Fonte:
http://www.tribunademinas.com.br
Autor:
Ana Cláudia Barros e Daniela Arbex
Crianças e adolescentes de Juiz de Fora estão sendo atraídos para uma rede de pedofilia no Orkut, que $rifa" fotos na internet. As imagens de meninos e meninas são obtidas por adultos escondidos atrás de $fakes", falsos perfis de crianças, com o objetivo de se aproximarem delas e persuadi-las a trocar fotografias e vídeos por meio do site de relacionamentos e também do MSN, programa de bate-papo que permite conversas em tempo real. O material é compartilhado e usufruído por criminosos que fazem da perversão sexual não só um meio de obter prazer, mas de ganhar dinheiro. Incluídos nessa rede, muitos garotos acabam sendo induzidos a fazer sexo virtual ou marcar encontros reais que podem resultar em abuso e violência. Alguns pedófilos chegam a pedir pela web receitas para dopar suas vítimas.
Para tentar desvendar o obscuro universo dos pedófilos, foi criado um perfil falso de um garoto de 12 anos, atraindo, em menos de 24 horas, 22 $amigos", diversos deles adultos disfarçados de adolescentes, conforme acabou revelando um pedófilo que disse viver em Juiz de Fora. Durante a conversa, o homem, que apresentou-se como um adolescente de 14 anos, percebeu estar $teclando" com outro adulto. Muitos, no entanto, sequer fazem questão de disfarçar a idade, como um homem de 40 anos que não recuou após saber a idade do personagem, sugerindo uma conversa reservada no MSN, que se revelou obscena.
Por meio de busca no site de relacionamentos, a Tribuna também identificou garotos de classe média da cidade, moradores de bairros como o Bom Pastor, que mantêm estreito vínculo com criminosos da internet, embora possam não saber disso. Através do perfil de um adolescente do município, chegou-se a outras 15 pessoas, entre adultos e jovens de Barbacena, São João Del Rey, Rio de Janeiro, Fortaleza e comunidades de outros países.
Cardápio de fotos
A pesquisa mostrou que essas comunidades exibem desde fotografias caseiras de crianças na praia, postadas na internet pelos próprios pais, até $cardápios" de fotos que incluem não só poses sensuais de garotos, mas sexo explícito e grupal praticado com adultos. A investigação foi iniciada em dezembro do ano passado, quando a equipe de reportagem teve acesso a dois inquéritos policiais instaurados na Delegacia de Menores para apurar o assédio de pedófilos a meninas entre 10 e 17 anos por meio do Orkut.
Em um dos casos, a estudante M., de apenas 10 anos, chegou a ser molestada virtualmente. A dois meses de completar 11 anos, a moradora da Zona Leste da cidade levou um susto ao entrar no site de relacionamentos Orkut. Na página de recados da menina, um homem aparentando mais de 40 anos e que se apresentava como $Gostoso" assediava e ameaçava a criança, exigindo que fizesse sexo com ele. A mensagem grotesca chocou os pais da garota que, preocupados, decidiram procurar a polícia. $Fomos surpreendidos, porque pensávamos que, em casa, nossa filha estaria segura", comentou o pai da menina, por telefone.
Acesso ilimitado potencializa riscos
Ignorando os riscos na internet, muitos pais não impõem restrições ao uso da tecnologia. Embora o Orkut seja, em tese, restrito a maiores de 18 anos, o site é amplamente freqüentado pela população infanto-juvenil. Sem monitoramento, meninos e meninas acabam tornando-se presas fáceis para grupos criminosos de pornografia infantil. $Quero trocar vídeos e fotos, me adiciona no MSN", avisa um pedófilo que se apresenta no Orkut por meio de uma foto que exibe um corpo franzino e infantil. Outro é claro em suas intenções: $Quero transar com moleques entre 8 e 12 anos."
Em mais uma página, o pedófilo, que tem um álbum de meninos nus entre 6 e 12 anos, pede a uma criança que mande fotos suas. $Quando minha mãe sair, vou colocar as fotos", avisa, inocente. Ainda no Orkut, outro se apresenta com perfil fictício. $Tenho 13 anos, você é simplesmente lindo", assedia. Algumas crianças reagem assustadas."Tá louco, irmão", questiona um menino de 10 ao receber o recado. Outros são ainda mais diretos. $Oi, lindo. Me adiciona! Quero tirar a sua cuequinha", escreve o pedófilo de mais de 40 anos que, com a certeza da impunidade, chega a mostrar o rosto e fotos de sua família.
De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, a pena para quem apresenta, produz, vende, fornece, divulga ou publica, por qualquer meio de comunicação, inclusive internet, fotografias ou imagens com pornografia ou cenas de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente, varia de dois a seis anos de reclusão, além de multa. A delegada de Menores, Maria Pontes, que preside os dois inquéritos sobre o crime praticado contra meninas de Juiz de Fora no Orkut, considera a situação preocupante. $Na internet, crianças e adolescentes têm contato com um mundo perigoso, capaz de facilitar crimes, como o de abuso sexual." Entre os casos investigados por Maria Pontes está o de um usuário do site de relacionamentos que assediou B., adolescente de 17 anos. Como ela bloqueou seu acesso, ele $roubou" a imagem de B. e criou uma comunidade de travestis, a partir de sua foto. Além da exposição, ela foi ridicularizada publicamente, inclusive na escola, sofrendo prejuízos sociais e emocionais.
