Fonte:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1569641-EI6578,00.html
Os defensores da "supremacia branca" no Brasil - sim, eles existem - estão de volta à ativa pela rede mundial de computadores. Com dois sites no ar e uma loja virtual de produtos que pregam a intolerância, os neonazistas tupiniquins voltaram a ameaçar o diretor da agência de notícias Afropress, Dojival Vieira.
A agência, que segue as Resoluções da III Conferência Mundial contra o Racismo a Xenofobia e a Intolerância da ONU, denunciou em 2005 os ataques de Marcelo Vale Silveira Melo, que se escondia por trás do pseudônimo "DR0K3D, o justiceiro" para espalhar mensagens de racismo e xenofobia pela rede.
A Afropress recebe, desde então, seguidas ameaças e sofre com ataques de "hackers" que tiram o site do ar. "Hoje mesmo recebi mais uma ameaça em meu email", afirmou Dojival, em entrevista a Terra Magazine na segunda-feira.
A mensagem: "Macaco sujo, quando é que você volta para a África?". Remetente:
volta@prafloresta.org. Os emails, segundo Dojival, são freqüentes. Ameaça recebida em 2005: "Vou mostrar do que sou capaz. Você tem até o próximo sábado para tirar a agência do ar". Outra mensagem: "Você e sua ONG são negróides que necessitam ser urgentemente exterminados. Lugar de negro é no presídio, não na Universidade. Eu sou o skinhead que vai te matar, seu crioulo de merda. Vais morrer, macaco".
Hoje, Marcelo está no banco dos réus. O Ministério Público Federal acatou denúncia contra o rapaz baseado na lei 7.716, que, em 1989, tirou o racismo da categoria de "contravenção" e o transformou em crime inafiançável. É crime, segundo o artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa".
Insistindo no crime
Pelo menos dois sites que fazem apologia à "supremacia branca" e outros absurdos dos neonazistas brasileiros continuam no ar na internet.
Um dos portais é o Valhalla88. O nome faz referência a um castelo da mitologia nórdica - Valhalla - para onde iriam os guerreiros mortos em combate. O número, 88, é referência dos neonazistas do mundo todo para a repetição da oitava letra do alfabeto, o "H". HH, acrônimo para "Heil Hitler".
A apresentação define o site como "O mais ativo site NS da América do Sul!". "NS", nacional-socialista, nazista: "Procuramos ser arianos honrados e virtuosos e, além da propaganda política, lutamos dia a dia para alcançar, pelo mérito, postos-chave na sociedade. Somos só a semente. Nosso dia chegará".
O site White Power São Paulo oferece material semelhante ao do Valhalla88. Além disso, tem uma loja virtual para vender camisetas, filmes, livros e outros itens com temática nazista.
O registro do endereço, em um servidor norte-americano, está sob o número E1C356C79CF0F0FD e em nome de um certo Richard Sammoel Schnauzer. O email e o endereço fornecidos para o registro são falsos.
A loja também oferece uma assinatura do "Der Stürm", jornal nazista em português, que tem o mesmo nome do principal periódico do III° Reich na Alemanha. Em fevereiro deste ano, o White Power São Paulo também promoveu um "concurso de cartoons anti-semitas".
A loja usa o sistema de vendas online oferecido pela osCommerce - servidor de código aberto. A reportagem de Terra Magazine perguntou ao responsável pela osCommerce sobre a venda de material nazista por meio do sistema. Quatro mensagens foram enviadas para o administrador do endereço. Não houve resposta.
Clientes
Um dos supostos compradores da loja virtual neonazista é um adolescente de São João do Oeste, em Santa Catarina. Uma rápida busca na rede mostra o usuário como dono de um fotolog - site pessoal de imagens. Na página principal, uma cruz celta - símbolo de origem antiga, mas usada posteriormente por grupos de extrema direita. Uma das mensagens, datada de 18/09/2005, é encerrada com a assinatura WPWW, que pode ser o acrônimo de White Power World Wide, organização que prega supremacia branca no mundo.
No site de relacionamentos Orkut, um perfil do rapaz, que comprou uma camiseta com o símbolo e os dizeres do "White Power World Wide", está inscrito nas comunidades "Revisionismo histórico", "Holocausto, judeu ou alemão?". A comunidade em homenagem ao rapaz pergunta: "Você gosta dele por quê?". Uma das opções: "Porque ele é nacional-socialista".
O jovem também faz parte das comunidades "Ervalzinho comanda" e "Os CDF's também amam". É a "raça-pura" tupiniquim. A lei 7.716 também enquadra esses sites. Primeiro parágrafo do artigo 20: "Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa". Parágrafo segundo: "Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: reclusão de dois a cinco anos e multa".
