Lans invadem favelas e aproximam inimigos no Rio

30/09/2007
Fonte: 
LANS+INVADEM+FAVELAS+E+APROXIMAM+INIMIGOS+NO+RIO.html
Autor: 
Renata Granchi e Luciana Oliveira
Veículo de Imprensa: 
O Globo

Tribos variadas ocupam salas específicas e há opções para todos os gostos. Opção barata de lazer, as lan houses lotam até nas madrugadas.

Que funk, que nada. O grande lance agora é teclar e paquerar nas lan houses das favelas do Rio. Jovens entre 12 e 25 anos lotam as salas de computadores com acesso à internet nos puxadinhos que se proliferam nas comunidades pobres da cidade.

Somente na Rocinha, na Zona Sul do Rio, são cerca de cem salas. Na Cidade de Deus, na Zona Oeste, cerca de 30. E no conjunto de favelas da Maré, no subúrbio, cerca de 150, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas.

Pesquisa do Comitê Gestor da internet no Brasil demonstra que a população com renda familiar até R$ 300 é responsável por quase 50% dos acessos em lan houses, que costumam cobrar R$ 1 por hora de navegação. A procura é tão grande que na Maré os internautas disputam os computadores até de madrugada. Segundo o Observatório de Favelas, sexta-feira é o dia mais concorrido. Isso porque algumas salas oferecem o ‘viradão’, promoção em que o internauta paga R$ 6 para navegar até o amanhecer, com direito a refrigerante e pão no café da manhã.

Na Rocinha não é diferente. Melhor: amores virtuais estão se tornando reais. Reginaldo Neto, 19 anos, que trabalha com gravação de DVD, conheceu Williane da Silva, 16 anos, estudante, trocando mensagens via msn numa lan. O primeiro encontro real rolou três meses depois.

“Estamos há um ano e três meses. Estamos até morando junto e tudo. Depois esquecemos o negócio de msn e Orkut porque dá muita confusão entre o casal. Muito ciúme. Aí paramos de freqüentar lan house”, conta o rapaz, sob o olhar atento da namorada.

Animado com o número de conquistas que realizou via web, Richard Alves Ribeiro, mais conhecido como Nog, de 19 anos, gasta até cinco horas de navegação por dia trocando mensagens com pretendentes. Foi dessa maneira que ele conheceu a atual namorada, a estudante Isabela, de 16 anos.

“É bonzão. Muito bom paquerar as mulheres pelo msn e pelo Orkut. Peguei umas sete. Tudo na conversa. Tem alguns amigos que mandam pra gente o endereço de e-mail ou pegamos no Orkut mesmo. Um vai apresentando pro outro”, conta animado sobre como funciona o esquema.

“Foi assim que conheci minha namorada. Estou com ela há seis meses. Levei três semanas teclando direto até descobrir que ela morava perto da minha casa e nos conhecermos pessoalmente. Mas eu continuo indo à lan house”, esclarece Nog.

Tudo é motivo de festa

A agitação é tamanha em torno das lan houses que até quando estão fechadas para manutenção os freqüentadores ficam na porta. Ivan Viana é dono de dois desses estabelecimentos na Rocinha e conta que atualmente este é o principal ponto de encontro das crianças e dos adolescentes da favela.

“Cada lan house tem uma determinada galera. Algumas têm música ambiente, outras são silencionas e tem as que são festa o tempo todo com música funk, pagode ou hip hop. Tudo com refrigerante e biscoito. Bebida alcoólica não entra”, avisa.

Nog é um dos freqüentadores que gostam de marcar festinhas entre as tribos das lans. Ele conta que cerca de 200 pessoas costumam ir aos bailes que acontecem na casa dos amigos e nas lajes da favela. “A gente marca as festas tudo pelo computador avisando que tem uma festa e vai formando o bonde. Acontece tipo uma vez por mês.”

Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-Rio, explica que existe uma carência de espaços públicos nestas comunidades. A lan house estaria preenchendo esta lacuna. Mais do que isso: essas salas de computadores estariam servindo para aproximar pessoas de favelas rivais.

“Isto está ganhando uma dimensão social importante. O pessoal tem usado para conversar com pessoas de morros vizinhos por sites de relacionamento. Você acaba fazendo amizade com uma pessoa que você via como inimigo e não é inimigo. Acaba furando as barreiras geográficas impostas pela guerra do trafico no Rio”, esclarece.

Hora em lan house em favela e periferia varia de R$ 1 a R$ 2

Levantamento foi realizado em três capitais: São Paulo, Rio e Recife. Maioria dos jovens procura acesso ao MSN, ao Orkut e aos jogos on-line.

A partir de R$ 1 é possível entrar na internet em uma lan house. O G1 apurou que esse é o preço médio cobrado por hora em lan houses de favelas e bairros da periferia de três capitais: São Paulo, Rio e Recife. O preço médio por hora em grandes estabelecimentos situados nas regiões e bairros centrais da cidade de São Paulo é de R$ 5.

Além do preço, essas lan houses da periferia têm em comum a freqüência de jovens, que em sua maioria procuram o acesso ao MSN, ao Orkut e aos jogos on-line.

No Rio, a internet nas favelas furou as barreiras geográficas impostas pela guerra do tráfico. As salas de computadores estariam servindo para aproximar pessoas de favelas rivais. E a procura é tão grande que internautas disputam computadores até de madrugada.

Em São Paulo, a proliferação das salinhas de computador, com preços camaradas, em uma das maiores favelas da cidade faz a alegria da comunidade. O público mais aficionado é o adolescente, na faixa de 12 a 20 anos. Eles ficam, no mínimo, uma hora por dia conectados à internet, segundo funcionários de lan houses.

Na periferia do Recife, as lan houses já fazem parte da rotina da comunidade e ficam repletas de adolescentes. Os sites de relacionamento e os jogos de computador são os mais procurados por esses jovens.

A popularização e expansão da internet foi tema de reportagem do "Jornal Nacional". A cada ano, o número de usuários da rede aumenta cerca de 20%.

No Recife, lans da periferia lotam nos domingos e feriados

Instaladas em cubículos e puxadinhos, elas já fazem parte da rotina da comunidade. Maior parte dos freqüentadores são meninos de até 15 anos.

O Vasco da Gama é um dos bairros mais populosos da capital pernambucana. Enquanto no Recife a densidade é de 6.478 habitantes por quilômetro quadrado, neste bairro da Zona Norte da cidade, em média 18.506 pessoas vivem em área equivalente. A comunidade também é uma das chamadas Zonas Especiais de Interesse (Zeis), classificação da Prefeitura para as áreas mais carentes da cidade. É neste típico bairro de periferia que se concentram quase 20 lan houses.

Ao andar pela rua homônima, a principal do bairro, tem-se a impressão de que há uma dessas lojas a cada esquina. É o que comenta Paulo Leal, de 41 anos, o proprietário de uma das lan houses nesse endereço. “Há um ano que resolvi colocar a loja aqui, e desde então cada dia aparece uma nova, inclusive nas ruelas e nas partes carentes do bairro”.

Instaladas quase sempre em cubículos improvisados - às vezes um “puxadinho” da própria casa -, elas terminaram fazendo parte da rotina da comunidade e ficam repletas de adolescentes. Segundo as contas de Leal, a maior parte dos freqüentadores são meninos que têm, em sua maioria, não mais do que 15 anos.

Algumas vezes, eles fazem pesquisas para a escola, como garante Ícaro Alves, 13 anos. O garoto bem que explicou que os sites de pesquisa na internet ajudam e muito nos trabalhos de história e matemática. Mas, enquanto conversava com a reportagem, ele não tirava os olhos da home do orkut. Ele acompanhava, mais especificamente, os tópicos da comunidade do colégio onde estudava até o ano passado.

