Mesmo sem autorização dos pais, crianças a partir de 7 anos burlam as regras do Orkut e se expõem às investidas de pedófilos e racistas. No país, há um crime virtual a cada seis minutos.
A menina de 11 anos adora maquiagem e o grupo mexicano RBD. Mas paixão mesmo ela tem pelo Orkut. Freqüenta o site de relacionamentos mais popular do mundo desde os 9, quando se juntou a uma prima da mesma idade para montar o perfil de cada uma. As duas esconderam dos pais a então novidade. Até que, há alguns meses, uma delas se assustou. Um homem de 54 anos mandou mensagens convidando-a para um encontro. "Não gostei, fiquei com medo e acabei contando para o meu pai. Ele brigou feio comigo", lamentou a estudante de uma escola pública do Plano Piloto.
A bronca do pai tem uma razão, além da falta de confiança da filha: os perigos do Orkut. Sem noção da vastidão do território virtual, crianças e adolescentes acabam expostos a pedófilos, racistas e preconceituosos dos mais variados tipos e idades. São os mesmos bandidos digitais que usam o site, pertencente à empresa Google, para arriscar encontros e incentivar comportamentos anti-sociais. A Safernet Brasil, especializada em combate a crimes na internet, recebeu 76.675 denúncias contra o Orkut entre janeiro e outubro (veja quadro na página 34). É um caso a cada 5 minutos e 45 segundos.
Na capital do país, a ameaça cibernética começa na infância. Existem hoje brasilienses de 7 anos com perfis detalhados em uma ferramenta virtual que deveria admitir apenas pessoas com mais de 18 anos. O Correio ouviu, durante a semana, histórias contadas por meninos e meninas internautas de 7 a 12 anos. Estudantes de escolas públicas ou particulares, de classes baixa, média ou alta, revelaram um problema para pais e educadores: o uso sem controle de programas de mensagens instantâneas (MSN) e de sites de relacionamento.
A reportagem esteve, na última quarta-feira, diante de uma turma do 3º ano do ensino fundamental de uma escola pública do Plano Piloto - a mesma da menina de 11 anos assediada por mensagem. Dos 33 alunos entre 8 e 12 anos, mais de um terço admitiu manter perfis no Orkut. Alguns com o consentimento dos pais. Outros em segredo, por pressão dos coleguinhas. Um dos garotos mais comportados da sala, por exemplo, contou como faz para acessá-lo. "Minha mãe não deixa. Por isso, quando ela pede para comprar pão, pego mais dinheiro e vou numa lan house", explicou.
Alguns colegas o copiam. Se não entram no site em lojas de jogos em rede, navegam nas casas de amigos que têm permissão dos pais para visitar qualquer endereço eletrônico. Até criam mais de um perfil para despistar os pais. As turmas do colégio acabam interligadas pelo Orkut, entre fóruns de discussão, trocas de fotos e enquetes virtuais. "A turma da 3ª série autoriza no Orkut os coleguinhas da 4ª e da 5ª e não pára mais. Em pouco tempo, o site domina as conversas na escola", contou uma professora de 46 anos, há 23 como educadora.
A exposição dos alunos aos perigos na internet - um deles foi chamado para um encontro na Rodoviária - fez com que ela criasse um perfil para acompanhar a garotada. Descobriu que, no Orkut, usam apelidos, trocam os nomes e mentem a idade. O susto a obrigou a conversar com três pais. Alguns ignoravam que os filhos entravam no site. Ou insistiram que a criança nem mesmo sabia mexer na internet.
INTERNET
Maior acesso, risco ampliado
No Brasil, a comunidade do Orkut reúne 30 milhões. O problema é a grande quantidade de páginas pornográficas e que incitam crimes. Páginas com pornografia infantil e apologia e incitação a crimes contra a vida concentram mais da metade das denúncias recebidas pela Safernet Brasil contra o Orkut. Do total de 76.675 registradas entre janeiro e outubro deste ano, 62.676 (81,7%) mantinham perfis de desrespeito à vida e aos direitos humanos. "Recebemos uma média de 2,5 mil denúncias por dia envolvendo páginas contendo evidências de crimes. E já são 2,5 milhões de usuários na internet com idade entre 6 e 11 anos", afirmou o diretor presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares (leia artigo).
