Fonte:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?Codigo=443935
A tecnologia impulsiona as ações dos pedófilos, mas também permite que os peritos alcancem seus rastros
Crimes como corrupção de menores, atentados violentos ao pudor e outras práticas que envolvem a pedofilia têm se tornado assunto freqüente no noticiário atual. Longe de ser novidade, a prática da pedofilia, até o início da década de 1980, era feita por grupos de pessoas que se conheciam e trocavam fotos do tipo polaroid (que não precisavam ser levadas a um laboratório para serem reveladas) ou filmes domésticos através do correio ou em contato pessoal em clubes secretos. Com os avanços tecnológicos — como o surgimento das câmeras digitais, incorporadas até nos aparelhos celulares, e em especial a popularização da internet, a prática da pedofilia ganhou impulso e hoje atinge proporções próprias do mundo globalizado.
Como se verificou em notícias publicadas nos jornais recentemente, fotos de crianças e adolescentes em Fortaleza, expostas a situações de exploração sexual, podem estar em um curto espaço de tempo circulando por todo o mundo através da internet. ‘‘A rede mundial de computadores foi um divisor de águas para a prática da pedofilia, uma vez que sua utilização indevida uniu diversas comunidades de pedófilos em todo o mundo, facilitando seu intercâmbio e troca de experiências’’, afirma Jorge Ramos de Figueiredo, perito em forense computacional — ciência que, para fins de investigação, estuda a aquisição, preservação, recuperação e análise de dados em formato eletrônico e armazenados em algum tipo de mídia computacional.
Nesse contexto globalizado alimentado pela internet, o material produzido e coletado pelos pedófilos pode ser divulgado e até mesmo comercializado em sites no exterior que exaltam a sensualidade e a erotização precoce. Esses sites são, na maioria das vezes, hospedados em servidores fora do país, em mais uma forma de driblar qualquer tentativa de rastreamento. Hoje, de posse de um número de cartão de crédito internacional, qualquer pessoa pode registrar um domínio (nome de um site) e hospedar páginas na internet, em provedores de qualquer lugar do globo, sem sair de casa — tudo via internet. Alguns provedores de hospedagem ainda oferecem aos clientes a opção para que seus nomes não apareçam no registro de responsáveis pelo site. Este registro, para sites internacionais, pode ser consultado em sites como o
www.whois.net. Para sites nacionais (.br), o endereço é
https://registro.br/cgi-bin/whois.
Segundo Cláudio Freire Júnior, gerente do provedor de hospedagem ArgoHost.net, para não atrair atenção para si os pedófilos costumam registrar os sites com nomes e cartões de crédito de terceiros. Mas o gerente do provedor alerta: todos os arquivos enviados (via FTP para atualizar um site ou mesmo por e-mail) são gravados em um log pelo provedor, juntamente com o número IP da máquina, e fica registrado por 30 dias. ‘‘Por precaução, em nosso provedor armazenamos essas informações por seis meses’’, afirma Cláudio Freire. ‘‘O que geralmente acontece é que, para não serem pegos, os pedófilos fazem esse trabalho de troca de arquivos em cybercafés’’, acrescenta.
Buscando anonimato
Os chamados ‘‘pedo clubs’’ (clubes de pedófilos) utilizam-se de servidores com dois processos de armazenamento do material ilícito. O primeiro são os servidores de FTP (um protocolo de transferência de arquivos na internet), que são baseados em países que não possuem leis específicas que combatem crimes de natureza eletrônica ou de natureza sexual. ‘‘Citamos como exemplo os pequenos países do Leste Europeu e algumas ilhas da América Central’’, comenta Jorge Figueiredo.
Para tentar driblar as investigações e não deixar rastros, os criminosos do mundo virtual também contam com servidores ‘‘proxy’’ localizados em países distantes de sua área de atuação. Numa espécie de crime organizado no mundo virtual, os usuários mal intencionados mantêm esses servidores e trocam serviços entre si. Utilizando um servidor desse tipo, o endereço que fica registrado nos máquinas é o do próprio proxy e não o do usuário.
