Fonte:
http://www.tribunademinas.com.br/
A rivalidade entre grupos de bairros de Juiz de Fora extrapolou as ruas e ganhou a internet. Escoradas nas siglas de facções do Rio de Janeiro, galeras usam o site de relacionamento Orkut para trocar ameaças, marcar confrontos e comentar atos de vandalismo, como a depredação de ônibus urbanos após bailes funk. A exibição de fotos de armas - algumas vezes pinçadas de outros perfis - e a possível ligação com o tráfico de drogas também são artifícios para demonstrar força diante do oponente. Mas a utilização da rede pelos "bondes" - como se autodenominam - tem uma potencialidade ainda mais preocupante: a coligação dos grupos e o intercâmbio com jovens de outros estados, que se dizem integrantes dos bandos criminosos.
Na apresentação de uma comunidade local, por exemplo, há uma lista com 19 bairros, supostamente pertencentes à facção Amigo dos Amigos (ADA), e um apelo para que os membros não briguem entre si. "Vamos acabar com essa juntaria de moçada do ADA ficar em atrito com ADA. Pô, maior palhaçada. Só lá no CV (Comando Vermelho) que tem isso...É a gente tudo fechado com L purim, sem tretar com irmão."
O "L" citado é uma alusão a Paulo César Silva dos Santos, o Linho, antigo líder da facção, criada, na década de 90, nos presídios fluminenses. O criminoso é cultuado em comunidades que induzem os integrantes a reproduzir, com os dedos, a letra, como forma de divulgar o ADA. O resultado são inúmeras fotos, expostas no site ou em fotologs, de jovens fazendo o "L" do apelido do traficante, ao qual muitos se referem como "patrão".
Iniciativa parecida pode ser observada em comunidades destinadas à facção rival. Em uma delas, formada por cerca de 400 participantes de Minas Gerais (incluindo juizforanos), Rio de Janeiro e Espírito Santo, um dos garotos posta a letra de um funk que conta a história do surgimento do Comando Vermelho. Durante discussão, em meio à dúvida sobre a grafia correta do nome do criador da facção, um menino carioca oferta: "Quem quiser aprender mais sobre o CV, é só me adicionar."
Segundo o delegado regional da Polícia Federal, Cláudio Nogueira, o Orkut vem sendo monitorado por agentes infiltrados. "Já temos conhecimento desta situação. Ela está sendo acompanhada por nós."
Ligação improvável
A Polícia Militar considera improvável a ligação dos "bondes" juizforanos com integrantes do ADA e CV. De acordo com a assessoria de comunicação da 4ª Região da PM, a utilização das siglas pelos adolescentes é resultado da identificação com os bandos criminosos.
Para o sociólogo e professor da UFJF, Gilberto Salgado, usar os nomes das facções é uma estratégia de intimidação adotada pelas galeras. Ele critica o recrudescimento do conservadorismo entre os jovens de maneira geral, que assumem um discurso "xenófobo" em relação ao outro. Segundo Salgado, o comportamento é reforçado quando eles se reúnem. "A pessoa acha que em grupo pode tudo, que está protegida. Na rede é a mesma coisa. Muitas vezes, há uma certa irresponsabilidade nos comentários feitos na internet."
Esta postura de intolerância é refletida nas estatísticas policiais. Levantamento da PM mostra que, em praticamente todas as regiões da cidade, há ocorrências envolvendo os bondes. A polícia frisa, no entanto, que houve um decréscimo no número de registros em comparação com o semestre passado.
Letras de funk reforçam idéia de pertencimento
Comunidades que apóiam as facções Comando Vermelho e Amigo dos Amigos, criadas por juizforanos, são, também, freqüentadas por jovens de outras partes. Em uma delas, feita por um morador do Bonfim, na Zona Leste, que aparenta menos de 15 anos, há meninos que dizem morar no Complexo do Alemão, Morro da Mangueira, Providência e Rocinha. Esta última é tema de discussão entre garotos, que debatem, em meio a ameaças, sobre qual grupo criminoso domina a favela. Nos álbuns de fotos de adolescentes cariocas, não é difícil vê-los armados com revólveres, pistolas e fuzis.
A idéia de pertencimento aos bandos é reforçada por letras de funk com apelo explícito à violência, "orações das facções" e imagens de traficantes e armas amplamente divulgadas no Orkut. Ela é tão presente que muitos acrescentam as siglas CV e ADA aos nomes, apelidos, e-mails, usando-as, ainda, para se referir aos bairros. Marcas famosas de roupas, em geral, esportivas e artigos do Código Penal são, também, utilizados para compor a identificação. O mais recorrente é o 157, roubo à mão armada. O artigo mereceu um tópico em uma das comunidades pesquisadas. Nele, o internauta perguntava, sem pudor, quem entre os participantes era "157".