A ameaça e a exposição a pedófilos ficam maiores ao se levar em conta a quantidade de internautas brasileiros no Orkut. Dados da Google Brasil apontam que o Brasil tem 30 milhões de usuários do site de relacionamentos. A quantidade faz do país a maior comunidade mundial, com 53% do total de pessoas vinculadas à ferramenta. Como não se permite o preenchimento do espaço da idade por números menores do que 18, não se sabe quantas crianças e adolescentes participam do domínio virtual.
A popularidade entre a garotada, no entanto, se percebe com facilidade nas escolas. O Correio ouviu 20 alunos do 4ª ano do ensino fundamental do Centro de Ensino Candanguinho (Cecan), no Sudoeste. Metade admitiu participar do Orkut. A maioria, meninas. Uma delas, de 10 anos, troca fotos e deixa recados com as amiguinhas desde os 8. Na época, pediu permissão para a mãe, que também freqüenta o site. Apesar da autorização, teve de aceitar limites. O perfil dela não tem fotos pessoais, e o grupo mexicano RBD aparece na imagem de apresentação. Está em 143 comunidades e tem 91 contatos.
Há alguns meses, no entanto, a garota levou um susto ao receber uma mensagem de um desconhecido. "Me perguntou se eu queria namorar ele. Não gostei, achei ruim. Minha mãe ficou brava e disse para não responder nada", contou. A mocinha ainda ajudou uma colega, de 9 anos, a fazer um perfil no Orkut sem que os pais da outra soubessem. "Esperei a hora certa para contar a minha mãe, pois sabia que ela não gostaria", disse a mais nova. Ela fica no computador até três horas diárias. Aproveita que os pais ficam pouco tempo em casa.
A escola das duas tem laboratório de informática, mas não permite navegação em sites de relacionamento. Para o coordenador de informática do Candanguinho, professor Allan Parreiras, a liberação em ambiente escolar desconcentra e prejudica o aprendizado. Ele confirmou que a procura por Orkut e MSN começa cada vez mais cedo. "Há até 3 anos, meninos de 14, 15 anos pediam para a escola liberar. Hoje, a partir dos 9 anos já nos cobram."
Invasão de privacidade
O garoto Leo, de 9 anos, descobriu o Orkut por influência das irmãs, de 17 e 21 anos. Atenta, a mãe Marise, dona-de-casa de 39 anos, limita os horários de acesso e só o deixa navegar depois de os deveres serem feitos. Também orienta sobre os perigos no mundo virtual. Tanto que o filho usa como imagem um personagem de desenho japonês. "Estabeleci uma relação de confiança, mas fico de olho", disse Marise.
A preocupação da família de Taguatinga se explica a partir de um constrangimento sofrido pela filha de 17 anos. Uma amiga enciumada contou com a ajuda de um hacker para invadir o perfil dela e colocar fotos sensuais. A intervenção deu a entender que se tratava de uma página de prostituição. "Esse episódio chamou ainda mais nossa atenção", explicou Marise. Para ela, é melhor impor limites do que proibir.
Navegação monitorada
A criançada mente a idade no próprio perfil como única saída para participar do Orkut. Mas nem sempre se preocupa em deixar imagens de apresentação que não sejam a dela. É o caso de uma menina de 9 anos, moradora do Cruzeiro. Está no Orkut desde os 8, incentivada por primos e colegas de escola. A primeira foto da página é dela, que tem 22 contatos no site de relacionamentos. Boa parte crianças da mesma idade. Os pais, a engenheira agrônoma Michelle Fayad, 32, e o consultor de negócios Régis Santos, 33, sabem que a filha participa da comunidade virtual. Não gostam e a controlam sempre.
Régis a fiscaliza a partir do computador do escritório. Usa um programa capaz de acusar se a garota está usando o Orkut. A cautela aumentou depois de um susto ao descobrir troca de mensagens dela com um desconhecido. "Ela estava conversando com alguém de Santa Catarina e não tínhamos idéia de quem era. Isso nos assustou. Resolvemos tomar precauções antes que acontecesse algo", contou Michelle.
A criança entrava todos os dias no Orkut há pelo menos três meses. Mas uma peraltice fez com que os pais limitassem o tempo no PC. O período longe do mundo digital ainda ajudou a esquecer a senha de entrada no Orkut. Foi um alívio para os pais. Ela hoje apenas enxerga a própria página. Não tem chance de deixar ou responder recados. Prefere, então, usar o MSN, o que também incomoda os pais.