Outra forma de hospedagem e troca do material de pedofilia na internet é o uso das redes P2P (do inglês ‘‘peer-to-peer’’, ou redes de ponto a ponto). Neste caso, os computadores dos próprios pedófilos funcionam como pequenos servidores interligados, que compartilham os arquivos entre si através de programas como o eMule, o Kazaa e o Bit Torrent. ‘‘Basta somente que os interessados saibam dar origem ao argumento de busca, digitando uma palavra-chave ou um código nesses programas’’, conta o perito Jorge Figueiredo.
INVESTIGAÇÃO DIGITAL - Crimes virtuais também deixam pistas
Ao contrário do que se imagina, os crimes envolvendo a pedofilia na internet são perfeitamente rastreáveis e detectáveis, seja por meio de interceptação telemática judicial ou por análise forense computacional no equipamento apreendido em poder do pedófilo. É o que afirma o perito Jorge Figueiredo. O especialista, que também é professor na área de crimes eletrônicos na Academia de Polícia Civil em Fortaleza, destaca que há várias formas de detectar rastros deixados pelo criminoso no mundo virtual e de chegar à sua identificação.
Entre os rastros digitais deixados por um criminoso está o número IP (Protocolo de Internet) do computador utilizado por ele. O IP é uma seqüência de algarismos que identifica cada máquina que se conecta à rede. Mesmo que o usuário desconheça qual seja seu número de IP, nas transações realizadas via internet, como o acesso a um provedor, uma compra online, um envio de e-mail, esse número estará presente. Figueiredo também destaca que, no envio de uma foto por e-mail, por exemplo, além do IP da máquina remetente, o arquivo carrega informações como um número hash (número resultante de um cálculo matemático para atestar a originalidade da mensagem) e o endereço MAC (Media Access Control), capaz de identificar até a placa de rede do computador que enviou o arquivo.
Segundo Figueiredo, antes de ser interpretado pelo computador e exibido na tela na forma de foto ou um texto, o arquivo é na verdade um conjunto de caracteres que carrega uma série de informações (metadados). Essas informações mostram, por exemplo, quem o criou e a data e hora da sua criação. ‘‘Assim, é possível saber quem primeiro enviou uma foto e quem a reenviou, o que também é crime em se tratando de pedofilia’’, afirma o perito. Para fazer essa dissecação do arquivo, os investigadores utilizam um software editor hexadecimal, como o Helix, que contém o recurso FTK.
‘‘Os criminosos têm uma falsa sensação de segurança quando utilizam a tecnologia’’, diz Jorge Figueiredo. Mas a mesma tecnologia que incentiva os cibercriminoso a cometer delitos por trás da tela do computador, na ilusão de que não serão descobertos, é também a que contribui para a sua condenação. Com a tecnologia que os peritos têm ao seu dispor, até mesmo se o pedófilo deletar os arquivos do disco rígido de seu computador, isso não significa que as provas do crime não podem mais ser encontradas. Um software forense britânico chamado En Case é capaz de recuperar arquivos deletados ou apagados com a formatação do disco em até duas ou três camadas (quando a mesma região do disco é reutilizada duas ou três vezes). (EF)
CELULARES COM C"MERAS - Tecnologia traz novas ameaças
Enquanto antes da popularização da internet a prática da pedofilia tinha como aliados as câmeras fotográficas instantâneas do tipo polaroid e filmadoras domésticas de 8 milímetros, hoje as câmeras digitais e os aparelhos celulares com câmera integrada são as novas armas dos criminosos. Esses equipamentos têm recursos não só de fotografar, mas também de filmar e captar sons. As fotos e vídeos podem ser capturados por esses dispositivos minúsculos e portáteis até mesmo sem o consentimento ou conhecimento das vítimas — em ambientes como banheiros públicos, salas de aula, festas etc. Também contando com recursos de acesso à internet e comunicação sem fio Bluetooth e Wi-Fi, os aparelhos celulares com câmeras, nas mãos de usuários maliciosos, podem distribuir e lançar na internet suas imagens em questão de segundos.
Por conta desse risco, fabricantes de celulares na China e no Japão — onde esses aparelhos são uma verdadeira febre entre crianças, adolescentes e jovens — já são obrigados a incluir em seus produtos com câmera integrada o recurso de bip em alto e bom som, emitido toda vez que uma fotografia for tirada. A idéia é fazer com que ninguém tire uma foto de forma indiscreta sem ser notado. Esta solução ainda não está presente nos celulares comercializados no Brasil.
