Fonte:
http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=7716
Entediados, viciados ou preocupados com a crescente violência na rede, membros destroem seus perfis no Orkut
“Cansei do Orkut. De toda essa exposição exagerada. Do monte de gente querendo ‘me add’, pra ser apenas mais um na lista de ‘amigos’ de um desconhecido. Dos ‘scraps’ com figurinhas, correntes, vírus, hoaxes. Cansei de debates vazios. Cansei de jogos narcisistas do tipo ‘dê uma nota pra pessoa de cima’ e outros jogos do tipo ‘bata com a testa no teclado’ infectando as comunidades...”
Foi com essas palavras que o estudante de Ciências da Computação de Florianópolis Cristian Moecke, 22 anos, resolveu se despedir do Orkut, o site de relacionamentos sociais que virou mania no Brasil desde que chegou à rede pouco mais de dois anos atrás.
O “bilhete de suicídio” reproduzido acima foi deixado na página pessoal de Moecke que, no lugar de seu nome, agora ostenta como título um fúnebre: “Aqui jaz o perfil do Cristian”.
Como ele, muitos brasileiros, que hoje são a esmagadora maioria no serviço, vêm abandonando o Orkut numa prática que ganhou dos próprios usuários o apelido de “orkutcídio”.
Expostos em comunidades como Eu Penso no Orkutcídio, com mais de 1.600 filiados, os motivos são vários e, além daqueles enumerados por Cristian, vão do tédio ao vício, passando pelas tradicionais crises de ciúmes e – desde que o Orkut passou a figurar nas páginas policiais como reduto de pedófilos e seqüestradores – o medo de superexposição.
“Temos recebido uma média de 30 a 50 e-mails por dia de pessoas relatando crimes e pedindo ajuda”, diz Thiago Tavares, presidente da ONG de direitos humanos Safernet.
Com seus perfis clonados, alguns usuários, mesmo sem saber, acabaram envolvidos em crimes de calúnia e difamação. E, nesses casos, mais que uma brincadeira, o “orkutcídio” é questão de segurança.
‘Orkutcídio’ é solução para vício, tédio e até para começar uma ‘vida’ nova
Usuários que já botaram um ponto final em suas vidas virtuais no Orkut e, em alguns casos, retornaram com perfis novinhos em folha contam ao Link por que resolveram deixar o serviço e como fazer para evitar possíveis recaídas
À primeira hora do primeiro dia de dezembro de 2006, 18 amigos deverão digitar login e senha pela última vez, acessar seus perfis e – pumba! – realizar o primeiro “orkutcídio coletivo” de que se tem notícia.
A brincadeira – que nem de longe deve ser confundida com um suicídio de verdade – vem sendo planejada pelo publicitário de Belo Horizonte Lucas Raposo, de 25 anos, que há algum tempo diz não ver mais a mesma graça no Orkut.
“No início é legal, por causa dessa função de reencontrar as pessoas e manter contato com aqueles que você conhece. Mas vai passando o tempo e aquilo deixa de ser novidade: acaba tomando mais o seu tempo do que dando prazer”, desabafa Lucas, que, não por acaso, escolheu a data do seu próximo aniversário como a ideal para deixar de uma vez por todas o mundo virtual dos orkutianos.
E, de quebra, ainda vai levar alguns deles consigo. “A princípio era algo só para amigos, para quem eu tinha comunicado minha vontade. Mas, como tudo no Orkut, acabou virando coletivo em pouco tempo”, afirma o publicitário, que chegava a “perder” 3 horas por dia flanando à toa pelo serviço.
Outro que vinha se sentindo incomodado com o “vício prejudicial” é o catarinense Cristian Moecke, de 22 anos.
“Notei que estava no trabalho, dava uma espiada no Orkut. Ia pra casa, espiava no Orkut. E fazia isso com uma freqüência razoável. Entrava pra ver se alguma coisa foi colocada nas mais de 100 comunidades de que eu participava. Futilidades, em 99% dos casos, mas mesmo assim uma estranha atração me fazia voltar constantemente lá”, conta.
A solução encontrada, explica Cristian, foi um “quase-suicídio”. “Sou o criador de uma comunidade de muito sucesso aqui da Universidade Federal de Santa Catarina e não queria abandonar a minha única criação do Orkut da qual me orgulho. Na verdade, passei-a para um perfil compartilhado e agora só entro uma ou duas vezes por semana para apagar propagandas e tópicos bestas”, diz.
