Google sob fogo cruzado por site polêmico

19/10/2007
Fonte: 
http://online.wsj.com/article/SB119273558149563775.html
Autor: 
ANTONIO REGALADO and KEVIN J. DELANEY
Veículo de Imprensa: 
Veículo Internacional

(*) SÃO PAULO, Brasil -- Google produz bilhões de dólares combinando publicidade e Web. Ontem mesmo publicou mais um crescimento na receita e nos lucros.

Mas aqui no Brasil, a potência da Internet está envolvida em um vergonhoso episódio sobre seus esforços para gerar lucro com sua rede social, um dos serviços online que crescem mais rapidamente na Internet.

O Orkut tem dado dor de cabeça à Google. Como qualquer site de relacionamentos, o Orkut permite que as pessoas troquem informações e criem páginas pessoais. Apesar de muitos norte-americanos nunca terem ouvido falar, o Orkut é uma potência fora dos EUA, com mais de 25 milhões de visitantes mensais no Brasil. Para se ter uma idéia, ele figura na lista dos 10 sites mais populares da Web, ao lado de outra redes de relacionamentos muito utilizadas, como o MySpace da News Corp. e o Facebook Inc.

Page Views

O principal desafio dessas empresas é como transformar popularidade em dinheiro. Todas as grandes companhias procuram anunciantes para a geração de receitas. Durante grande parte da sua história, o Orkut não teve anúncios.

Então, quando a Google tentou colocar anúncios no site começaram os problemas. Críticos no Brasil elaboraram um relatório mostrando publicidade no Orkut ao lado de fotos de crianças nuas e animais sendo abusados. A Google imediatamente suspendeu os anúncios, mas a empresa de Mountain View, Califórnia, ainda sofre as consequências da campanha dos críticos do Orkut.

O diretor geral da Google no Brasil pode ser acusado pelo crime de desobediência por se recusar a entregar os dados dos usuários do Orkut para a Justiça Federal brasileira. E no mês que vem haverá uma audiência sobre um caso iniciado pelo Ministério Público Federal de São Paulo que ameaça com multas diárias de US$ 100.000,00 ou até mesmo o fechamento da empresa no país. "Ganhamos", diz Thiago Tavares Nunes de Oliveira, um professor de Direito brasileiro de 28 anos, que cruzou o Brasil para mostrar a autoridades que a Google permitiu que o Orkut se tornasse um reduto para atividades criminosas, incluindo pornografia infantil e racismo.

O Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, um entidade americana que monitora relatos de pornografia infantil, diz que o Orkut gera aproximadamente a mesma quantidade de reclamações de pedofilia que qualquer outro site de relacionamento. O Google afirma que o Orkut não está diretamente sujeito à lei brasileira porque seus dados são armazenados em computadores que ficam nos EUA. A empresa garante que vai atender os pedidos da polícia e da Justiça com mais agilidade, e que remove regularmente conteúdo ilegal de seus serviços.

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Mas a Google também reconhece que cometeu erros com o Orkut no Brasil por não dedicar mais recursos para entender melhor a cultura e o país onde seu site se tornou popular. "Nós teríamos feito de maneira diferente hoje", diz Alexandre Hohagen, o diretor geral da Google no Brasil. "O produto cresceu mais rapidamente que o suporte. Isso é fato."

O conflito no Brasil foi exacerbado pela própria Google, que acredita que deve manter uma linha dura em questões de privacidade para manter a confiança dos usuários. No ano passado, a Google foi processada pelo governo americano por se recusar a entregar dados que o Yahoo, a Microsoft e outros entregaram. A Google acabou por atender o pedido, depois que o governo reduziu drasticamente sua solicitação.

Mas o que torna esses sites muito visitados - a possibilidade de qualquer um postar material - também torna difícil controlá-los, algo que ameaça a capacidade das empresas da Internet em ganhar dinheiro com anúncios.

Um procurador de Nova York, Andrew Cuomo, selou essa semana um acordo com o Facebook, no qual a empresa de Palo Alto, Califórnia, prometeu responder às reclamações dos usuários sobre nudez, pornografia infantil ou assédio em menos de 24 horas. Cuomo acusou o Facebook de ser muito lento em responder às reclamações sobre abusos sexuais.

