A secretária Ednalva Gadelha de Lima Magalhães, 44, fiscaliza diariamente o que os dois filhos acessam na internet. Brenno, 12, e Murilo, 7, já sabem que a mãe é cuidadosa quanto ao conteúdo que eles navegam, por isso a obedecem. Os meninos só têm permissão para usar o computador à noite, quando ela está em casa e pode supervisioná-los. Para Ednalva, a rede ajuda do desenvolvimento das crianças de forma saudável e educativa. No entanto, teme os perigos da internet, como a pedofilia e a pornografia infantil, crimes que cresceram com o surgimento da rede.
Ednalva conta que permite que o filho mais velho entre no MSN, site de conversação online, e o Orkut, página de relacionamentos, mas procura conhecer todos os contatos do menino. “Já falei para tomar cuidado, porque existem pessoas mal-intencionadas do outro lado”, diz. “Quando eles querem ligar o computador, me ligam no trabalho e pedem. Só deixo se minha secretária puder acompanhar. Graças a Deus, nunca houve problemas com eles.”
Em Goiás, as investigações de crimes cibernéticos têm ganhado força com os novos canais de denúncias. O Ministério Público Federal (MPF) firmou convênio com a ONG SaferNet Brasil para compilação de dados e informações sobre crimes na internet. Segundo o procurador da República Daniel de Resende Salgado, antes da parceria havia uma dispersão de denúncias, o que favorecia a impunidade de delitos como pedofilia e crimes de ódio.
Os primeiros dados levantados apontam que, de janeiro até agosto de 2008, o MPF em Goiás recebeu 195 denúncias ligadas à pornografia infantil e pedofilia, cujo maior celeiro dos crimes é o Orkut, em álbuns (18), comunidades (22) e perfis (137), além de comunidades internacionais de outros sites de relacionamento (18). O procurador da República informa que este ano deve ser criada na Polícia Federal (PF) em Goiás uma delegacia só de crimes cibernéticos, para intensificar e otimizar as investigações.
Perito criminal da Polícia Federal, Walber Pinheiro confirma que existe um projeto para criação de delegacias especializadas em crimes cibernéticos. Segundo ele, Goiás é destaque nacional por roubos a bancos e de senhas. A identificação de redes de pedofilia também tem aumentado no Estado. Para Walber, o maior desafio no combate dos crimes cibernéticos é a falta de legislação específica, apesar de que a legislação atual permite enquadrar alguns delitos.
PARAÍSO DOS PEDÓFILOS
O pediatra Lauro Monteiro Filho, editor do portal Observatório da Infância, comenta que a regra número um é que a criança precisa ser vigiada. Os pais devem atentar para o tempo que a criança e o adolescente passam diante da tela do computador. “Não é saudável que tenham como única distração a internet. Hoje está todo mundo isolado. Os pais não podem ficar omissos”, afirma.
Lauro relata que na internet, as crianças estão suscetíveis a riscos como a pedofilia e o bullying, termo inglês para atos de violência física ou psicológica. Para ele, a segunda regra é o usuário não se identificar na internet. “Está cheio de psicopata e pedófilo que se aproveita do anonimato para fazer tudo, desde entrar na conta bancária até sequestrar crianças após marcar um encontro pela internet”, observa. Segundo ele, o filho precisa confiar nos pais. “Se não tiver carinho, limites e orientação, fica à mercê de qualquer pessoa. A internet é a rede da mentira e o paraíso dos pedófilos”, critica.
O médico alerta que as crianças que apresentam mudanças bruscas de comportamento podem ser vítimas de pedofilia. O primeiro sinal é de tristeza, introspecção, depressão. A criança quer se isolar cada vez mais. Outras ficam com a sexualidade genital precocemente ativada ou passam a ter uma linguagem inadequada.
Lauro ressalta que os mecanismos de internet segura e bloqueio de programas são uma boa saída. Ao mesmo tempo, ele comenta que a internet é uma rede de informações extremamente importante para o desenvolvimento infanto-juvenil. (L.A.)
POLÍTICAS DE SEGURANÇA
Nas escolas, os sites com conteúdo perigoso costumam ser bloqueados. Os professores até orientam os alunos a não acreditarem em tudo o que leem e não conversar com pessoas estranhas nem marcar encontros. Mas, na prática, o papel principal de proteção das crianças dos crimes cibernéticos é dos pais, opina a professora Renata Costa, mestre em Engenheira Elétrica e da Computação e pesquisadora de Informática na Educação.
Segunda Renata, os pais devem ficar atentos às políticas de segurança do site, para identificar a procedência, se ele faz parte de grupos educativos e se tem características para crianças. A professora recomenda que os pais nunca deixem o computador em ambientes isolados, numa sala ou escritório em que a criança navegue sozinha. “Na escola, o professor está junto. Em casa, é preciso esse acompanhamento. Se o pai não entende a internet, o filho começa a excluí-lo do que faz na rede”, diz.
Renata aconselha que os pais utilizem um dos muitos programas de software de filtragem e bloqueio de sites inapropriados. “Mas os pais não devem confiar nas ferramentas e sim acompanhá-los para ter certeza de que também não estão passando dados pessoais como endereço e telefone.” A professora diz que é importante incentivar as crianças a visitar sites educativos. (L.A.)
SAIBA MAIS
Para seu filho navegar com segurança
– Aprenda mais sobre a internet
– Limite o tempo de utilização da internet
– Estabeleça regras de uso de internet
– Aprenda a dizer não e seja firme na cobrança das regras
– Planeje horários de lazer com a família longe da internet
– Saiba onde seu filho navega. Procurem juntos sites interessantes
– Peça para ler o que ele escreve no MSN e no Orkut, que são portas abertas a qualquer tipo de pessoa, com boas e más intenções
– Mantenha o computador em uma área comum da casa
– Opte por programas que bloqueiam ou filtram sites
– Instrua seu filho a não divulgar dados pessoais
– Conheça os amigos virtuais do seu filho
– Caso encontre material ofensivo ou violento, denuncie
Fonte: Navegar com Segurança – Instituto WCF Brasil
Onde denunciar
– Polícia Federal: dcs@dpf.gov.br
– Campanha Nacional de Combate à Pedofilia na Internet: www.censura.com.br
– Centro de Defesa da Criança e do Adolescente: www.cedeca.org.br
– Rede Nacional de Direitos Humanos: www.rndh.gov.br
– Kids Denúncia: www.portalkids.org.br
– Ministério da Justiça: discagem gratuita para o telefone 100
– Conselhos Tutelares
– Varas da Infância e da Juventude
– Delegacia de proteção à Criança e ao Adolescente