Mais que “quase-suicida”, a engenheira brasiliense Lia Fernandes, 32 anos, é uma “orkutcida reincidente”. Ela se matou a primeira vez depois de um depoimento que se arrependeu de ter enviado. E a segunda, mais recentemente, quando o Orkut criou o detector de visitantes e a deixou numa “situação constrangedora por causa de um perfil que havia visitado”.
“O orkutcídio nos dá uma oportunidade de recomeçar ‘zerados’ e não cometer os erros do perfil anterior. Algo que não temos como fazer na vida real”, defende Lia.
Já as amigas Carola Gonzalez e Laura Caselli, de São Paulo, juram que o seu adeus dado ao Orkut é para sempre.
“Não via mais nada interessante lá. Só recebia vírus, aqueles links de bombas e peixinhos e spams de festa, que, na minha opinião, eram os mais insuportáveis”, comenta Carola, que, ao sair semanas atrás, não fez questão de mandar nenhuma cartinha de despedida aos mais de 900 “amigos” que acumulava desde os primeiros meses do Orkut, em 2004.
“Há pouco mais de um ano, comecei a receber convites de gente nua. Aceitava porque achava engraçado, mas não sabia que começariam a encher minha caixa de scraps com spams. O fim da linha foi receber convite para ser amiga de duas crianças. Nada contra elas, mas não tem nada a ver eu ser amiga do Chocolate, um dos caras 'desnudos', e de uma criança de 10 anos!”, brinca.
Laura, a amiga de verdade, saiu antes, e garante que há tempos superou a tal síndrome de abstinência: “Foi estranho sair porque eu usava muito aqueles scraps para falar asneiras com os meus amigos, e MSN é ruim porque você tem que falar com um monte de gente ao mesmo tempo quando não está a fim. No mais, as pessoas percebem que você saiu e começam a te escrever e-mails. Ligar é mais caro.
Preservar a intimidade é ideal para fugir de problemas
Nome, sobrenome, cidade onde vive, fotos do pai, da mãe, da namorada, do cachorro... O que poderia parecer um punhado de informações simpáticas e generosas aos olhos do internauta comum acabou convertido em um prato cheio para os mal-intencionados de plantão.
O crescimento no número de denúncias de pedofilia, seqüestros relâmpagos e crimes de calúnia e difamação cometidos ou facilitados pelas informações contidas no Orkut vem preocupando entidades de defesa dos direitos humanos na internet como a Safernet. Por dia, chegam de “30 a 50 e-mails” alertando ou pedindo informações sobre como proceder nessas situações.
“Muitos relatos são de pessoas que saíram do Orkut há um mês e se surpreenderam com amigos dizendo que viram seus perfis no Orkut. As pessoas estão criando perfis falsos usando as informações e fotos que os próprios usuários colocam na rede e, em seguida, acessando sites de pornografia e marcando encontros sexuais nas comunidades”, diz Thiago Tavares, presidente da Safernet.
Diante desse cenário, a ONG publicou recentemente em seu site (
www.safernet.com.br) a
Cartilha Diálogo Virtual, com informações e dicas de como navegar com maior segurança na web.
No item Redes de Relacionamentos, as recomendações incluem manter poucas informações em seu perfil; não colocar fotos sensuais; não comentar os lugares que você freqüenta e não utilizar o Orkut para marcar encontros, informando locais e horários onde você vai estar.
“Marque por e-mail ou telefone. Não faça isso pelo Orkut, onde há milhões de pessoas vendo”, alerta Tavares. “É preciso educar as pessoas a usarem a internet de maneira segura.” D.A.
Dicas para um ‘orkutcídio’ seguro
1 - ELIMINE OS RASTROS
COMO | Apague todas as fotos, lista de contatos e informações pessoais de seu perfil
2 - PUBLIQUE UM AVISO
COMO | Alerte os amigos para não mais deixarem scraps na página. O perfil leva até 24 horas para sumir
3 - REPARTA A HERANÇA
COMO | Passe o controle das comunidades que criou para amigos que continuarão no Orkut
4 - DIVULGUE SEUS CONTATOS
COMO | Escreva um e-mail para os mais chegados dizendo onde e como você poderá ser encontrado
5 - DELETE O PERFIL
COMO | Na Página Inicial, clique no menu Configurações e depois em Excluir Conta (abaixo da foto)