Os problemas regulatórios são mais graves fora dos EUA. As leis norte-americanas sobre privacidade e liberdade de expressão na Internet são relativamente bem desenvolvidas. Mas esse não é o caso em outros países, onde empresas enfrentam leis conflitantes, ambientes imprevisíveis e particularidades nacionais ou religiosas. As leis brasileiras, por exemplo, não oferecem às empresas de Internet a mesma imunidade contra reclamações relacionadas a difamação, que, ao contrário, é desfrutada nos Estados Unidos. Na Índia, nacionalistas pediram que o Orkut fosse banido, e o site já está bloqueado em alguns países árabes.

Para os anunciantes, o episódio do Orkut ajuda a confirmar as preocupações de que sites de relacionamento virtual ainda são um veículo incerto. "O Orkut é uma caixa de Pandora", diz Brian Crotty, vice- presidente da agência McCann Erickson no Brasil.

A produtora de licores Diageo PLC de Londres diz que parou de anunciar nos serviços da Google depois de saber que seus anúncios estavam sendo veiculados ao lado de imagens pornográficas no site. Segundo seu porta-voz Stuart Kirby, a Diageo não havia percebido que seus anúncios da marca Johnnie Walker apareciam no Orkut, onde muitos usuários não têm a idade mínima permitida por lei para consumo de álcool.

As fotografias das páginas do Orkut capturadas por Tavares mostram conteúdos que ele considera condenáveis ao lado de, por exemplo, propagandas de igrejas e do Alibaba.com, um site para compras entre empresas do qual o Yahoo detém 40%. Quando informado sobre isso, um porta-voz do Alibaba disse que a situação era muito preocupante. "Estamos entrando em contato com a Google para descobrir o que eles estão fazendo para garantir que propagandas não apareçam ao lado de conteúdo impróprio ou ilegal", acrescentou ele num comunicado.

GOING UP


Visitors to social-networking sites in September.

  Unique users % Change
Blogger 142,971 85
Windows Live Spaces 119,838 21
MYSPACE.COM 107,031 37
Yahoo! Geocities 85,994 -8
FACEBOOK.COM 73,521 420
WORDPRESS.COM 62,232 N/A
FLICKR.COM 40,906 98
Six Apart Sites 39,340 47
Lycos Tripod 35,379 -25
HI5.COM 35,064 51
FRIENDSTER.COM 26,504 74
Orkut 24,612 57
Yahoo! Groups 24,389 3
DADA.NET 20,196 32
BEBO.COM 19,722 142

Source: comScore World Metrix

Segundo uma fonte ligada ao problema, a Google diz que está preparando maneiras de colocar anúncios de volta ao Orkut sem que ele apareça ao lado de conteúdo que anunciantes considerem condenáveis.

Enfrentar esses problemas pode sair caro. O MySpace da NewsCorp. enfrentou casos semelhantes nos últimos anos. Agora, os executivos da empresa dizem que cada uma das 15 milhões de fotografias postadas no site por dia são revisadas pelo menos uma vez por um ser humano. Esse programa, criado para bloquear pornografia e fotos relacionadas a drogas e violência, custa vários milhões de dólares ao MySpace por ano.

A Google não quis divulgar detalhes de seus planos para o Orkut. Mas ganhar dinheiro com o site é certamente uma questão estratégica importante para a empresa. No segundo trimestre do ano, 48% da receita da Google veio de fora dos EUA, comparado com 43% em 2006 e 39% em 2005. Graças ao fato de que os brasileiros estão entre os mais ativos usuários de internet no mundo, o Orkut recebe a mesma quantidade de tráfego geral, ou "exibições de páginas", do que até mesmo a principal ferramenta de busca do Google, de acordo com dados do comScore Inc.

A Google lançou o Orkut - cujo nome veio do seu criador, Orkut Buyukkokten, um engenheiro de software da Google - em 2004. O site gratuito nunca atraiu muito interesse nos EUA, mas se tornou um grande sucesso no Brasil, onde conta com milhões de usuários cadastrados.

O gigante da Internet não tentou gerar lucros com o site de imediato. Recentemente, em meados de 2005, a Google tinha apenas 3 empregados no Brasil. O baixo investimento da Google no Orkut contrastou nitidamente com seu importante crescimento no maior país da América Latina. O Orkut se tornou o um dos mais importantes centros da vida social dos brasileiros, englobando dois terços de todos os usuários da Internet, muitos deles crianças.