Desesperados, os pais de B. recorreram não só à polícia, mas a Google do Brasil. $Nossa filha é uma menina inocente, criada sob todos os padrões morais da família e que não teve sequer seu primeiro namorado. Nós, pais, estamos aflitos para ver o nome de nossa filha fora dessa comunidade", escreveram. Apesar da intervenção do Ministério Público e da Vara da Infância e Juventude, a página levou mais de dois meses para ser retirada do ar.
Uso de sites para prática de crimes
Uma pesquisa, elaborada pela organização não-governamental SaferNet Brasil, revelou que, em 21 meses (entre 2006 e 2007), houve o registro de 50 mil páginas, criadas por brasileiros, para a prática de crimes contra os direitos humanos. Destas, 40%, ou seja, 20 mil, divulgavam pornografia infantil. Os dados foram apresentados no final do ano passado, durante o 2º Fórum de Governança da Internet, no Rio de Janeiro. De acordo com a ONG, o cerco à pedofilia na Europa está provocando a migração para o Brasil de redes criminosas.
Muitos destes crimes são praticados no Orkut, conforme comprovou a SaferNet em relatório, com 150 páginas, produzido em 2006. Após sofrer ações na Justiça, a Google Brasil afirma ter intensificado a vigilância sobre os conteúdos veiculados. De acordo com o diretor de comunicação corporativa da empresa, Carlos Félix Ximenes, a tarefa é feita por uma equipe nos Estados Unidos. $Temos um time de suporte que fala português e faz buscas ativas. As denúncias dos usuários são muito importantes neste processo."
Apesar da relativa facilidade encontrada pela Tribuna para identificar pornografia infantil no site, Ximenes argumenta que os casos de pedofilia diminuíram. $Recebemos, por semana, cerca de 20 mil denúncias de crimes no Orkut. Destas, apenas 5% são, de fato, crime. O restante são ofensas ou situações que não colocam o usuário em risco. Dos 5%, o principal motivo de remoção de páginas são os *spammers* (aquele que envia propagandas eletrônicas não-autorizadas). Em seguida, temos nudez, mensagens de ódio e pornografia. Apesar disso, 99% da utilização do site é considerada positiva."
O diretor, entretanto, faz um alerta: $Hoje, o maior problema são as conversas instantâneas, em que há trocas de arquivos. Os pedófilos arrastam a criança para bate-papos on line, nos quais têm maior maior influência e sedução sobre ela. Muitas vezes, obtêm fotos dela nua e depois a chantageia, obrigando-a, até mesmo, a marcar encontros. É um pessoal que tem uma atuação bastante elaborada. A única forma de interromper isso é por meio de parcerias e trocas de informação."
Sobre a freqüência de crianças e adolescentes no Orkut, teoricamente restrito a maiores de 18 anos, Ximenes reconhece limitações que impossibilitam o controle. $Atualmente, não temos ferramenta que comprove quem a pessoa é. A gente se baseia na palavra do usuário. Sempre houve abusos na internet, abusos controlados pela própria comunidade. Os pais devem ajudar na vigilância, e os jovens precisam ter responsabilidade. É uma questão de auto-regulação."
Rede internacional
O avanço da pedofilia no país está obrigando ações mais enérgicas por parte das autoridades. No final do ano passado, a Polícia Federal desencadeou a maior operação de combate a esse crime realizada até então, a primeira deflagrada por iniciativa brasileira. A ação, batizada de Carrossel, envolveu 14 estados (entre eles, Minas Gerais) e o Distrito Federal. Os agentes recolheram vasto material contendo pornografia infantil e prenderam três suspeitos, dois em São Paulo e um no Ceará. As investigações mostraram que a rede de pedófilos era formada por usuários de 78 países.
Virgindade é leiloada* em comunidades
Como se não bastassem os perigos a que estão expostos na internet, muitas vezes são os próprios jovens que se colocam em risco, já que postam fotos caseiras com forte apelo sexual. A Tribuna encontrou em uma das comunidades do Orkut um tópico no qual uma adolescente da cidade oferta sua virgindade. $Tenho 17 anos e estou querendo perder a minha virgindade (
). Se a regra do jogo é assim, quero transar com moleques de 15 a 22 anos daqui de Juiz de Fora. Então, se tiver alguém interessado, deixe um recado aí, e a gente marca", diz. Outra menina com o mesmo propósito deixa o endereço do MSN. Um suposto adolescente do município se habilita. $Vamos marcar", diz enviando o e-mail para uma conversa mais reservada.
