Internet possibilita recados e boatos indesejáveis

11/04/2007
Fonte: 
http://www.pernambuco.com/tecnologia/nota.asp?materia=2007411164656&assunto=196&onde=1
Autor: 
Thiago Marinho
Veículo de Imprensa: 
Veículo Nacional

As comunidades de relacionamento virtual conseguiram aproximar pessoas e criar uma rede, praticamente, ilimitada de amigos. Os sites facilitam a comunhão de gostos, desejos e opiniões de indivíduos em diferentes localidades, dando uma falsa impressão de liberdade aos presentes. Os internautas não precisam mais pedir autorizações para conhecer outros usuários e podem, por exemplo, pesquisar conteúdos pessoais, ler perfis desconhecidos e até deixar recados em caixas postais alheias. Foram situações como essa que transformaram e atormentaram a vida de vítimas do chamado linchamento verbal.

Um dos casos mais recentes envolveu a estudante pernambucana Ana Laíse Ferreira, de 18 anos, que foi fotografada sendo supostamente "apalpada" pelo príncipe inglês Willian, de 24 anos. A imagem rendeu capa do The Sun, jornal sensacionalista de maior circulação no Reino Unido, e causou furor em muitos dos compatriotas da menina. Em menos de 48 horas, cerca de 10 mil mensagens instantâneas foram deixadas no Orkut da garota, que chegou a ser acusada de calúnias e palavras difamatórias.

Os xingamentos atingiram ainda as páginas pessoais da mãe e da irmã de Laíse, que também se tornaram públicas em instantes e passaram a sofrer assédios e até perseguições no site de relacionamento. "Eu me senti bastante prejudicada porque tive que deletar minha página do Orkut. Lá, eu mantia o contato com várias pessoas e clientes, que achavam o sistema mais rápido para deixar um recado", conta a dentista Maria Claudete Ramos, mãe de Laíse, que preferiu não entrar em detalhes sobre o assunto para não expor ainda mais sua família.

"Guria, tu é uma oportunista mesmo! Fica denegrindo a imagem das brasileiras... Que nojo (eu tenho) de gentinha como você!"; "A mão era do príncipe e a teta era da vaca do príncipe"; "Vê se toma vergonha na cara, seja uma mulher séria e não envergonhe mais o Brasil e os brasileiros aí fora. Faça os seus programas em segredo", dizem alguns dos comentários maldosos encontrados na rede.

"Existe uma perda muito grande do sentidoe do limite na Internet. Por causa da banalização da violência e das relações que, muitas vezes, são entendidas como descartáveis, os indivíduos pensam que podem ofender ou outros gratuitamente. Além disso, muitos desconhecem os aspectos técnicos da web, que podem identificar usuários no mundo real, mesmo que esses tenham usado dados falsos para se cadastrar nos sistemas", explica o advogado Carlos Lopes, que ajuda a família de Ana Laíse a entrar com uma ação contra a Google Brasil, empresa responsável pelo Orkut no país.

Fama - Uma situação parecida envolveu a secretária Katilce Miranda Almeida, de 29 anos, residente do município de Volta Redonda (RJ). Durante o show do U2, em São Paulo, no início do ano passado, ela foi convidada pelo vocalista Bono Vox para subir no palco, dançar uma música com ele e, como de costume nas apresentações da turnê, receber um beijo do cantor.

Em menos de três dias, foram deixados mais de 64 mil comentários em seu Orkut, a maioria, ofensas e injúrias. Cerca de um ano e dois meses depois do episódio, são encontrados mais de 100 perfis falsos (com fotos reais dela) e 300 comunidades sobre o assunto.

Sexo e difamação - Outro caso de invasão de privacidade e difamação, envolvendo o Orkut, quase acabou em tragédia em Pompéia, no interior de São Paulo. Há cerca de um ano, a estudante de direito Francine Favoretto de Resende, até então com 20 anos, teve fotos supostamente suas, fazendo sexo com dois homens, publicadas e difundidas na rede de relacionamento.

Em menos de 24 horas, mais de 10 mil mensagens contra ela e os outros dois rapazes foram registradas nas páginas pessoais dos mesmos. Além disso, a garota quase foi linchada, por 300 pessoas, dentro da sala de aula da própria faculdade onde estudava. Todos os envolvidos, além dos familiares, passaram a ser ofendidos por telefone, e-mail e até pessoalmente. Francine foi abandonada pelo namorado e um dos jovens chegou a perder o emprego onde trabalhava há 13 anos. O outro, suspeito de ter divulgado as imagens, teve que sair da cidade.

A história rendeu pelo menos uma comunidade, ainda no ar até hoje, com o nome da jovem no Orkut. "Essa comunidade é para todos aqueles que sentem muito pelo que aconteceu(..) É também para todos que odeiam pessoas que "xeretam" a vida de outras e fazem coisas inacreditáveis com o nome ou foto, ou o que seja (das vítimas)", diz a descrição.

Saiba o que fazer - A constituição brasileira já é capaz de julgar a maioria dos crimes cibernéticos no país, inclusive identificando criminosos anônimos em sites de relacionamento. Então, aprenda a se defender de ameaças, cópias de identidade, calúnias, injúrias e difamações na web:

- antes de mais nada, será necessário prestar queixa-crime junto a autoridade policial mais próxima de você;

- para isso, preserve todas as provas possíveis, imprimindo e salvando o conteúdo dos sites e dos diálogo suspeitos. Esse material ajudará como fonte de informação para a investigação policial, mas não servirá como prova em juízo. Porém, uma alternativa para registrar as provas on-line, seria recorrer a um cartório e fazer uma declaração de fé pública (autenticando o material);

- algumas localidades contam ainda com delegacias especializadas em crimes cibernéticos. Em Pernambuco, acesse o endereço www.sds.pe.gov.br/delegaciainterativa e faça a queixa on-line;

- depois desses procedimentos, solicite a remoção da página ilegal do ar enviando uma carta registrada ao prestador do serviço.

- Para mais informações, utilize a ajuda de um advogado ou de uma ONG especializada em combater crimes virtuais, como a SaferNet Brasil (www.safernet.org.br).