‘‘Quando alguém tira uma foto de um adulto em situação constrangedora, sem sua permissão, cabe ao adulto decidir se deve ou não exigir seus direitos. Mas quando isso é feito com uma criança ou adolescente, passa a ser crime de ação pública. Se algum usuário de celular for pego com uma foto dessas em seu aparelho, é considerado estado de flagrância’’, diz o perito Jorge Figueiredo. Segundo ele, a análise forense em aparelhos celulares é uma atividade que está mais adiantada na Alemanha e na Inglaterra. Um dos motivos desse tipo de análise ainda não adotado no Brasil é o alto custo do software utilizado. (EF)
GLOSSÁRIO
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Pedofilia Distúrbio em que o indivíduo sente necessidade e desejo de práticas sexuais com crianças. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a pedofilia não é crime, e sim uma doença ou distúrbio de comportamento. Os crimes, na verdade, são os atos libidinosos cometidos por aqueles que possuem o distúrbio, como atentado violento ao pudor, estupro e sedução ou corrupção de menores. A legislação brasileira também tipifica como crime a exposição ou exploração de imagem pornográfica ou de conotação sexual envolvendo criança ou adolescente.
- Número IP O Internet Protocol (IP) é uma seqüência de algarismos que identifica cada máquina que se conecta à rede. O número representa o local de um determinado equipamento (normalmente um computador) em uma rede pública ou privada ligada à internet.
- Bluetooth Tecnologia para a comunicação sem fio entre dispositivos eletrônicos a curtas distâncias. Uma foto tirada por um celular, por exemplo, pode ser retransmitida no mesmo instante para outros aparelhos (celulares ou computadores portáteis) que estejam ao alcance, numa área de cerca de 10 metros.
- Wi-Fi Tecnologia de comunicação sem fio. O ponto de acesso transmite um sinal sem fio num raio de cerca de 100 metros. Quando um dispositivo com o recurso Wi-Fi, como um computador portátil ou um celular, recebe esse sinal, pode na mesma hora conectar-se à rede sem fio.
- Hash Seqüencia de letras ou números gerados por um algoritmo. Essa seqüência busca identificar um arquivo ou informação unicamente. Por exemplo, uma mensagem de correio eletrônico, uma senha, uma chave criptográfica ou mesmo um arquivo. É um método para transformar dados de tal forma que o resultado seja (quase) exclusivo.
- WHOIS É um protocolo específico para consultar informações de contato dos responsáveis por um domínio (site) na internet. O protocolo WHOIS apresenta três tipos de contato: Contato Administrativo, Contato Técnico e Contato de Cobrança. Estes contatos são informações de responsabilidade do provedor de internet, que as nomeia de acordo com as políticas internas de sua rede.
- Endereço MAC Do inglês ´Media Access Control´, é o endereço físico da estação, ou melhor, da interface de rede. É um endereço de 48 bits, representado em hexadecimal. O protocolo é responsável pelo controle de acesso de cada estação à rede Ethernet.
- Servidor Proxy Um servidor, geralmente localizado em países distantes, que serve de intermediário entre o computador do usuário mal intencionado e o restante da rede, para tentar garantir o anonimato de suas ações na internet.
PREVENÇÃO
- Evitar o uso de fotos com caráter sexual ou erótico na internet (em serviços de messenger, e-mail, fotologs etc).
- Alertar os filhos quanto aos celulares com câmeras indiscretas nas mãos de colegas, que podem fazer uso indevido das fotos.
- Acompanhar a utilização da internet pelos filhos menores.
- Alertar os filhos para o fato de que muitos pedófilos atraem pré-adolescentes através de diálogos nos serviços de mensagens, com abordagens sempre ressaltando sua beleza e maturidade. Os pedófilos fazem a jovem sentir-se madura e capaz de tomar suas próprias decisões. Daí, partem para o convencimento de um encontro pessoal.
- Estimular o diálogo sobre o assunto e incentivar o uso dos sistemas de alerta e denúncias às autoridades para casos de abuso. Alguns sites oferecem a opção de denunciar a má conduta do usuários.
- Acompanhar crianças sempre quando necessário a banheiros de uso coletivo.