Para o médico Lauro Monteiro, editor do site Observatório da Infância, o monitoramento de sites de relacionamento, bem como da internet, precisa ser discutido. Fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia), Monteiro explica que, por ser muito suscetível, o adolescente é presa fácil de predadores que usam a internet para seduzir meninos e meninas. $É sempre perigoso falar sobre o controle, mas se existe uma faixa etária para que a criança assista a determinados programas na TV, porque não ter o controle da internet? Precisamos intensificar o debate. Embora não ignore os benefícios e as vantagens da web, também sei que esse é um meio extremamente barato e perigoso de divulgação de idéias, entre elas a apologia à pedofilia", analisa.
Ataque moral
Autor do livro $Pedofilia: A inocência ferida e traída", Milton Rui Fortunato destaca as conseqüências deste crime. $O pedófilo pode não tocar fisicamente a criança pela internet, mas a ataca moralmente, causando prejuízo semelhante ao sofrido por uma pessoa molestada." Pai de uma mulher de 29 anos, portadora de síndrome de Down, que sofreu abuso sexual na escola aos 11 anos, o escritor luta para que a sociedade civil se conscientize e se mobilize no enfrentamento ao problema. $Quando alguém que a gente ama passa por isso, experimentamos um sentimento horrível de raiva e descrença no ser humano. É preciso denunciar, porque a impunidade e o silêncio estão contribuindo para o crescimento da pedofilia. Por isso, a participação da sociedade no combate a esse crime é fundamental", diz Milton. A responsabilidade dos pais também é enfatizada pelo autor do livro. $Os pais precisam ensinar aos filhos a usar essa ferramenta."
Já uma militante que ajuda a denunciar o crime no Orkut, que prefere manter o nome em sigilo por segurança, diz que, se a legislação existente sobre o tema não é cumprida, cabe à família impor limites. $Já que não há respeito pelas regras, então, que os pais procurem saber o que os filhos fazem na internet e adotem um pacto de respeito e sinceridade quanto à utilização da rede."
Tópicos de discussão retirados de comunidades do Orkut:
* $Vídeos de leks* (moleques)"
$Deixe aqui seu MSN pra gente trocar videos."
* $Procuro mlks* (moleques) até 15 anos"
$Tenho 24 anos, se tiver alguém de SP a fim de algo na real, deixa o MSN."
*"Dopar amigos"
$Pessoal, tenho amigos de 12 e 13 anos que vão dormir às vezes na minha casa
Alguém sabe como posso dopá-los para fazer tudinho com eles?"
Até o dia 9, havia nove respostas. Em duas delas, internautas indicavam nomes de calmantes e como deveriam ser usados. Em outra, a pessoa alertava sobre o risco de uma parada cardiorespiratória e sugeria a alternativa de embriagar os meninos ("Já fiz isso e deu certo."). Os demais indicaram outros meios, como brincar de luta ou pedir a permissão das crianças. Em nenhum momento, a pouca idade dos garotos foi criticada.
* $Pra quem curte jovens pelados = P"
A pessoa fornece o link de um site com crianças e adolescentes nus.
* $Flog de meninos novinhos na net"
O criador do tópico deixa o endereço de um fotolog com " fotos de garotos baixadas de flogs ou do Orkut." Na mesma comunidade, há uma enquete sobre a idade dos frequentadores. Dos 347 integrantes, 249 haviam respondido até o dia 9 de janeiro. Cinqüenta e nove por cento revelaram ter entre 10 e 17 anos. O restante declarou ter mais de 18 anos, sendo que 13% disseram ter mais de 21 anos.
* Enquete encontrada em uma comunidade: $Você prefere meninos com qual idade?"
Em um universo de 438 votos, 15 pessoas afirmaram preferir garotos de 5 a 10 anos, e 236 responderam que gostam de meninos de 11 a 16 anos. Um dos integrantes chega a alertar: $Atenção moderador, esta enquete é pedófila. Retire-a do ar."
Trecho de conversas via Orkut, mantidas entre suposto pedófilo e o personagem de 12 anos criado pela Tribuna:
Personagem: $Oi, você é de JF?"
Pedófilo1: $Sou sim. Tenho 14 anos. E você?"
Personagem: $Faço 13 no mês que vem. Você é o da foto?"
Pedófilo1: $Não. E você, não tem foto sua? Em que bairro você mora ? Eu sou de São Mateus."
Personagem: $No Bom Pastor.
(
)
Personagem: $Você parece ser maneiro. Vou te pedir uma dica: como faço para saber se é um Orkut de adulto disfarçado de adolescente? Nada contra adulto, mas gosto de saber com quem estou falando."
Pedófilo1: $É muito fácil. Tudo que estiver no seu perfil (que é de adulto disfarçado tanto quanto o meu), você vai reparar
(risos)."
Como denunciar:
Acesse a página da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos (
www.denunciar.org.br) e preencha um formulário anônimo. Após o envio, o internauta recebe um número para acompanhar, por meio do site, o andamento da denúncia.
Como solicitar a retirada de uma página do Orkut:
O internauta deve mandar um e-mail para
help@orkut.com, passando informações sobre o caso. Segundo a Google Brasil, a remoção, em geral, ocorre em 24h.
A Tribuna optou por não publicar informações que facilitem o acesso ou identificação dos sites, comunidades e perfis citados.