mas o interesse foi passageiro. A fase dele ainda é dos games.
Desde 22 de abril, os usuários do Orkut contam com uma nova ferramenta, que permite ao usuário identificar quem acessou sua página. Quando as mães aparecem para xeretar, os filhos têm como saber. Se antes ninguém costumava apagar os scraps, que se transformavam numa espécie de diário moderno, muitos agora deletam tudo rapidamente. Tem página do sistema praticamente vazia.
A estudante de educação física Juliana Martusceli ajudou o pai a se cadastrar no Orkut. Ele estava empolgado de tanto os amigos falarem das comunidades. “Nós somos muito amigos e companheiros”, diz Juliana. “Às sextas-feiras, quando saio do trabalho, costumo fazer um programa com meus pais.”
Nessa família, no entanto, os papéis se inverteram. O pai quase nunca entra na página da filha, mas Juliana não agüenta de curiosidade. Ciumenta, quer saber sempre com quem o pai está trocando mensagens. “Se aparecer mulher na página, ele sabe que vai levar bronca.”