Internautas denunciam pedófilos, traficantes, racistas e outros transgressores mas sua ação atrapalha investigações
SÃO PAULO - Um certo “Osora” recebeu, em três dias, 20 mil recados indignados pelo orkut. Tratava-se de um pedófilo que expunha 12 fotos de sexo com meninas de 8 anos de idade. Descoberto pelos usuários, que registraram três mil denúncias contra ele, o perfil de “Osara” saiu da rede semana passada.
Desde dezembro, foram denunciados dez mil perfis e comunidades carregadas de pornografia infantil. O site de relacionamentos criado pelo Google reúne 17 milhões de usuários. Mais de 70% são brasileiros. Sob anonimato, a rede tornou-se um campo minado por pedófilos, traficantes, racistas e justiceiros. O tiroteio extrapola o mundo virtual: envolve Ministério Público Federal, Polícia Federal, Ministério da Justiça, parlamentares e o americano Google.
Até agora, o Ministério Público conseguiu na Justiça Federal de São Paulo 30 pedidos para que fosse quebrado o sigilo de dados dos supostos criminosos. O vice-presidente do Google, David Drummond, apresentou um documento semana retrasada durante audiência pública no Congresso Nacional, prometendo colaborar. O advogado da empresa no Brasil, Durval Noronha, disse que a quebra de sigilo e a cooperação precisam ser combinadas com o Ministério Público, numa reunião marcada para 16 de maio.
— A cooperação não é simples. Ela pode ser feita por tratado de assistência recíproca ou acordo de cooperação. Estamos buscando um denominador comum para obedecer à legislação americana, onde está o Google — afirmou Noronha.
Uma empresária faz parte de um grupo de “justiceiros” do orkut. Ela decidiu brigar contra a pedofilia no orkut depois que o sobrinho foi assediado no site.
— Não denuncio o pedófilo para o orkut, porque o site tira ele do ar e ele volta, com um perfil novo, rindo da cara da gente. Faço as denúncias ao Safernet (site parceiro do Ministério Público).
Os “justiceiros” são outra dor-de-cabeça para o Ministério Público. Eles incorrem em crimes, usando vírus para obter dados que só podem ser obtidos com autorização da Justiça.
— No mundo virtual, a justiça pelas próprias mãos, assim como no mundo real, tem muitos problemas. Justiça deve ser feita pelo Estado — adverte o procurador Sergio Suiama, responsável pelo grupo sobre crimes cibernéticos.
Mas todos concordam em uma coisa: se você encontrar um criminoso, não avise o orkut. Denuncie ao Safernet (
www.safernet.org.br ou
www.denunciar.org.br). Se a denúncia é feita ao orkut, o Google tira a página do ar e as provas se perdem. O procurador Sérgio Suiama dá outra dica aos pais:
— É importante orientar os filhos para a Internet.