São Paulo — Uma pesquisa nacional divulgada ontem no Ministério Público Federal em São Paulo traz um alerta para pais que têm filhos que não desgrudam do computador. Segundo o levantamento inédito, 56% das crianças e adolescentes já se encontraram na rua com estranhos que conheceram em sites de relacionamentos e salas de bate-papo. Do universo de internautas que marcaram o encontro às escuras, 65% foram sozinhos. Na mesma pesquisa, feita pela organização não-governamental SaferNet, 53% dos internautas com menos de 18 anos disseram já ter se deparado com conteúdos impróprios para a idade que possuem.
Uma advogada de 34 anos ficou chocada quando viu na internet um perfil da filha de 13 anos em um site de relacionamento. Na descrição das atividades profissionais, constava que a menina era prostituta. Ao conversar com a filha, ela descobriu que a garota havia marcado um encontro na porta da escola com um adolescente de 17 anos que havia conhecido pela internet. Como a garota se recusou a beijá-lo, ele criou um perfil falso para denegrir a imagem da estudante.
Hoje, o falso perfil não está mais no ar e a advogada, que mora em São Paulo, processa o rapaz. “O que mais me chocou foi que eu procurei os pais dele para conversar e fui muito mal recebida. Ainda me mandaram tomar conta da minha filha”, diz, indignada, a advogada. Depois do incidente, a adolescente não pode passar mais de duas horas por dia conectada à rede.
Uma das dicas que o presidente da SaferNet, Thiago Tavares, dá aos pais é justamente acompanhar o que os filhos tanto fazem na internet. A menina que sofreu com o falso perfil no site de relacionamentos tinha um computador no quarto só pra ela e passava até quatro horas com a porta trancada, conectada. “Ela sempre me dizia que estava vendo desenhos”, conta a mãe. O levantamento apontou que 65% das crianças e adolescentes usam o computador no próprio quarto. “O ideal é que o computador fique sempre na sala, em local em que a tela esteja visível e acessível para toda a família”, sugere Tavares.
Precoces
Os jovens internautas também se mostram precoces e autodidatas. Segundo a pesquisa, 49% deles aprenderam a navegar sozinhos; e 32% tinham entre 5 e 9 anos quando se conectaram pela primeira vez. O psicólogo Natanael Alencar, especialista em crianças, sugere que os pais ensinem os filhos a navegar e desde cedo apontem os sites que contribuem positivamente para a formação das crianças. “O ideal é não impor proibições, caso contrário o filho vai para uma lan-house”, adverte.
A precaução impera na casa de uma designer brasiliense de 26 anos, mãe de uma garotinha de 6. Os cuidados aumentaram depois que o pai da menina teve um perfil no site de relacionamentos Orkut violado por um homem que escreveu ofensas à criança. Hoje, a designer monitora os passos da filha no computador e impõe limites de horários. “Sempre estou por perto quando ela entra na internet. Como ela está aprendendo a navegar, sou em quem ajudo e já dou dicas de proteção”, conta a mãe zelosa.
O levantamento da SaferNet — que ouviu 1.326 pessoas de 26 estados, sendo 451 pais e 875 crianças ou adolescentes de até 18 anos — aponta que o internauta brasileiro costuma expor sua intimidade. Setenta e dois por cento dos participantes do estudo dizem publicar suas fotos na rede, e 51% divulgam o sobrenome além do nome verdadeiro, algo que não é recomendado.
A procuradora federal Adriana Scordamaglia, integrante do Grupo de Combate ao Crime Cibernético do Ministério Público Federal, diz que os pais precisam ficar atentos porque a internet é uma porta para o mundo, incluindo os perigos. “As pessoas não fazem idéia da quantidade de adultos que entram em salas de bate-papo infantis como se fossem crianças”, ressalta a promotora. Já o coordenador da pesquisa, Rodrigo Nejm, avisa que, se os jovens brasileiros continuarem nesse caminho, o país vai virar uma China, em que o vício na internet é caso de saúde pública e 10% da população jovem está viciada na rede.
O número
1.326 pessoas participaram do estudo feito pela SaferNet para o Ministério Público Federal em São Paulo.