O site se tornou rapidamente o reflexo do bom e do ruim da sociedade brasileira, um país conhecido pelo seu espírito espontâneo assim como pela violência nas favelas. As comunidades foram desenvolvidas ao redor de temas como futebol, amor e injustiças. Quase 400.000 pessoas participaram de discussões num grupo chamado "Minha mãe é a melhor mãe do mundo", segundo a Google.

Indivíduos usam o site para formar quadrilhas criminosas e também para recrutar simpatizantes no site, incluindo neo-nazistas, gangues organizadas e pedófilos. Outras comunidades traziam nomes como "Negros: a raça inferior" e "Eu sou nazista, e daí?". "Era como se existissem dois Orkuts. Um Orkut normal e outro pornográfico, existindo paralelamente", diz Irineu de Carli Jr., um consultor de softwares brasileiro.

O lado obscuro do Orkut atraiu o interesse de Tavares, um homem sério que se tornou o segundo mais jovem professor da história da sua universidade, a Faculdade de Direito da Universidade Católica de Salvador. Em 2004, Tavares recebeu um pequeno subsídio para rastrear violações dos direitos humanos na Internet. Ele diz que, rapidamente, descobriu que enquanto o uso da Internet está explodindo na América Latina, esta região tem poucas leis e recursos limitados para a governança desse enorme crescimento.

Em dezembro de 2005, Tavares criou uma associação sem fins lucrativos chamada SaferNet. Baseado no modelo das organizações norte-americanas, o site permite aos usuários que denunciem crimes online através de seu website. Dentro de semanas, ele diz, o site estava recebendo centenas de denúncias. Mais de 90% delas relacionadas ao Orkut.

Tavares começou a relatar esses problemas às empresas da Internet. Ele diz que a Yahoo!, de Sunnyvale, Califórnia, e a Microsoft de Redmond, Washington, prontamente removeram o material apontado como ofensivo e prometeram enviar cópias às autoridades brasileira. A Microsoft convidou Tavares para uma reunião com seu mais alto executivo no Brasil.

Mas o jovem professor diz que a Google fez pouco caso do assunto. Ele diz que Hohagen, diretor geral da Google Brasil, não respondeu a inúmeros pedidos de reunião. No começo de 2006, Tavares entregou à assessoria de imprensa da Google um CD contendo 220 páginas com evidências de crimes no Orkut. Ele nunca obteve uma resposta.

A Google no Brasil diz que não consegue encontrar registros claros sobre os pedidos de reunião feitos por Tavares. Mas Hohagen confirma o recebimento do CD.

Enquanto isso, a Google começou a procurar formas de ganhar dinheiro no Brasil. Em junho de 2005, a empresa abriu uma filial no país para vender publicidade online. E o Orkut fazia parte da estratégia. "Eu perco o sono só de pensar na mina de ouro que o Orkut pode representar" disse Hohagen à revista Exame, a principal revista brasileira de negócios, em 2005.

Recentemente, porém, a Google tem enfrentado uma crescente onda de reclamações, muitas delas investigadas por Tavares. Sergio Gardenghi Suiama, um procurador federal de São Paulo da área de Direitos Humanos, começou a mandar uma série de citações judiciais para os escritórios da empresa no Brasil, pedindo informações, como os endereços de e- mail, de usuários do Orkut acusados de cometer crimes no site.

UNPLUGGED
  • The Situation: In August, Google pulled ads from Orkut, its social networking Web site with a strong following in Brazil.
  • The Critic: A 28-year-old Brazilian lawyer and antipedophilia campaigner forced the Orkut move.
  • Why Google Should Care: Such scandals threaten the ability of Internet companies to profit from fast-growing social-networking Web sites.

Seguindo as instruções da sede da Google nos EUA, Hohagen se recusou a atender as citações. O diretor jurídico da Google, David Drummond, viajou ao Brasil para explicar a situação. Em abril de 2006, Drummond prestou depoimento numa audiência pública do Congresso solicitada por Tavares. Ele disse que a Google estava disposta a ajudar as autoridades, mas que os dados do Orkut estavam todos armazenados em servidores localizados nos EUA e eram, portanto, sujeitos à legislação americana, e não à brasileira.

A legislação americana inclui proteções rígidas sobre as informações privadas de usuários e não exige que a Google revele comunicações privadas, exceto sob certas condições e quando solicitadas por um juiz americano. E alguns crimes investigados por autoridades brasileiras - como discurso racista - não são considerados crimes nos EUA. Se a Google cumprir com as demandas brasileiras, o que faria se a Arábia Saudita, onde a homossexualidade é considerada crime, começasse a pedir informações para revelar usuários gays?