Pais responsabilizados
Especialista em direito de informática, o advogado Alexandre Atheniense destaca que crimes na internet são tão passíveis de punição, quanto os praticados no mundo real. Ele explica que grande parte dos delitos cometidos na rede está tipificada na legislação penal brasileira. O advogado cita o exemplo de um jovem de 22 anos, preso no Rio de Janeiro, acusado de fazer apologia ao tráfico de drogas no Orkut. A comunidade criada pelo rapaz, que levava o nome de uma facção criminosa, passou a ser monitorada por policiais civis. Diante das informações obtidas, os agentes foram à casa do suspeito, onde encontraram uma pistola e munições diversas. "Isso mostra que, mesmo que as mensagens não sejam suficientes para constatar o delito, elas podem servir de pista para a polícia", comenta, lembrando que o site de relacionamentos é alvo constante de investigações do Ministério Público. A Justiça já chegou a solicitar a retirada do ar de comunidades de apologia ao crime.
Segundo Atheniense, o artigo 287 do Código Penal determina a detenção de três a seis meses ou multa para quem faz, "publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime". Em casos de menores de 18 anos, os pais são responsabilizados pela infração.
A assessoria de imprensa do Google - proprietário do Orkut - informou que a empresa sempre colabora com a Justiça brasileira na apuração de denúncias junto ao Ministério Público. Destacou, ainda, que, no fim do ano passado, desenvolveu nova ferramenta de segurança para combater crimes no site de relacionamentos. Essa ferramenta foi criada para uso exclusivo das autoridades do país, estabelecendo um canal direto de comunicação com a matriz norte-americana.
Tentativa de articulação entre bairros da cidade
Uma mostra da tentativa de articulação entre os bondes pode ser conferida em uma comunidade local sobre baile funk, que conta com mais de 500 integrantes. Nos tópicos, comentários - muitos deles anônimos - sugerem que os grupos agem de forma conjunta, sobretudo, em situações de confronto. "CDS (Cidade do Sol) e Santa Cruz 'mete' bala no Cidão (Nossa Senhora Aparecida)", diz um jovem. Outro membro da comunidade, depois de exibir lista com 21 bairros que, supostamente, fazem parte do Comando Vermelho, convoca: "Vamos unir e expulsar os 'ADA' de JF. JF vai vermelhar, moço."
Ônibus depredados
Recados em tom de ameaça também são encontrados com freqüência. Em um deles, um evento realizado na cidade é citado. "Quero ver o Natal (Jardim Natal) botar a cara aqui, no JC (Jóquei Clube). Vai tomar porrada quatro dias de festa. Coitados deles."
Um dos tópicos mais controversos é o "Porrada já era", em que a violência nos bailes funk é condenada por alguns internautas. Entre as críticas, está a atuação de DJs que estimulariam os embates entre as galeras. "Já vi DJ daqui, conhecidíssimo, fazendo apologia a briga. Sabe como? Se os caras são do ADA, ele manda montagem de outra facção, e depois pede para parar. Vê se pode."
Outro tópico polêmico é "Quem já quebrou ônibus depois do baile"? Quatro jovens admitem o vandalismo e dizem quais linhas foram alvo. Certos da impunidade, três deles postam sem a proteção do anonimato.
Membros incriminados
A titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Sânia Burlandi Cardoso, afirma que casos de apologia a facções no Orkut vêm sendo investigados. De acordo com ela, não são apenas os criadores das comunidades que podem responder criminalmente. "Há vários inquéritos neste sentido. A gente verifica o perfil de cada membro do grupo. Dependendo do tipo de participação, quem faz parte da comunidade também pode ser responsabilizado."
Para o especialista em direitos de informática, Alexandre Atheniense, a rede acabou com as distâncias geográficas, fazendo com que informações não fiquem restritas a um só lugar. "A polícia está incapacitada de fazer qualquer tipo de controle sobre as atividades dos infratores por meio das diversas formas de comunicação existentes na internet. Há de se pensar em montar um serviço de inteligência, consultando sites de relacionamento, fazendo com que a conduta criminosa seja evitada."
- A Tribuna optou por não usar o nome das comunidades para evitar divulgá-las.