O Vasco da Gama é um dos bairros mais populosos da capital pernambucana. Enquanto no Recife a densidade é de 6.478 habitantes por quilômetro quadrado, neste bairro da Zona Norte da cidade, em média 18.506 pessoas vivem em área equivalente. A comunidade também é uma das chamadas Zonas Especiais de Interesse (Zeis), classificação da Prefeitura para as áreas mais carentes da cidade. É neste típico bairro de periferia que se concentram quase 20 lan houses.

Ao andar pela rua homônima, a principal do bairro, tem-se a impressão de que há uma dessas lojas a cada esquina. É o que comenta Paulo Leal, de 41 anos, o proprietário de uma das lan houses nesse endereço. “Há um ano que resolvi colocar a loja aqui, e desde então cada dia aparece uma nova, inclusive nas ruelas e nas partes carentes do bairro”.

Instaladas quase sempre em cubículos improvisados - às vezes um “puxadinho” da própria casa -, elas terminaram fazendo parte da rotina da comunidade e ficam repletas de adolescentes. Segundo as contas de Leal, a maior parte dos freqüentadores são meninos que têm, em sua maioria, não mais do que 15 anos.

Algumas vezes, eles fazem pesquisas para a escola, como garante Ícaro Alves, 13 anos. O garoto bem que explicou que os sites de pesquisa na internet ajudam e muito nos trabalhos de história e matemática. Mas, enquanto conversava com a reportagem, ele não tirava os olhos da home do orkut. Ele acompanhava, mais especificamente, os tópicos da comunidade do colégio onde estudava até o ano passado.

Os sites de relacionamento e os jogos de computador são os principais interesses dos jovens freqüentadores destas lan houses, pelo menos é o que vem observando Olenida Dionísio, 21 anos, desde que começou a trabalhar numa das lan houses da Rua Vasco da Gama, há seis meses. “De informática mesmo, eles não querem saber muito não”, diz o funcionário de outra lan house, Gilvan Rodrigues, 24 anos.

“As lans do bairro ficam mais cheias ainda nos domingos e feriados, o pessoal vem pra se divertir, passar o tempo”, explica Olenida. O curioso, entretanto, é que os garotos da comunidade não são viciados em jogos eletrônicos e fogem dos estereótipos de nerds que passam horas na frente do computador.

Eles mantêm os fones de ouvido e não tiram os olhos da tela por no máximo uma hora por dia, dois dias por semana. Diego Medeiros, de 15 anos, respondeu, enquanto guiava sua bicicleta em um jogo que simulava uma ciclovia, que não é viciado em jogos de computador. Ele não tem um PC na casa onde mora com a avó e mesmo assim termina só indo à lan house em dias esporádicos. Bruno Monteiro, de 13 anos, também diz que só vai de vez em quando.

Como explica Leal, diferente do que se vê em cybers de centros comerciais ou bairros mais ricos da cidade, os meninos do Vasco da Gama não vão para travar longas batalhas em jogos conectados em rede, mas só permanecem por uma hora, o suficiente para gastar não mais do que R$ 1,00. É esse o preço que as lan houses cobram na comunidade.

Preços

Leal até conta que já tentou combinar um preço entre os outros comerciantes do ramo, uma espécie de cartel com preço estabelecido em, no mínimo, R$ 1,50. “É que com R$ 1 por hora não dá sequer pra sustentar o ponto. Me arrependo profundamente de ter montado uma lan house aqui no Vasco da Gama”, conta.

Para o dono de outro cyber café que preferiu não se identificar a única explicação para os preços baixos das lan houses no bairro é adulterar os contadores de energia ou fazer um “gato” nos fios da vizinhança. “Minha conta vem, por mês R$ 350,00, como é que alguém quer cobrar só 90 centavos pela hora de internet?”, questiona o comerciante.

Já Olenida conta que o rendimento da lan house onde trabalha chega a R$ 70,00 por dia. “É o suficiente para manter a loja e ainda tirar um bom lucrozinho”, calcula.