O Orkut tem fomentado a discussão sobre liberdade de expressão em outros lugares do mundo. Os Emirados Árabes Unidos bloquearam o site no meio do ano por temer que uma comunidade chamada de "Dubai Sex" estivesse promovendo a imoralidade. Na Índia, membros do Exército de Shiva, um partido político, reagiu contra críticas postadas no site atacando cibercafés e exigindo que o Orkut seja banido por ser uma "ameaça à segurança nacional".

Mas os brasileiros são sensíveis à idéia de que os norte-americanos dominam a Internet. Em 2005, por exemplo, o Brasil se juntou à China numa proposta para tirar o controle dos EUA sobre o sistema de nomes de domínio na Internet -- o controle de sufixos como .com e .net que ajudam a organizar o tráfego na rede.

A Google deu outros passos que incitaram a ira das autoridades locais. A empresa delegou a responsabilidade para cuidar da crise no Brasil ao advogado Durval de Noranha Goyos Jr., chefe de um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil. Noronha criticou o procurador Suiama por apresentar pedidos judicias "ineptos" à filial da Google Brasil ao invés de enviá-los à sede da empresa na Califórnia. Suiama, diz ele, estava mais interessado em se "exibir na mídia" do que em resolver os problemas.

Mas o tiro saiu pela culatra. Em agosto de 2006, Suiama pediu uma investigação policial sobre Hohagen por desobedecer ordens judiciais e abriu um processo ameaçando a Google de pagar pesadas multas, a menos que a empresa ceda aos seus pedidos. Está agendada uma audiência sobre o caso para o próximo mês. "Se eles querem fazer negócios no Brasil, eles devem obedecer as leis daqui", diz Suiama.

No começo deste ano, Hohagen disse que a Google já estava procurando mudar de estratégia. A empresa enviou o criador do Orkut, Büyükkökten, numa excursão de três semanas pelo Brasil, onde ele foi assediado por fãs pedindo autógrafos. Durante o passeio, a Google anunciou que o teste de publicidade no Orkut, que já havia começado na Índia e nos EUA no ano passado, iria ser extendido ao Brasil.

Mas o teste ofereceu novas armas para o time de 12 pessoas de Tavares na SaferNet. Navegando por comunidades no Orkut, Tavares percebeu que o sistema automatizado de anúncios da Google não conseguia distinguir entre uma página normal e outra dedicada à pedofilia.

No dia 17 de agosto, Tavares enviou uma queixa de 18 páginas para o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (CONAR), documentando casos de justaposições preocupantes: propagandas de uísque Johnnie Walker, da Diageo, ao lado de imagens pornográficas; um anúncio de uma loja de animais de estimação ao lado de uma comunidade sobre como esfaquear animais. Na queixa, Tavares alega que "são flagrantes as ilegalidades" da Google.

Depois que o Conar abriu uma investigação dias mais tarde, a Google suspendeu imediatamente as propagandas mundiais no Orkut. A empresa anunciou que as propagandas faziam parte de um programa de teste de marketing que envolvia apenas 1% das páginas do Orkut. Mas se o volume de uso do Orkut for levado em consideração, os anúncios teriam sido vistos por usuários centenas de milhões de vezes por mês.

A Google passou rapidamente a abordar as preocupações de críticos no Brasil. Numa entrevista coletiva no mês passado em São Paulo, Hohagen anunciou uma mudança de estratégia: a Google Brasil passaria a receber solicitações da polícia e da Justiça, mas, segundo ele, a controladora Google Inc, nos EUA, ainda seria encarregada de respondê-las. E empresa disponibilizou para as organizações sem fins lucrativos, inclusive a SaferNet, contas especiais de acesso ao Orkut para que suas queixas sobre conteúdo ilegal recebam prioridade máxima.

No fim de setembro, Hohagen convidou Tavares para uma reunião de cinco horas. Eles discutiram os passos que a empresa poderia tomar para melhorar o Orkut. "Era óbvio que eles só podiam comercializar o Orkut depois que provassem para todos que tinham resolvido o problema", diz Tavares.


(*) tradução livre do inglês para o português brasileiro pela equipe da SaferNet Brasil


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