Alvo das ameaças denunciou estudante racista
O jornalista Dojival Vieira, presidente da ONG ABC sem Racismo, é alvo constante dos neonazistas brasileiros. Diretor da agência de notícias Afropress, Vieira é odiado pelos racistas por ter denunciado mensagens de ódio veiculadas pela internet.
Hoje, o autor das mensagens aguarda sentença em um processo judicial por racismo:
- Ele hoje está sentadinho no banco dos réus.
Uma foto de Dojival já foi colocada no site nazista Valhalla88 como um dos alvos dos "guerreiros da supremacia branca". Com as ofensivas da Justiça contra os neonazistas, a foto foi retirada.
Mas as ameaças continuam. Mensagens eletrônicas com ameaças de morte e xingamentos racistas são freqüentes. Ontem mesmo uma delas chegou ao jornalista:
- A mensagem é "Macaco sujo, quando você volta para a África?"
Leia a entrevista com Dojival Vieira.
Terra Magazine - A Afropress sofre pressão dos neonazistas?
Dojival Vieira - A partir do momento em que a gente entrou com a agência no ar, a gente passou a receber ataques de vândalos neonazistas, ataques sistemáticos e continuados. A propósito, ainda hoje eu recebi um email com ameaça. As ameaças são contínuas. Por conta disso, o Ministério Público começou a investigar e hoje, no Brasil, há o primeiro acusado de crime de racismo pela internet no banco dos réus, que é o estudante de Brasília, Marcelo Silveira.
Qual é o teor da ameaça de hoje?
A mensagem é "Macaco sujo, quando você volta para a África?". O remetente é
volta@prafloresta.org. Nesse nível. Outros são mais violentos, ameaçando minha integridade física e a da minha família.
E quais os motivos?
Por conta da Afropress. O racismo e o nazismo tentam a todo custo monopolizar o uso da Internet. E nós começamos a assumir um combate frontal com esses grupos. E sofremos as conseqüências disso. Ataques de hackers, invasão ao nosso banco de dados, inclusive.
Quando começou isso?
Quando o Ministério Público identificou entre os acusados de racismo esse estudante de Brasília nós demos como notícia. Em represália, ele nos atacou pela primeira vez em 2005. Ele retirou nossa página do ar. Depois, nós passamos a receber emails. O primeiro ataque era assumido por um tal "DR0K3D, o justiceiro". O texto era "Pode ficar calminho porque o primeiro ataque foi só o começo. Só vou me contentar quando falir essa porra de Afropress. Mexeu com a pessoa errada, seu bosta". Mas nós pegamos esse sujeito. Conseguimos chegar à identidade de quem era esse "DR0K3D". E era o Marcelo Silveira. Ele hoje está sentadinho no banco dos réus.
Mas as ameaças continuam?
Posteriormente, o instrumento passou a ser a página de recados do Orkut. Essa organização, que é a White Power São Paulo, pôs a minha foto na página principal.
E o estudante está por trás disso?
Para o promotor de Justiça ele confessou que atacava a Afropress. Já no interrogatório ele voltou atrás, disse que eram os amigos dele para agradá-lo. Agora, mesmo nos recados do Orkut, tanto no meu perfil quanto no da minha mulher, as pessoas que escrevem dizem agir em nome dele. Por exemplo: "Eu juro por Deus que vou me vingar por DR0K3D. Ele pode até ir para a cadeia, mas eu vou ficar aqui caçando essa ONG".
Os sites dos neonazistas ainda estão no ar...
Segundo a Constituição o racismo é crime inafiançável e imprescritível. Dá cadeia. Esse sujeito pode pegar penas de 2 a 5 anos por cada delito.
Mas os sites estão em provedores americanos. É uma artimanha jurídica?
Isso. Nós estamos tratando de organizações criminosas. No momento em que as autoridades de segurança tratarem essas questões não como brincadeiras de adolescentes, mas como organizações criminosas que precisam ser investigadas, desbaratadas e seus responsáveis irem pra cadeia, resolve-se. Isso não é virtual. Tanto o White Power quanto o Valhalla88 são grupos criminosos organizados, atuam à revelia da lei, desafiam as autoridades do País. No momento em que eles botaram a minha cara na página eu mandei carta para o ministro da Justiça e para o secretário de Segurança Pública de São Paulo dizendo o seguinte: se alguma coisa acontecer à minha integridade física ou à minha família essas autoridades são diretamente responsáveis.
Por quê?
Tanto a Secretaria de Segurança Pública quanto o Ministério da Justiça têm serviços de inteligência que, se acionados, conseguem desbaratar essas quadrilhas rapidamente. E estão sabendo da coisa. Não é possível tratar isso com complacência, como se fosse um problema menor. Não é um problema menor. E não é virtual. É real.